15 Abril 2010

O sonho, a língua e os provérbios no “Vimbo Li´Olonjoi”



 
Boa noite minhas senhoras e meus senhores, ilustres convidados e amigos do autor. Destaco a presença do ilustre escritor Wanhenga Xitu, certamente o nosso mais velho aqui nesta sala em que os olhos secos de Kilamba nos observa.

Conhecemo-nos por mera casualidade num evento como este. Qual aprendiz a escriba, (ou escrevedor como diria José Menas Abrantes em “apuros dos poetas”) detive-o logo que o avistei pois dele já bebera alguns versos em “Raízes do Porvir” no “A luz alfabetizada das palavras” e ainda no “Vocifuca Colonyañe”. Despi-lhe imediatamente das outras vestes, pois desde menino o via nas mais variadas actividades inerentes às suas funções de tamanha importância públicas. Afastei rispidamente a teimosa timidez que de vez em quando tenta apossar-se de mim e lá soltei a língua. Trocamos algumas impressões e os contactos. Explicou-me resumidamente sobre o surgimento do pseudónimo Domingos Florentino e, daí em diante o contacto foi estabelecido ainda que relutantemente até me surpreender e de que maneira, apresentar o seu primeiro livro de contos.

É tarefa nada fácil para mim, o último dos que tacteiam timidamente no mundo das letras angolanas. Quanta ousadia! Mas ao mesmo tempo muito gozo pela honra que a mim foi concedida e, coincidentemente neste 14 de Abril o dia que relembra Hojy-ya-Henda e aclamado dia da juventude angolana. Ora, é exactamente o que eu desejo ver, a interacção dos escritores consagrados de outra geração com os mais jovens conforme asseverei em uma recente entrevista num jornal.

Dito o acima, passemos à ingente tarefa.

Na oralidade africana o contar é parte essencial da vida. O hábito de ouvir e contar estórias vem acompanhando a humanidade em sua trajectória no espaço e no tempo. É no sec. XIX e XX que a forma escrita ganha forma mas, a oralidade torna-se fundamental à literatura angolana, daí que muitos autores encontram nela socorro por ela mesma, a oratura, “encerrar em sí as conotações de um sistema estético, um método e uma filosofia” segundo Luís Kandjimbo referenciando Ngunji wa Thonga. (Revista Austral nº45, 2003)

Domingos Florentino, traz-nos assim o “Vimbo Li´olonjoi” onde nos leva alegoricamente para um mundo ou melhor “Terra dos Sonhos”. Ah e como é bom sonhar! E como escreveu Eráclito Alírio da Silveira “…quando eu sonho eu sou transportado para um mundo indizível, não sei se esse mundo é possível entretanto, tenho a premonição de que esse mundo já foi meu”. (http://www.eraclito.recantodasletras.com.br)

Eis que o autor de o “Vimbo…” leva-nos colectivamente para “Sikulo Ndavita” onde encontraremos todo um “hibridismo histórico-cultural” mas desde já acautelando-nos “assimilar esta toda ficcionada estória a qualquer tipo de realidade não passa de mera manobra perigosa” cautela que serve mais a estória do mais velho Kalavelu Lopesi, a segunda parte deste livro. No entanto, no “Sikulo Ndavita” sonhemos à vontade pois para Jung, o sonho “é um auto retrato espontâneo e forma simbólica da real situação no inconsciente”. Diria que o sonho eleva-nos no imaginário e na fantasia e em literatura, é essencial, é característico no conto.

No “Sikulo Ndavita”, onde encontraremos o maravilhoso, como um mundo de faz de contas, Domingos Florentino habilmente interliga acontecimentos estranhos que fogem ao nosso entendimento se são reais ou estamos perante a percepção do que é aceitável ou daquilo que é credível. Tome nota que o fantástico não pode ser explicado racionalmente. Simplesmente admiraremos tal como as gentes do “Sikulo Ndavita” com expressões ou “interjeições e locuções interjectivas” depois de terem acordado do sono:

“ – Haka, ene akwetu, ndicimuilanye, a suku yange, eló, a mâi wé, atate wé, e coisas assim” (pg. 16).

Mas o velho Já Sem Dentes-o-Tchamapunho, vem acalmar as gentes no seu linguajar difícil tentando expressar-se na língua estranha que não lhes pertencia.

“ – Num é wima nata! Num é wima nata! É sikulo nda vita! É sikulo nda vita!” (pg. 18).

Tal como nos diz o autor na nota explicativa, este hibridismo é um problema com que as nações africanas se debatem “fruto do contacto com as culturas forasteiras “impostas” e, por isso, não correctamente assimiladas” o que normalmente “vai resultar numa “quase” rejeição da própria identidade sem, no entanto se poder adoptar na plenitude o modelo supostamente superior proveniente do exterior”.

Para Jorge Macedo, estimado professor que viaja em outras luas, (ou na memória de Deus Pai Filho Espírito Santo?) “o contacto cultural com os demais povos não deve resultar na perda da personalidade do angolano no contexto dos seus valores antopológico materiais e espirituais” (Macedo 2006).

O conto “Vimbo Li´Olonjoi” pode ser também, ainda rebuscando o pensamento do professor Macedo “alerta para os nossos compatriotas constantemente mobilizados para abandonarem a sua riquíssima identidade cultural africana em busca da cultura universal, quando todos os povos cada um, de per sí, prezam os traços identitários e inconfundíveis da sua cultura”.

No “Vimbo Li´Olonji” é valorizada a língua pois ela traz consigo uma visão de mundo. Ela e os provérbios (destaque também neste conto) aparecem como elementos de valor na filosofia bantu, sendo a língua a base sobre a qual o pensamento assenta e, os provérbios a sua elaboração primeira.

Não é estranho portanto, ouvir Agostinho Neto, o poeta, dizer “... é mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não saber falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena... a maior parte dos poetas (Domingos Florentino o é) tem sido capaz de manter um contacto mínimo com populações do seu meio e identificar-se, traduzir a vida desses homens nos seus poemas...” e acrescento, nos contos como neste que ora vos apresento.

Em se tratando dos povérbios, Luís Kandjimbo nos diz “os provérbios ocuparam sempre um lugar de destaque nas obras dos autores angolanos do sec. XIX e XX” e cita entre os quais Cordeiro da Matta. Os alusapo ou jisabu (na minha língua, o kimbundu), constituem um conjunto de ditados e máximas caracterizados pela brevidade, e a ele associado uma estética de transmissão de pensamento, crenças, ideias, valores e sentimentos.

Domingos Florentino traz-nos muitos destes como se pode notar nas páginas 29, 33, 34, 35, 42:

“Weyile eye l´okuenda – tudo que sobe há de descer”; onduko yimola mola muele – as pessoas saem o nome que têm; cavonga omundi kapule vimbo – se um terreno aparentemente fértil está em pousio por muito tempo, vá a aldeia e pergunte, ou seja, quando a esmola é grande o pobre desconfia”, fiquemos apenas por estes exemplos.

Com uma organização simples, e onde a trama é linear, deleitamo-nos com personagens bem construídos cujos os nomes são a representação da suas acções. Os leitores vão saborear os alimentos típicos da terra, mais propriamente da parte sul de Angola como o iputa, a batata-doce vindos das ovapia e olonaka, os frutos do ocumbo e beber kacipembe, kandingolo, vão calçar olohaku e ainda vão temer a ociliangu e quiça, vão docemente apalpar (os rapazes) as raparigas nos oviwo. Portanto eis o convite para à “Terra dos Sonhos” onde as visões de Pokanano, Tchimutue e o passeio em Onirilãndia (espaços imaginários sem pressão de tempo e coisas assim) vão certamente encher-vos de gozo. Gozo que nos fará certamente muito bem na medida que também sonhamos com um país novo (renovado) em que os que tratam do bem estar das nossas gentes devem empenhar-se seriamente para tal e aí o sonho tornar-se realidade pois, bem sentenciou o velho Tchamapunho “ – Mulo vimbo li´olonjoi kalotele atundemo – isto é terra de sonhos, quem não sonhar que se retire daqui”.

Obrigado

Nguimba Ngola,

Mulemba waxa Ngola, 14 de Abril de 2010.

2 comentários:

Lúcia Leme disse...

É bom saber notícias de Angola.
Desejo sucesso p/ ti.

Abraços.

António Lemos disse...

Caro amigo Nguimba Ngola, visitei o seu blog e estou encantado com a qualidade que não tem nada a rotular com muitos outros blogs por aí. Quanto a apresentação do "Vimbo Li'Olonjoi" de D.F. fiquei estupefacto, parabens!