26 fevereiro 2010

A poesia de Matadi Makola

Segundo João Papelo, "a poesia como manifestação artística e subjectiva, de interpretação personificada e individualista é, num outro ângulo, uma terapia do ego. É uma breve viagem aos recônditos do íntimo. Uma contemplação espontânea do indivíduo relativamente a si próprio. A poesia traduz forte sensação de lazer, e guerra ao mesmo tempo; traduz uma esperança bailarina que não exclui o prazer de dançar com o desespero no mesmo recinto de encenação que é o papel. A poesia traduz os sentidos ausentes no presente; celebra o elo do passado com o futuro. Esta geração de Poetas que agora vem com o seu arsenal de criação, se não é um resultado da prossecução das outras gerações de escritores, como insistem alguns “críticos pessimistas” (invejosos é uma palavra abusiva e demasiadamente pesada), então ela é a geração subjugada aos velhos dotes de criação literária mais rudimentar resultante das suas capacidades cognoscitivas e reprodutivas. Reproduzindo assim um universo de imagens, metáforas, sinestesias e rítmicas resultantes do seu conhecimento mais científico da língua (onde estão os bons entendedores?)."

Com base no acima, apresento-vos o jovem poeta Matadi Makola, pseudónimo de Coimbra Augusto Adolfo, que nasceu em 1989 em Negage, tem poemas publicados no Semanário Independente e é estudante de Linguas e Literatura Portuguesa. Eis alguns dos poemas do amigo Matadi:

Transladação

Sob a música mística dos salalés,
Vem passear comigo nos becos do meu coração,
Que seja em nós, amor, o amar, destino e direcção,
Aragem movendo, suavemente, os nossos férreos pés.

Vem libertar, de mim, a mulher que escondo,
O teu par amor, para o transcendente duo,
Vasculha-me nos pensamentos e a carne que possuo,
Translada-te em mim sem o mínimo estrondo.

Que te espero em mim, e, de mim, respondo,
Aos sinais da sina onde sonhando-te actuo,
Para desaguar em ti, porque é em ti que me concluo
Princípio e fim… enfim… fechados neste círculo redondo.

Vem, meu amor, ver dos meus olhos tudo que vês,
Vem sentir, de mim, a fria aflição
Vem sonhar, do meu sonho, a cálida paixão,
Vem, meu amor, ser, no que sou, tudo que és.



Entre a rosa e o pão


O que te ofereço? Rosa ou pão?
Ó Luanda, meu amor, neste dia,
Em que os covardes amam na sua covardia,
Em que o amor testa o meu coração.

Talvez um beijo, ou um tostão,
Com que alimentes os miseráveis no teu leito,
Ou um afago escaldante que acorde no peito
Os rugidos gigantescos da nossa paixão.

Talvez, pelos desvarios, inúmeras palmadas,
Talvez um terno olhar, mas sem assédio,
Que caia na tua alma como um remédio
Das feridas que abafas nas almas fechadas.


Para a AURORA


Covarde, hipócrita me chamo,
Quando o meu coração oculta,
Quando nenhuma pedra escuta:
“AURORA, meu amor, te amo”

5 comentários:

Leonardo B. disse...

[abraço amigo, irmão de imaginários]

Leonardo B.

Florentino disse...

gostei de estar aqui que bom. força

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Obrigado por este maravilhoso poste de POESIA, meu caro.
Kandandu

Nguimba Ngola disse...

Olá amigos!
Agradeço vossa visita e comentários, voltem sempre.
Abraços ao Leonardo B., ao Florentino e o amigo Namibiano.

Anónimo disse...

Esta aqui um POETA que gostaria de conhecer mais. Tem veia artistica e tem uma bagagem de estudos literarios, que se espelha na sua obra.

Agora, é preciso cuidado, Nguimba, com o que dizem certos "criticos", como o João Papelo, quando afirma que "Esta geração de Poetas que agora vem com o seu arsenal de criação, se não é um resultado da prossecução das outras gerações de escritores, como insistem alguns “críticos pessimistas” (invejosos é uma palavra abusiva e demasiadamente pesada), então ela é a geração subjugada aos velhos dotes de criação literária mais rudimentar resultante das suas capacidades cognoscitivas e reprodutivas."

Isto parece uma DEFESA desnecessaria que ele esta a atribuir à vossa geraçao. é preciso nao cair em erros de analise da critica, a verdadeira critica. Uma obra vale pelo que ela é, nao interesse de vem da velha ou da nova geraçao. Sabes que ha poetas da velha geraçao que nao produziram NADA de poesia, em termos de ARTE poetica. Portanto, o que esta em causa nao sao as geraçoes, é a BOA ou MA poesia. Criticos pessimistas nao conheço nenhum. Invejosos também nao. O papelo parece nao domoinar bem o conhecimento daquilo que ele chama de "velhos dotes de criação literária mais rudimentar resultante das suas capacidades cognoscitivas e reprodutivas"; Quais sao esses velhos dotes? A poesia grego-romana? Indiana? Egipcia? Ou a poesia tradicional dos pastores kwanhamas? Ele leu que poesia de velhos dotes?



O Papelo tem de colocar no devido lugar a critica e os criticos e noutro lugar certas frases ou analises vulgares feitas por quem nao entende de poesia. Mas nunca vi nenhum BOM poeta angolano tecer criticas pessimistas ou ser INVEJOSO.

Um grande abraço do

Mendonça