26 março 2010

Entrevista no Semanário Independente nº. 102, 20 de Março de 2010

Nguimba Ngola, figura emergente da Literatura Angolana

“Desejo ver maior interacção entre escritores consagrados e jovens”


Apesar das inúmeras dificuldades que os escritores atravessam para ver o seu trabalho publicado, Nguimba Ngola considera que escrever “é uma necessidade, é liberdade”. E sustenta com a frase de Jean-Paul Sartre: “Escrever é uma ação de desnudamento”.
Pai de cinco filhos, vê em Deus a sua fonte de inspiração. A crítica literária não o incomoda, porque gosta de melhorar o seu trabalho, e reconhece que “temos ainda muito poucos críticos sérios e profissionais”.

“Quero ser poeta oh minha mãe/para continuar a amar a vida/porque o poeta oh minha mãe/é um ser divino pactuando com o Eterno/na criação do belo”.
Nguimbo Ngola in “Mátria”.


Por Conceição Culeca

 

IN - Conte-nos o teu percurso até te tornares um escritor e declamador de poesia?

NN – Tudo começou quando frequentava o ensino de base na Escola Grande, no Cazenga. Tornei-me um excelente aluno na disciplina de Língua Portuguesa, o que me levou, em conjunto com os meus colegas da 5ª classe, a participar do concurso inter-escolar do programa televisivo “Quem sabe sabe” da TPA, em 1989.

Depois disso tornei-me um ouvinte assíduo de programas de rádio. É na Rádio Ecclésia, no ano de 2002, no programa “Algures na Noite”, que começo a recitar os meus textos e de escritores consagrados. Em 2005 conheço o movimento poético Artes ao Vivo e frequento com regularidade os seus eventos no Celamar e Docas 8 na Ilha de Luanda.

Naquela altura cheguei a conhecer Lukeny Fortunato, Kardo Bestilo e Dilson de Sousa, jovens amantes da poesia e mentores do projectos Lev´Arte e me associei activamente ao grupo.

Numa das actividades da Brigada Jovem de Literatura de Angola, tive o primeiro contacto com os escritores John Bella, Kudijimbe, António Panguila, Kanguimbo Ananás e o jovem Carlos Pedro, que me incentivaram a continuar a escrever e a ler muito.

IN – É oriundo de uma família de escritores?

NN – Não propriamente. Um tio meu cantava em conjuntos musicais na tropa. Terei tido um antepassado com dons artísticos. Tenho um irmão que está a descobrir-se na música, o Desejo Playa, a minha irmã gosta de cantar. Cantou no coral da igreja e fez teatro por um tempo.

IN – Onde nasceu a sua paixão pela literatura?

NN - É na infância que começo a nutrir o gosto pela leitura e consequentemente pela literatura. Aprendi a ler cedo, na iniciação. Aos sete anos lia um catecismo católico em kimbundo e português para os colegas de catequese na Igreja Católica de Paredes (Kimbinga). Meu pai, Paulo Augusto, o Kivota, foi a grande influência no meu gosto pela leitura. Em 1987 a minha família refugia-se nesta cidade, Luanda, por motivos de guerra. Perdemos todos os nossos bens mas o meu pai preservou vários títulos literários, para o meu deleite. Fiquei triste ao perder o livro de Ernest Hemingway “O velho e o mar”, que ele me havia ofertado. Ele dizia-me constantemente, “minha riqueza são os livros” e esta frase colou bem fundo na minha cachimónia, nunca mais me desliguei dos livros.

IN – Em que ano escreveste o primeiro livro e qual é o título do mesmo?

NN- Não me lembro concretamente quando comecei. Mas, o livro de poesia “Mátria” foi lançado em Julho de 2009, numa edição da Arte Viva.

IN – Normalmente que género de livro escreves?

NN – Sinto-me bem em escrever seja poesia ou prosa. A prosa tem haver com a narrativa onde encontramos o romance, o conto, a crónica. A poesia é mais difícil para mim, apesar da aparente facilidade.

IN – Qual é a sua fonte de inspiração para escrever?

NN- É Deus quem me inspira à acção. Depois, a realidade do meu dia-a-dia e das nossas gentes me dá motivos para agir escrevendo. A mulher é também, muitas vezes, fonte de inspiração, bem como a natureza.

IN – Tens alguém que é visto como o seu ídolo no mundo da literatura?

NN – Não diria ídolo porque aí me acusariam de idolatria (risos), gosto muito do estilo de alguns escritores tal é o caso de José Luís Mendonça, gosto do estilo do Abreu Paxe e do António Azzevas, Carlos Pedro e Nuno Júdice, de Portugal. Em prosa gosto de ler Pepetela, Manuel Rui, Boaventura Cardoso e o kota Wanhenga Xitu, Óscar Ribas; gosto ainda de ler Clarice Lispector, José Saramago, olha estou a divertir-me bastante ao ler o seu livro Caim, e tantos outros bons escritores.

IN – Ser escritor fazia parte dos seus sonhos enquanto criança?

NN – Não. Eu gostava de ler. Lia muito, como disse, influenciado pelo Papá, mas não sonhava vir a escrever também. O bicho ainda não incomodava. Sonhava em ser Padre.

IN – Durante o tempo em que escreves e declamas, qual foi o momento que mais te marcou?

NN – Foi o lançamento do “Mátria”. Os momentos que antecederam o lançamento foram altos também, o encontro com o editor, o estimado Jomo Fortunato, e o seu interesse em publicar o livro, conhecer escritores consagrados cujos livros eu lia avidamente. Agora estou apresentando a rubrica “Sugestões de Leitura” no programa Tchilar da Tpa 2, o que faço com muito prazer e acho pertinente, porquanto visa resgatar os hábitos de leitura na juventude. Considero-o também um momento alto, sem esquecer o grande evento de poesia organizado pelo Lev´Arte, no Hotel Trópico, onde assinei muitos livros.
IN – Ser escritor é difícil?

NN - Ser escritor em Angola é difícil. Acredito que em alguns países também se enfrente o mesmo problema, amando apenas a escrita.

Contam-se os escritores que vendem o suficiente para viver da escrita e, por isso, a maioria, para não dizer todos, fazem ou têm outros trabalhos. Mas ainda assim vale insistir nessa arte que alguns desprezam porque, como disse, escrever é para mim uma necessidade, é liberdade. Escrever é uma ação de desnudamento, disse uma vez Sartre. Por isso mesmo vou continuar a escrever, apesar das dificuldades.

IN – Qual foi a dificuldade que enfrentaste para lançar o teu livro?

NN – Devo dizer que tive um pouco mais de sorte em relação a muitos outros escritores jovens que lançam por sua conta, com muito esforço. O meu editor via-me nas tertúlias e gostou de um poema e sentiu-se motivado a publicar-me depois de ver o trabalho todo. Eu tinha já um patrocínio financeiro, e a editora entrou com o restante valor dos custos de publicação.

IN – Existe algum projecto em curso, para uma nova obra?

NN – Existe sim. Estou a trabalhar num livro há cerca de 4 anos, mas “baralhei-me” com um personagem e encostei o trabalho por ora. Tenho um trabalho já acabado. Sou insatisfeito e estou sempre a rever, e algumas pessoas experientes vão emitindo pareceres. Não devo me apressar porque diz-se que a pressa é inimiga da perfeição, então vou com calma. Vamos deixar as pessoas consumirem o “Mátria”.

IN – Como homem de letras, qual é o seu maior desejo?

NN – Desejo muito ver a nossa geração a abraçar os bons hábitos de leitura. Desejo ver a nossa geração a superar gerações passadas na qualidade das obras. Desejo ver mais valorizada a literatura angolana. Desejo ver a interacção dos escritores mais consagrados com os mais jovens, com aqueles a passarem a sua experiência de uma forma desinteressada. Desejo uma Angola culturalmente independente, conservadora dos seus mais sublimes valores.

IN – Qual é a sua opinião sobre o actual estado da literatura em Angola?

NN – Todo o interessado na nossa literatura vê que há muitos aspectos que apontam para um estado, diria, de crise. E aponto alguns factores que contribuem para essa crise, conforme o olhar de Isaquiel Corí, jornalista e escritor, com o qual concordo. É o caso dos concursos literários, que são uma das formas de incentivo à criação literária, estão reduzidos a menos de 3 prémios. A veiculação da literatura angolana nos mídias é deficiente para não dizer mesmo inexistente, tinha-se o Vida Cultural ou Vida e Cultura, suplemento no Jornal de Angola, sumiu. Há o aspecto das fracas tiragens das obras publicadas que vão de mil ou mil quinhentas. As poucas editoras também têm sua quota de responsabilidade. É preciso publicitar o livro e o autor. Sobretudo o livro. O sistema de ensino é fraco.

A escola devia ser um dos principais canais de veiculação das obras literárias, através de programas de leitura obrigatória. Há também a questão da crítica literária séria e profissional. Há um outro factor responsável pela crise da literatura angolana. O fraco activismo literário, exceptuando muito poucas e raríssimas excepções. Os eventos literário-culturais são raros e dificilmente são frequentados por figuras consagradas das letras.

A Universidade também tem a sua quota parte de responsabilidade. A literatura, em todo o mundo, é objecto de elevados estudos académicos. A literatura é imprescindível ao desenvolvimento humano de qualquer país.

IN - Considera-se escritor ou declamador de sucesso?

NN – Não me satisfaço com pouco, estou sempre procurando superar-me, estudar, ler, ler e ler. A língua é fundamental, tenho estado a estudar com afinco a língua e melhorar a qualidade dos meus escritos, logo, ainda não me considero escritor de sucesso. O sucesso virá a medida que eu for aprendendo mais e mais. Quanto a declamação, é uma outra arte, não me sinto um grande declamador mas estou crescendo.

IN – A crítica literária lhe incomoda?

NN – Não. Eu gosto da crítica mas nós temos ainda muitos poucos críticos sérios e profissionais. A crítica ajuda-nos a ver onde imprimir mais qualidade para que as nossas obras sejam bem conseguidas. Há um vázio nesse sentido. Estimo os poucos que vão tentando uma crítica responsável, tal o caso de Luís Kandjimbo, para citar apenas ele, outros os há certamente e vão tecendo opiniões nos prefácios das obras. Não escrevo pensando neles.

IN - Já escreveste algum livro para crianças?

NN – Não. Não é fácil escrever para crianças e admiro muito os escritores que o fazem. Quem sabe um dia e, porque até se tem escrito muito pouco para as nossas crianças.

IN – Encontramo-nos na febre de filmes e novelas de produção nacional. Tencionas um dia escrever uma ou outra coisa?

NN – Só o tempo dirá. Não é perspectiva de curto prazo. Quem sabe. Estou em desenvolvimento na literatura.

IN - Além de ser escritor, o que mais fazes?

NN –Em mim vive o Nguimba Ngola, que é escritor e poeta, e vive também o Isalino Augusto, que anda a estudar Gestão e trabalha como contabilista.

IN – Despido das vestes de escritor, como tem sido o seu dia-a-dia?

NN – Não consigo me despir das vestes de escritor. Tento sê-lo sempre. Estou sempre lendo alguma coisa, escrevendo alguma coisa. A outra metade em mim procura ficar ao lado da família.

IN – Entramos para a 3ª República. Faça um comentário.

NN – Queremos uma democracia forte. Apelar aos governantes que se empenhem nos seus afazeres pensando sempre no povo. Ainda deve soar as palavras “de ordem” (?) “o mais importante é resolver os problemas do povo”.

IN – Como vives os tempos livres?

NN – Nunca tenho tempo livre, estou sempre fazendo alguma coisa. Estar com a família, ir a praia e ler um bom livro.

IN - Onde passa as férias?

NN – Os poucos dias de férias que vou tirando passo-as aqui mesmo, em Luanda.

IN - Qual é a província que espera conhecer?

NN – Espero conhecer uma boa parte das províncias do nosso país, principalmente as do Sul.

IN – Qual é o estilo de música que mais gosta de ouvir?

NN – Gosto de jazz e blues, reggae, semba, gospel e kuduro.

IN - Qual é o programa de TV que mais gostas de ver?

NN – O Telejornal. Vejo também com prazer o National Geographic e os canais de filmes.

IN - Se tivesses oportunidade de mudar o mundo, o que farias?

NN –Traria o Paraíso aqui na terra.

IN - Vício?

NN – A Internet e apreciar mulheres bonitas.

Perfil

Nome completo: Isalino Nguimba da Cruz Augusto.

Filho de: Paulo Augusto e de Fátima Domingas da Cruz.

Data de Nascimento: 27/12/1976.

Estado Civil: Casado

Naturalidade: Dembos-Bengo.

Quantos irmãos tem: 9.

Filhos: Sou pai de 5 filhos. A Jaaziel Cassoni, Jael de Fátima, Elizabete Leonor, Joel Lino e o Jamiel da Paz.

Religião: Cristão Evangélico.

País de sonho: Angola. Aqui tem tudo que eu amo (o povo, a cultura, a gastronomia, etc) apesar da miséria social.

Desporto: Basketebol e Futebol.

Clube: Petro de Luanda e Benfica de Lisboa.

Cantor de eleição: Gosto de tantos… Hugo Masekela, Jonathan Butler, Paulo Flores, Bob Marley, Kleber Lucas.

Cor predilecta: Branco e azul.

Animal de estimação: O cão.

O que não gosta de ver nas pessoas: Arrogância, desonestidade, falta de amor ao próximo.

Se estivesse diante de Deus, qual seria o seu pedido: Sempre que estou diante de Deus eu lhe peço perdão e que me ensine sempre a amar o próximo.

Desejo da vida: Ser sempre feliz.

Sabe cozinhar: Não.

Comida que não dispensa quando está à mesa: Funge com qualquer acompanhante.

Bebida: Sumos, refrigerantes e água.

Qual é a marca do perfume que usas: Pacco Rabane, Black, Givenchy.

Virtude: Humildade.

Altura: 1,75 centímetro.

Nº do calçado: 43.

 
Devo revelar que …

Quando consumia álcool, lembro-me de ter adormecido com o rosto sobre o prato de comida, eu todo bêbado.

Um dia no programa Tchilar, o cinto da calça havia rebentado minutos antes de apresentar a rubrica, vi-me aflito pois a calça caía, tive de amarrar a calça com um lenço de bolso: bandeira.

Depois de um fim de semana cansado, a minha chefe apanha-me a cochilar e me confronta, eu repondi-lhe que não estava a dormir mas sim a orar.

Há no São Paulo um restaurante que frequentava com assiduidade, e comia o funge com os dedos. Os clientes estranhavam, olhavam-me chocados. Uma vez um mais velho gostou de ver a cena e pagou a minha conta. Animei-me.

6 comentários:

lita duarte disse...

Eme Nguimba,

Como estou gostando de vir aqui e ler-te.
Parabéns por você ser assim, comunicativo e tranquilo.

Um forte abraço.

Lúcia Leme disse...

Gostei desse post.
Você não tem medo de se mostrar.
Parabéns.

O quadro que lembra sua África foi pintado por uma pessoa que tem um profundo carinho por Angola.
Lita Duarte, pinta coisas lindas!
Posso falar, porque sou muito amiga dela, rsrsrsrs

Abraços.

Carmem disse...

Post interessante.
Gostei.

Bjus

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Parabéns, meu amigo. Gostei da entrevista e de te conhecer muito mais. Abencoado seja teu pai que te pos o bom vírus da leitura...
Kandandu, mano!

Nguimba Ngola disse...

Tamanha é a alegria que me invade quando vejo os amigos a visitarem o blog!
Obrigado Lita Duarte,(gostei das pinturas) Lúcia, Carmem, e o kamba Namibiano.

Um abraço a todos e muitos sucessos.

Benito de Andrade disse...

Graças ao amigo Nguvulu, cheguei até aqui e qual não foi minha surpresa ao deparar-me não com um blogueiro amilhado, como também não sou, mas, sim, com um escritor, um poeta, um vocacionado homem de letras e de lutas. Li atentamente esta brilhante entrevista e fique deveras orgulhoso em poder compartilhar da amizade e seguir o blog que é um laboratório de cultura.
A dimensão da poesia angolana, no meu ponto de vista, está em nível do universo poético poder representar a realidade histórica vivida simultaneamente pelos seus próprios poetas e pelos contemporâneos e ancestrais destes, cuja inspiração é fruto do sofrimento, da dor, da paixão, do amor e da compaixão, assim como da alegria e do ódio impregnados na pele, na alma, no coração, no cérebro e nas percepções sensoriais, não como uma tatuagem, mas como uma marca de um ferro incandescente, definitiva. Ou seja, a poesia da africanidade constitui a busca de um resgate paralelo, simultâneo, imediato ao fato histórico, ainda que a dependência tenha durado cinco séculos. Os poetas que aqui estão com seus poemas, os escritores, os pensadores, viveram o holocausto e a ressurreição de seu povo e ainda vivem e participam desse resgate diário, como uma conquista incontroversível, resultado da coragem e do desassombro inabaláveis de quem viveu sem esperança e sem medo diante da morte e acabou por encontrar a partir dela a própria vida.
Você faz da nova geração a dar continuidade ao fecundo trabalho dos seus ancestrais.
Parabéns, Nguimba!