07 julho 2006

Sonho despedaçado (conto)

O chorar das águas da chuva sobre o zinco a encomodavam de tal maneira que desistiu de estudar para o exame final no dia seguinte.
Os olhos cansados e doridos resultante do esforço que fazia para ler devido a fraca iluminação que a luz da vela lhe oferecia e o organismo a reclamar por descanso, levantou-se e foi correndo para o berço e aproveitar as poucas horas que ainda lhe restavam.
Beleza divinal, corpo angelical, olhos radiantes e uma farta cabeleira que fazia inveja a toda garotada do seu bairro, o Kandua. Os rapazes derretiam-se tentando de todas as maneiras conquista-la. Primo Xico vizinho dela já casado, tentara viola-la ao dar-lhe boleia da escola para casa.
Xula Pedro na sua extravagância, subiu no azul e branco a caminho do Instituto Médio do Kikolo onde estudava o 1.º ano do curso de gestão. Seus sonhos para o futuro giravam em torno de terminar os estudos e conseguir um emprego para ajudar a mãe Dona Sessa,viúva e, os seus sete irmãos menores sendo ela a primogénita. O pai tinha outros filhos, oito, com duas mulheres, para além de outras concubinas sabe-se lá deixou-lhes filhos também pois no seu enterro ouviam-se boatos de que tinha engravidado duas moças de dezassete anos, ele que já chegara aos cinquenta e pouco, era um verdadeiro ‘ngombidi’.
Xula não tinha duzentos dólares para pagar os professores, tinha negativas em quatro disciplinas e podia reprovar perdendo o acesso no ano seguinte, o que seria mais difícil ainda. Na sua cabeça um verdadeiro conflito.
“Mais quem vai me arranjar esse dinheiro todo meu deus, eu que estou numa verdadeira dibinza, agora é que estou paiada” pensava ela, enquanto reescrevia as perguntas da prova que estava fora do alcance dela devido a fraca preparação e, muitas das questões da prova eram matérias dadas superficialmente pelo professor da disciplina.
Xula já carregava kilapes a maneira e Mingota não parava de a pressionar pelos cem dólares de roupinhas do Brasil que estavam na moda.
_ Xula e cumué o kumbu então? Tens de pagar já, a minha tia vai viajar depois de amanhã, assim não dá para te dar mais kilapi.
Mesmo sem saber onde sairia o dinheiro ela se endividava para satisfazer o desejo de estar na moda. Outras vezes pedia emprestado as roupas das amigas quando fosse cair na noite.
_ Oi Sarita, empresta-me lá aquela tua ‘sintura baixa’, vou cair na noite, sabes as minhas roupas não me ficam bem p’ra ir na disco.
O namorado, este um homem já casado, enchia-lhe de promessas e usava-a e abusava-a até mesmo um dia ter feito aborto sob orientação deste.
_ Ta qui o dinheiro é ir já sacar esta merda da barriga, eu sou casado e não vou poder te assumir ta ouvi bem xe canuca. Dizia ele.
Depois da prova ela foi ter com o professor e tenta negociar a nota.
_ Prof estou mal, ainda não tenho dinheiro, mas gostaria que o prof visse minha maka.
O professor Ngulo a Kime estava nem aí, os seus olhos fitavam o umbigo parafusado de Xula e parte dos pelos púbicos a espreita, desnudou-a com intensos olhares e fornicou-a em pensamentos. Xula fingiu não ver o avolumar das calças do professor cheio de tusa.
_ Não tem maka aluna, isso resolve-se já. Dizia ele, mandando a aluna ter com o delegado, o Jorgito, seu intermediário no processo da corrupção.
_ Delegado, o prof mandou-me ter consigo.
_ Yá dama está aonde a massa então, eu ponho já o nome aqui na lista.
_ Mas delegado eu já falei com o prof.
_ Bem se já falaste com ele é melhor ele me pontualizar, porque aquí é só mesmo massa a não ser que...
_ A não ser que... anda delegado fala.
_ Bem é assim, eu sei que o prof te curte bué, e que tal se lhe dares uma fezada, ele até te ajuda já noutras disciplinas mesmo sem massa dama. Insinuava o delegado que já sabia das malandrices do professor Ngulo a Kime. Ele também já tirou ‘proveito’ das safadezas do professor, ‘comendo’ a Saluka.
Xula pensou na possibilidade, ‘bem e se o prof me disser que quer me ngombelar e me ajuda mesmo a passar em todas? Também não vai custar nada né, uma rápida e pronto, aquele gajo do meu namorado também não quer ajudar só promete, porra isso já é demais’. Xula lutava com os seus pensamentos enquanto seus passos cruzavam a sala dos professores.
_ Prof e cumué então a minha maka? O delegado insiste em pedir dinheiro e eu ainda não tenho prof, me ajuda só depois te pago.
_ Bem aluna é assim, vamos fazer um acordo. Disse o professor Ngulo a Kime enquanto tirava água do bebedouro.
_ Que tipo de acordo prof? Xula fica ansiosa, ‘o que será que ele vai me dizer?’
Dá um gole na água e dirige-se para a aluna _ Me dás a rata, transamos numa boa e ta tudo resolvido, eu trato de tudo nas outras disciplinas tásse?
_ Mais prof, isto até é muito feio! Não acredito no que estou a ouvir. Xula fingia muito bem, já esperava ouvir aquelas besteiras do professor.
_ O feio mesmo vai ser reprovares e ficares um ano em casa.
Xula baixa a cabeça, os pensamentos corriam-lhe intensamente na cachimonia ‘e se... mas e se ele...’. O professor no seu jeito malandro insistia com a Xula e esta não resiste a pressão e cede.
As mãos do professor Ngulo a Kime apoderaram-se das tetas de Xula e a outra serpenteou a vulva. _ Mas prof aqui? _ Calma aluna não tem maka só estamos nós todo mundo já saiu. Enquanto respondia já ele tinha o seu orgão genital entesado que atravessa as entranhas de Xula e, esta deixa-se dominar deitando sob a bata que trazia e, pimbas!
O professor Ngulo esquecera-se de que o Director do Instituto ainda estava lá dentro só que tinha deixado o carro no portão de entrada. O delegado também ainda estava lá com os guardas e denuncia o professor ‘o prof Ngulo está fechado na sala dos professores com uma aluna’. Este vai a caminho da sala dos professores e cruza-se com o Director e empurram a porta que afinal Ngulo a Kime não fechara devidamente.
Xula e o professor Ngulo a Kime foram apanhados com a boca na botija. Foram literalmente escorraçados do recinto escolar depois de fotografados pelo Director com seu telemóvel. O assunto virou manchete no JA, notícia de primeira página “Professor e aluna surpreendidos a fazerem amor na sala de professores no IMGK”.
Xula e Ngulo a Kime foram expulsos do sistema de ensino por decreto ministerial.
E o sonho de Xula de terminar os estudos ficou despedaçado para o desepero de Dona Sessa que sentiu como que um golpe com uma machadada na sua esperança de melhorar a vida com o apoio da filha.

2 comentários:

A.Hipolito disse...

Trata-se de um romance crítico dos costumes. Mesmo não sendo reais as presonagens, estas corporizam a extensa realidade , infelizmente, banalizada no dia-a-dia das urbes angolenses. O actor do romance, Nguimba sendo também estudante sabe bem do que escreve. è um tema candente que devia mobilizar toda a sociedade a fazer dele uma bandeira de luta pela moralização das instituições e da sociedade angolana.

Anónimo disse...

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