26 janeiro 2010

Sobre a Língua Portuguesa em Angola, como língua oficial

A língua oficial de um país é aquela que é considerada como única, a língua que todos habitantes do país precisam saber, que todos precisam usar em todas as acções oficiais, i. é, nas nas suas relações com as instituições do Estado. Ela, a língua oficial, tem um aspecto muito importante, é parte do que caracteriza a identidade de um povo e de sua nação.



Como angolanos, adotamos (foi-nos imposta) a língua portuguesa e é no conjunto dos elementos que identificam a nacionalidade angolana, um aspecto a considerar. No entanto, quando da chegada do colonizador, o povo angolano já possuia suas línguas que ascendem a mais de uma dezena de línguas e dialectos. Embora ter sido por vías de um processo impositivo, a adopção do português como língua de comunicação corrente em Angola permitiu a veiculação de ideias de emancipação em certos sectores da sociedade angolana e facilitou a comunicação entre pessoas de diferentes origens étnicas.

Com o objectivo de preparar-me para o exame de acesso à Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, no curso de Línguas e Literaturas Africanas, fiz alguma pesquisa na internet sobre a questão da língua portuguesa em Angola. Entre variadíssimos artigos no espaço cibernético, encontrei um texto escrito por um português que vivenciou a imposição da sua língua ao colonizado e o menosprezo das línguas locais. Sem a autorização do autor, ousadamente faço a postagem do referido artigo que me deixou em reflexão com o objectivo de manter-mos vivo os meandros do surgimento da Língua hoje oficial. O artigo vem em resposta a pergunta: Qual é a importância e origem do português em Angola? Publicada no site: http://www.ciberduvidas.com. Eis a resposta:

“Temos de partir do princípio de que o país Angola foi criado através de um pacto de colonização interno, depois da partilha de África pelas potências europeias. Foi um pacto entre o colonizador e o colonizado, entre o vencedor e o vencido, entre o ocupante e o ocupado.

A unidade territorial Angola, criada, penso, a partir do século XIX e mantida até hoje, não dispunha de nenhuma língua sua, mas antes de sublínguas com a mesma raiz, um pouco como as línguas europeias neolatinas.

As principais eram (e são): kikongo, kimbundu (quimbundo), umbundu (umbundo), tchokue e cuanhama, considerados pelos portugueses como dialectos. A língua portuguesa foi-se impondo como a língua da totalidade angolana, uma imposição de fora. A ideologia da colonização era simples neste aspecto: sobrevalorizar a língua do colonizador e desprezar, de acordo com os interesses estratégicos do ocupante, as sublínguas locais.

Isto culminou com a exclusão das línguas locais do ensino e com o processo de "assimilação". O que era a assimilação? Muito simples: os colonizados não eram cidadãos portugueses. Não tinham direito a bilhete de identidade. O que os tornava "legais" era: 1 - o cartão de trabalho assinado diariamente pelo patrão; 2 - o imposto indígena reconhecidamente pago. Caso contrário, eram presos nas rusgas diárias e encaminhados para: 1 - obras públicas (estradas); 2 - serviços domésticos (os colonizadores tinham o direito de ir à prisão da esquadra policial escolher um "rapaz" não nascido em Luanda ou Malanje - os destas regiões eram considerados falsos nas suas relações com os colonizadores; os do "sul" eram considerados "pretos fiéis" e por isso com muita procura para os trabalhos domésticos. Os colonizados não podiam por isso casar, mas "amigar". O casamento era para os "mestiços" (a quem os colonizadores chamavam "africanos": uma senhora "africana" era uma mulher mestiça).

Para se tornarem "cidadãos portugueses" tinham de prestar provas: ser católico praticante, dormir numa cama, ter o exame da quarta classe, falar bem português, ter só uma mulher, comer com garfo e faca, isto é, ter costumes "europeus exemplares". Isto é: o que para um qualquer branco era adquirido por nascimento, para o colonizado era adquirido depois de difíceis provas, em que, muito provavelmente, muitos europeus reprovariam.

Assim se impôs a língua portuguesa, através de redes de pequenos colonizadores, nas cidades e nos campos.

Eram comerciantes, donos de terras concedidas (depois de rapidamente expropriadas aos colonizados), etc, etc. No meu tempo, raros eram os negros ou mestiços que passavam da quarta classe para o liceu.

Exemplifico: no meu tempo fui companheiro de três ou quatro crianças negras ou mestiças no ensino primário, para centenas, se não milhares, de brancas. Logo no primeiro ano do liceu só havia um negro na minha turma de 40 alunos. No meu ensino complementar para Direito, havia uma média de 50 brancos para quatro negros e mestiços. Todos os outros ficavam pelo caminho. Isto para uma população de 500 mil brancos – 5 milhões de negros/mestiços.

A língua portuguesa nunca se misturou com as línguas locais, consideradas inferiores. Se houve alguns portugueses que conseguiram, pela sua prática de comerciantes, falar correctamente a língua local, a grande maioria utilizava apenas expressões muito pejorativas dessas línguas. Passo a exemplificar: o que se ouvia os colonizadores (neste caso os brancos) dizer, em tom de galhofa, era: "sundu ia maienu – cona da mãe; tuje - merda; munhungo – prostituição – «a gaja é uma preta do munhungo", etc, etc.

A língua portuguesa impôs-se não pela convivência, não pela procura de uma língua de mistura (ou crioula), mas pela exclusão forçada das línguas locais. São raras as expressões de línguas locais que a língua portuguesa absorveu: "maka - problema".

E é interessante ver as "nuances": um preto era sempre um rapaz, quer tivesse 10 ou 100 anos, sempre tratado por tu pelos brancos; o filho de um branco era sempre o menino; um branco era sempre o patrão; a mulher do branco era sempre a senhora; a mulher negra era a rapariga; a mulher mestiça clara era a senhora africana; os mestiços claros eram os cabritos; os negros escuros eram os pretos fulos; os pretos perigosos eram os calcinhas (de Luanda) e os malanginos e catetes; os pretos "amigos" dos brancos eram os bailundos ou os cabindas, os pretos fiéis.

Os filmes ou eram para "maiores de 13, assimilados e interditos a indígenas", ou "para maiores de 6 e indígenas". Isto é, um indígena (um negro sem BI) era considerado até à morte como uma criança menor de seis anos. O Cinema Colonial (no bairro de S. Paulo) estava assim estratificado: bancos de cimento sem costas, mesmo à beira do ecrã, para indígenas; a superior, bancos corridos de madeira com costas, para mestiços e assimilados; cadeiras individuais para os pequenos brancos; camarotes, para os menos pequenos brancos. Esse cinema chama-se hoje Popular e preencheu-me o dia-a-dia da minha meninice e adolescência. Os colonizadores nem sonham que foi aí, entre um filme de Tarzã e outro do Zorro e do Roy Rogers, que eu aprendi a ser anticolonialista convicto e, sendo branco, tornei-me antibranco (porque o branco era a face visível da tirania e da opressão), um menino de 10 anos revoltado contra o racismo, não teórico, mas ali ao meu lado, preenchendo todo o meu espaço vivencial.

Foi nessa altura que eu comecei a aprender a língua kimbundu (quimbundo), por manuais feitos por missionários. A tal ponto que ainda hoje, se me perguntarem qual é a minha verdadeira língua, eu respondo automaticamente: o kimbundu, mas também o português. Esta visão pode chocar, mas o que escrevi sou eu próprio.

Rui Ramos :: 17/12/1999”

Fonte da foto: zala.fotosblogue.com

12 janeiro 2010

Lutando Contra as Trevas

Nos séculos passados muitos homens e mulheres, conseguiram a proeza de eternizar seus nomes na história, apesar de suas deficiências. Penso neles com muita estima e admiração e, vejo como Deus capacita os incapacitados de tal modo que superam em muito pessoas sem deficiencias. A lista destes notáveis é grande bem como a variedade de deficiências.


No campo da literatura, soam alguns nomes com deficiência visual. Luís Vaz de Camões, Jorge Luís Borges, Thomas Blacklock, Oscar Ribas, Hellen Keller e outros tantos. Fiquei seriamente pensando nestes dois últimos, ele africano e ela americana. Certamente são exemplos de superação que inspiram-nos, abaixo alguns extractos de suas vidas e obras.

Oscar Ribas


Óscar Ribas nasceu em Luanda a 17 de Agosto de 1909 e muito cedo perdeu a visão, facto que não o impediu de se dedicar com afinco à literatura, onde se destacou como pioneiro da ficção literária em Angola.

Aos 18 anos de idade Óscar Ribas iniciava a sua carreira literária, abrindo um período de publicação das novelas "Nuvens que passam" e "Resgate de uma falta", publicadas respectivamente em 1927 e 1929.

A seguir torna publico "Flores e Espinhos", "Uanga" e "Ecos da Minha Terra" dados a estampa entre 1948 e 1952 com intervalos de dois anos entre estas publicações.

Conforme Luís Kandjimbo, em toda a produção literária posterior, Óscar Ribas demonstra na verdade uma propensão pouco comum entre os escritores da sua geração e mesmo em gerações posteriores. Revela-se profundamente preocupado com os temas da literatura oral, filologia, religião tradicional e filosofia dos povos de língua kimbundu. Destas preocupações resultam a sua bibliografia dos anos 60, nomeadamente Ilundo - Espíritos e Ritos Angolanos (1958,1975); Missosso 3 volumes (1961,1962,1964); Alimentação regional angolana (1965); Izomba - Associativismo e recreio (1965); Sunguilando - Contos tradicionais angolanos (1967, 1989) Kilandukilu - Contos e instantâneos (1973); Tudo isto aconteceu - Romance autobiográfico (1975); Cultuando as musas - poesia (1992); Dicionário de Regionalismos angolanos.

Óscar Ribas foi por diversas vezes distinguido com prémios e títulos honoríficos: Prémio Margaret Wrong (1952), Prémio de Etnografia do Instituto de Angola (1959), Prémio Monsenhor Alves da Cunha (1964). Quanto a títulos, com que foi agraciado: membro titular da Sociedade brasileira de Folk-lore (1954), Oficial da ordem do infante do governo português (1962), medalha Gonçalves Dias pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1968), Diploma de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura ( 1989)


Helen Keller

A vida de Helen Adams Keller é a história de uma criança que aos dezoito meses de idade ficou cega e surda e de sua luta árdua e vitoriosa para se integrar na sociedade, tornando-se além de celebre escritora, filosofa e conferencista, uma personagem famosa pelo trabalho incessante que desenvolveu para o bem estar das pessoas portadoras de deficiências.

Nasceu em 27 de junho de 1880 em Tuscumbia, Alabama, descendendo de família tradicional do Sul dos Estados Unidos. Seu pai, Capitão Arthur Keller, era homem de influência em sua comunidade, editor do Jornal “The Tuscumbia Alabamian” e foi nomeado Prefeito do Alabama do Norte em 1685.

Em 1904 graduou-se bacharel em filosofia pelo Radcliffe College, instituição que a agraciou com o prêmio Destaque a Aluno, no aniversário de cinquenta anos de sua formatura. Falava os idiomas francês, latim e alemão. Ao longo da vida foi agraciada com títulos e diplomas honorários de diversas instituições, como a universidade de Harvard e universidades da Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Em 1952 foi nomeada Cavaleiro da Legião de Honra da França. Foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Brasil, com a do Tesouro Sagrado, no Japão, dentre outras. Foi membro honorário de várias sociedades científicas e organizações filantrópicas nos cinco continentes.

Em 1902 estreou na literatura publicando sua autobiografia A História da Minha Vida. Depois iniciou a carreira no jornalismo, escrevendo artigos no Ladies Home Journal. Outros títulos da querida Hellen;

• Optimismo - um ensaio

• A Canção do Muro de Pedra

• O Mundo em que Vivo

• Lutando Contra as Trevas

• A Minha Vida de Mulher

• Paz no Crepúsculo

• Dedicação de Uma Vida

• A Porta Aberta

• A história de minha vida

Concupiscência



Sensual


A carne

O cerne

Da questão

É tremendo conflito

Sinto-me aflito

Desvanece-se a ética

No olhar da ave

A trave no meu olhar

É sedução pecaminosa?

Ó desejo

O prazer é anormal afinal?

Os contornos dos lábios

É fel e o mel também jorra

A alma amarrotada chora

Os deleites proibidos

A libido é poder que arrasta

O sonho que sucumbe na frustração

De ter o fogo na palma da mão

Sensual

A carne de barro

Ansioso o espírito na contramão

Dos valores na pós-modernidade

Desejos pertinentes a mocidade

Na cidade que sucumbe à decadência

Sensual

A carne

O cerne

Da questão

É tremendo conflito

Valha-me Deus

11 janeiro 2010

Coisas do Futebol

Estou com dificuldades em controlar as mãos que não param de tremer. É tanto nervosismo, tudo causado pela decepção causada pela selecção de Angola no CAN Orange Angola 2010. Fiquei de tal modo afectado pois a dúvida inicial que eu sentia pelo team de Angola, começou a desvanecer-se quando a cabeça brilhante de Flávio Amado introduziu dois golaços na baliza adversária. A alegria invadiu-me e gritei e pulei enfim, vibrei ao máximo. Surgiu os penalties e a coisa pegou fogo, para no fim a falta de inteligência dos nossos compatriotas levarem-me a desilusão. Coisas do futebol.



Aprendi no entanto que futebol é um jogo com noventa minutos e a bola tem de rolar até o fim, aí então determina-se o vencedor, aprendi que o excesso de confiança pode muitas vezes atrapalhar nossas conquistas, aprendi que depois da alegria pode vir a tristeza. Aprendi ainda, melhor dizendo, confirmei a verdade de que os seres humanos têm a tendência de culpar os outros pelos erros cometidos, não assume suas responsabilidades pelos erros, as falhas. Como pode Manuel José culpabilizar somente os jogadores?

Ok, assim foi o jogo no moderno estádio 11 de Novembro que recebeu milhares de adeptos com cores e som e muita festa. Eu queria hoje ver a senhora primeira dama da República e seu esposo, eles vibraram. Ana Paula pulou literalmente, gritou e certamente deve ter dito no final, fracos, faltos de inteligência. São apenas conjecturas.E assim foi o jogo.

Cultura Angolana


A cultura angolana é deveras muito rica. Nossos hábitos e custumes, nossa filosofia de dimensão africana, acima de tudo angolana. Nossa música e nossa dança, nossa gastronomia e nossas línguas, nossas crenças e tradições enfim, nossa cultura. Todos nós devemos adotar uma postura mais actuante para consolidarmos nossa identidade cultural.

Manguxi, na ocasião da tomada de posse do corpo directivo da UEA dissera:

“Hoje, a nossa cultura tem de ser reflectida tal como ela é, sem deformações”.

“Nós estamos numa encruzilhada de civilizações, de ambientes culturais, e não podemos fugir a isso de maneira nenhuma. Mas da mesma forma que nós pretendemos manter a nossa personalidade política, também é preciso que nós mantenhamos uma personalidade cultural”.

Em 1986, o Estado angolano institucionaliza por decreto número 21/86, o 8 de Janeiro como sendo Dia Nacional da Cultura. Este ano como sempre, refletiu-se sobre o dia com várias actividades culturais, o acto oficial foi na Lunda, terra da minha kamba Lueji Dharma. Os meu amigos da Brigada Jovem de literatura também brindaram a data com um sarau cultural na União dos Escritores Angolanos. Não pude estar presente, mas no entanto não me alheei a data porquanto estive no programa Tchilar da TPA2 na rubrica "Sugestões de Leitura" que apresento. Leitura é também um modo de bebermos mais da nossa cultura.


Viva a Cultura Angolana, mais cultura mais Angola.

08 janeiro 2010

The Kings Club e a poesia





Ok, uma caldeirada gostosa para o jantar. Uma garfada e o olho na tela a pensar o que escrever hoje. Não consigo muitas vezes jantar com os meninos pois eu encontro-os já a dormirem. Minha esposa e também a minha maninha, estão com os olhos colados à televisão, direi que são viciadas em novelas? Penso que sim pois não perdem nenhum episódio das novelas brasileiras que invadem os lares angolanos. São 22 horas e 53 minutos, cansado depois da jornada mas ainda me animo para soltar algumas letras, afinal assumi um compromisso, escrever todos os dias. É bom porque sinto novamente o fogo, a paixão de escrever. É como o alcoólatra que pára durante um tempo e, basta provar um golinho para voltar ao vício.

O dia foi pesado no meu ganha-pão. O chefe pressionou-me bastante, tive deadlines muito apertados e lá me esforcei para cumpri-los. O meu ambiente de trabalho é deveras bom, os colegas apoiam de uma ou outra forma e, como sempre o Nelman no seu estilo meio sarcástico e meio cómico, vai fazendo o pessoal descontrair com suas piadinhas. Hoje a conversa girou em torno da homossexualidade. Ele não tolera gay.

_ Porra homem africano de verdade não pode ser gay, essas cenas começaram com os pulas. Nós não tínhamos tempo para desenvolver esses hábitos, os homens iam a caça e as mulheres faziam seus trabalhos próprios de mulher, não se via homem a acarretar água .

_ O homossexualismo é antigo Nelman, a Bíblia inclusive regista isso. Acrescentei.

_ Yá por isso mesmo, é coisa dos pulas. Eu não posso ser amigo de gay. Concluiu.

No final do expediente aproveitei actualizar meu blog e ler mais alguns emails. Neste interím, lembrei-me da poesia. É sobre este assunto que vou concluir meu texto hoje. O Lev´Arte, movimento incansável na promoção da arte, com destaque para a poesia, retornou ao local de origem. Foi há 3 anos que começamos (sou membro fundador do movimento) com o recital no espaço aconchegante do “The Kings Club”. Com sentimento nostálgico voltei ao espaço de então, senti-me alegre. A Quinha notou minha animação e ainda me questionou a causa dessa alegria porque quando falamos ao telefone eu estava sem ânimo, sentia-me cansado. (Um dia falarei mais sobre a Quinha, minha grande kamba).

Foi uma noite agradabilíssima, acreditem, a poesia faz magia, apazigua as almas dos fantasmas do dia. Foi bom rever amigos das lides poéticas, o Shinya Jordão, o Edson, o Nzacran Muntu a Nfumu, sempre irreverente na sua forma de declamar, o Kardo Bestilo nosso boss autor do livro Controverso e, tantos outros amigos da poesia. Aproveitamos dar-nos os kandandus. Na re-estreia do espaço, primeiro dia poético em 2010, a casa ficou abarrotada superando grandemente nossas expectativas apesar de já prevermos casa cheia. O Lev´Arte atrai boa gente para deleitar-se com aprazíveis momentos. Não será exagero dizer que é o único movimento em Angola com essa dinâmica para promover a arte poética. Todas as quintas-feiras do ano, de modo incansável, mesmo muitas vezes sem espaço apropriado para o efeito (por exemplo na praça da independência a céu aberto e sem instrumentos sonoplasticos).

A noite foi recheada de cor e som e palavras. Teodósio Paulo, Kimbalambe e Gino Sacra, estes jovens me convencem a cada dia com sua poesia já madura. O Kiokamba Cassua, nosso apresentador sacou grandes palmas e a plateia em histeria vibrou com o seu famoso poema “gotinhas do meu sangue” bem como o Wilmar Tembo com a magia nos dedos e nos lábios que dedicou uma música linda à Bárbara Sindoka. Outro artista da música foi o Day Mond que veio da Alemanha onde vive há mais de dez anos, a plateia em pé vibrou. Um dos momentos altos também foi a presença do jornalista desportivo Sílvio Capuepue que teve um momento de franco diálogo com a plateia sobre o CAN Orange Angola 2010. Respondeu a perguntas da plateia sobre a fraca divulgação do referido certame, falou também dos grupos e principalmente do grupo de Angola e concluiu dizendo que devemos manter um otimismo moderado porque até a nossa selecção não está muito bem preparada mas vamos a luta. Ainda sobre o CAN, vários artistas associam-se a festa contribuindo com sua arte, o declamador Molhado Arte foi um dos que deu seu show com um poema sobre o ansiado evento.

Concluo dizendo mais uma vez que a noite foi o máximo, fiquei inspirado. Também dei meu show fazendo-me de fotógrafo com posições acrobáticas para sacar umas boas pictures e, declamei o poema “recital do quotidiano” do livro Mátria. Dei boleia as meninas Nhali e Carolina, amantes da poesia e com o Fernandinho a acompanhar-nos. O rock desse cantor cristão é contagiante. Cheguei a casa e dei o beijinho da praxe a madame. Agora vou mesmo é deitar-me, não, vou antes ler alguns versículos da Bíblia e depois um banho gostoso e cama. Aleluia.



Mulemba waxa Ngola, 07 de Janeiro de 2010. 23:59´.

Escrever e ponto final


Aqui sentado na minha sofrida cadeira diante do amarrotado laptop, abro o processador de textos e procuro escrever, escrever qualquer coisa. Afinal um escritor escreve e, como me assumi escritor, devo arduamente empenhar-me na tarefa da escrita. Ótimo, o escritor deve escrever até aqui nada de novo. Surge daí a questão, sobre o que escrever?

Há uma infinidade de assuntos para se escrever a respeito. Muitas vezes penso que já se escreveu sobre tudo mas na verdade na verdade, ainda há muito assunto sobre o qual escrever e porque cada escritor escreverá sobre um assunto no seu estilo, terá certamente uma visão diferente da minha. Sendo assim sobre o que vou escrever? Ainda não sei, me fugiu a inspiração. Escrever é uma necessidade do escritor. Verdade que não me abandona o pensamento. Comecei a escrever um romance há já alguns anos e não avanço, bloqueei-me com um personagem, não saio daí. Vou escrevendo alguns poemas de quando a quando e um ou outro artigo para enviar ao meu amigo editor de cultura de um semanário da banda e não mais do que isso. Fui acometido de um apagão mental.

Vou já no quinto dia do novo ano e nada ainda escrevi. Fico aborrecido com essa ideia de não escrever coisa alguma. Nem mesmo um poema medíocre escrevi (quem determina a mediocridade de um poema?). Bem, sendo que um ano tem 365 dias, comprometo-me a escrever cada dia pelo menos uma página, ao final desse período terei escrito muitas páginas de seja lá o que for; (poderá até ser a maior mediocridade literária, mas terei escrito alguma coisa só pela necessidade de escrever) pensamentos, reflexões, crónicas, contos, poesia ou qualquer outra coisa diferente disso, mas tenho de escrever, afinal sou escritor.



Escritor é lutador

No suor dos teus dedos

Escreverás palavras molhadas

Palavras ressequidas escavadas

No túmulo da etimologia

E desenhadas pacientemente

Ainda que alfinetadas na mente

Coloquem pedras na inspiração

Pedaços da nossa tradição nossos

Hábitos e custumes resultarão estéticos

Nunca no diletantismo inconsequente

É comunicar o eu ao outro é necessidade

Escritor é desbravador



Até este parágrafo, não sei ao certo em que género classificarei estes textos, talvez até chamarei a isso um diário ou que seja (preciso mesmo classificar?), tenho de escrever diariamente. Está dito e ponto final.



Mulemba waxa Ngola, 05 de Janeiro de 2010. 22:36´

07 janeiro 2010

A Razão do Verso


Nos últimos tempos, o surto editorial que tem movimentado a literatura angolana, faz sobressair novos escritores mais propriamente no género poético. Isto demonstra o interesse da juventude angolana por este género. É devido a sua aparente facilidade na concepção? Que assim não seja pois o labor poético exige um acurado trabalho oficinal. Afinal, poesia sendo criação, o que não é o amontoar de versos, é antes de mais o trabalho acurado da palavra que é “rio de espinho” e também “suor da caneta”. E Eugénio de Andrade diz que “Poeta é pastor do ser, sublinhando a interacção profunda entre o ser e a sua revelação no acto poético”.

Mas qual é a “razão do verso” dos jovens poetas como; Nok Nogueira, Chaahoo Avô Ngola Avô, Leila dos Anjos, Kardo Bestilo, Orlando Kinguzo, Denise Kangandala, Zé Ndunguilo, Carlos Pedro, Babata Marouf e Nguimba Ngola? Analisemos o discurso destes poetas que ora seleccionamos pelo simples critério de termos em posse seus livros, certamente outros há que vão publicando seus textos reunidos em antologias como “Dunas do Deserto” de poetas jovens do Namibe e ainda outros que publicam em forma de áudio, tal o nosso amigo poeta e declamador Fridolim Kamolâkamue.

Segundo o professor Jorge Macedo, “… parece problemático juntar a idade à circunstância de o escritor ter aparecido a público pela primeira vez pela grande razão de ser a qualidade, maturidade da obra que afirma o escritor, servindo o tempo mais para aquisição de experiência ou até de decadência, estagnação. Por vezes publica-se a melhor obra quando se é jovem, nunca mais se repetindo a proeza. O termo jovem transporta consigo a tentação de confundir juventude com iniciação…” ( in Poéticas na Literatura Angolana). Daí que entenda-se juventude neste texto, novos poetas, e isto ajuda-nos a colocarmo-nos no nosso lugar, nosso espaço literário sem no entanto minimizarmos a qualidade dos nossos escritos.

Posto o acima, ora vejamos Denise Kangandala, justificando a razão da sua poesia “Hoje escrevi no verso da mão o clamor do universo/pelo amor me perdi na razão da mente…// escrevi o anseio do verso para que o universo me chamasse/ pela graça e pelo abraço da esperança…” (Ascensão Cósmica-Nzila 2008, pg43). Para Orlando Kinguzo, “a poesia caminha de noite” é nesta hora que o jovem poeta constata que “a existência arrasta-me atrás da sorte/ agasalhando-me com poesia e luar/ nos instantes de angústia e solidão”. (A Arte de Sentir-Nzila 2007). Zé Ndunguilo, o poeta do Uíge, dialoga com o receptor da sua mensagem comunicando-lhe que “na hora do prelúdio/ a minha voz/ rarefaz os barcos/ de cartolinas de plástico//…penso irrigar o recinto/ do vulcão/ da minha palavra/ para somar victória/ a minha voz/ (entre) cruza/a fé do vento/ e nomeia com a boca/ a ondulação do (re) gato” (Prelúdio Sobre o Fogo dos Oceanos-Dilanel 2008, pg22).

O nosso confrade Carlos Pedro, irreverente no seu discurso, mostra-nos que “o poeta faz das viagens da vida/ pegadas do passado/ armazena nos versos da alma/ dilemas das épocas de outras luas/ são versos gerados pela caneta do quotidiano//… o poeta toca a guitarra do tempo/ eternizando a voz do dia/… de tempestade?/ de arco-íris?.../ não importa/deposita-os/ no kafocolo da nostalgia.” (Pegadas do Passado-UEA 2009, pg5). Nok Nogueira, vencedor do prémio literário António Jacinto 2004, canta um tempo africano em que a “nomenclatura do verso africano” nos revela a razão do verso, “meu verso tem discurso modesto na senda do pranto/ na gramática poética africana há uma memória proverbial/ um ritual sinfónico no sémen das gerações um sincero gesto de amor”. (Tempo Africano-UEA 2006, pg46). Em Babata Marouf, o poeta das Lundas, o verso é livre como andorinha que “vibrando nas cordas do ar livre/ na arquitectura dos sentidos”. (Livre Andorinha-BJL/LN 2009, pg11). Para Nguimba Ngola “é nganza nas curvas do verso/ em cada bolso uma opinião/ um senão” apesar do olhar desprezível de alguns “vigias” que “mastigam a semântica/ na erudição/ Mente esclarecida/ no lago das metáforas que pintam/ no cume da paz”. A “doce poesia” dos novos poetas é “Rosto opaco/ olhar subjectivo”, e como escrevemos “nego-me aos caprichos da tradição e da erudição/ sigo livremente nos trilhos da criação/ e costuro poemas de Paz e Amor e Consolo/ na marginal da vida” (Mátria-Arte Viva 2009, pg50,52).

Lemos em “Dicionário Breve de Termos Literários” de O.Paz e A.Moniz que “a riqueza de um texto literário procede justamente do equilíbrio que resulta da sabia articulação entre forma e conteúdo traduzindo-se numa sugestiva e criativa interpretação do homem e da sociedade, apartir dos aspectos regionais e nacionais de uma dada época e dos valores universais e metalinguisticos”. Podemos notar essa riqueza nos poetas acima analisados e destacamos a qualidade formal, isto é, os elementos fono-acústico da língua com que Carlos Pedro tece sua obra. Kardo Bestilo nos traz o verso como sendo um “Controverso” obra editada em 2007 pela Europress que na sua forma, em alguns lugares, se nos apresenta como “poema em prosa”, apropriando-nos da expressão de Baudelaire (pequenos poemas em prosa, 1869) que visa designar a composição poética, em razão da sua beleza formal (musicalidade, ritmo), ainda que despojada de métrica e rima.

A vasta maioria dos poetas acima carrega um grande sentido lírico exprimindo desta feita a onda afectiva, emocional e sentimental do sujeito emissor, tal podemos notar por exemplo em “Angels-UEA 2005” de Leila dos Anjos onde os “efeitos contraditórios e desconcertantes da paixão amorosa” sobressai, apesar de ser “Poesia Pura” como diria Edgar A. Poe que, visa paradoxalmente desnudar o texto poético de artifícios retóricos. No entanto, ela é “voz promissora” como nos garante Vasconcelos, AB, autor de “Tábua”. Os jovens poetas também tendem a ser satíricos desferindo com linguagem muitas vezes não lógica, reticente e sugestiva, crítica social com doseada ironia e sarcasmo. Assim entendo C.Avô Ngola Avô quando escreve “Cor da fome// não deixem/ que as muletas/ atinjam a/ cor da fome” e ainda “na minha garganta/ há uma camioneta/ com matriculas de / fome e ódio// na minha garganta/ há um prédio de cem/ andares de corpo anémico”.

“A mensagem dum escritor, se não é claramente indicada, pode depreender-se dos temas mais recorrentes do seu texto, sobretudo no caso daqueles que … fazem uso mais abundante dos métodos surrealistas” A. Kambwa (2003, p138). É assim que captamos a mensagem codificada dos poetas que “hora cantando amor hora cantando desamor… lutando pela liberdade da vida” nos escrevem;
“Sonho desnorteado na insónia das areias sonolentas”, “aqui trago as mágoas ironia do sorriso na embriaguez da alma” “oh!.. deus dos homens que não entendo jamais o sol acordará”. Carlos Pedro com “palavras molhadas” dando voz à “pobres flores” “com caras de ruas anémicas/ já não sonham a coroa da glória”. Zé Ndunguilo levanta ainda o “lamento” e questiona “por que razão não/ moldar o astro esquivo no deserto/ da miséria” e ele avisa “não castrem a semente/ da promessa/ que fiz ao sol/ sobre a minha (des) memória/ amarelada de cor discriminada”. Na verdade a razão dos versos dos novos poetas continua sendo “um espelho dos anseios, esperanças, temores, sonhos, que se debatem na alma juvenil” daí que, Nguimba Ngola vislumbra “nos caminhos surreais da alma” “uma esperança” e “o sorriso do mendigo reluz na praça pública/ beijando sonhos de um céu transparente/ que resolva “os problemas do povo”.

Assim sendo, caros confrades e leitores, ainda há “a necessidade e urgência de os escritores se organizarem colectivamente para prosseguirem nesta longa luta do nosso povo para a conquista de um futuro digno, liberto de todas as formas de alienação, exploração e dependência, numa sociedade democrática e progressista” (Carlos Ervedosa – Roteiro da Literatura Angolana-UEA).
Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, 18-19 de Outubro de 2009. 6:57´.

Quando penso na poesia, ela fica cada vez mais longe: qual é a sua Pátria afinal?


Por Abreu Paxe


Falar de poesia continua a revelar-se um exercício complicado. Cada vez mais, ela torna-se mais indefinível, mais elástica e mais labiríntica, alicerçando recuos e avanços, apelando constantemente memórias. Ao abordarmos a poesia de Nguimba Ngola, reunida sob o título genérico de “Mátria”, levou-nos, a propósito do que colhemos, a questionarmo-nos mais uma vez sobre o que era poesia, evocando todos os sentidos que possuímos e que nos orientam para abordá-la, aliás, a própria poesia funda-se num permanente exercício de questionamentos, tanto na perspectiva de quem a produz, como de quem a aborda pela leitura. Tomo a leitura aqui de forma mais genérica. Dizia, questionávamo-nos pelo facto de sabermos à luz das teorias da literatura, mas propriamente da estética da recepção, que havia poesia de leitura e poesia de escrita. Então, trazendo ao de cima estas evidências, surge-nos a pergunta castradora. Onde situar a poesia que nos chegou à mão? Sabemos ainda que a poesia da leitura visa construir a dialéctica do desejo e do jogo que suscita a fruição. Uma poesia que provoca o leitor na sua função de produtor e de colector de signos que ele vai repescando ordinariamente e os combinar para formar sentido, mas do que lhe propondo uma poética de escrita, ao modo da poesia experimental, ou ainda, da concreta. Escrita predominantemente conotativa, é verdade, mas que desvia o leitor e dá-lhe a vil tentação de construir novos sentidos para as palavras, para privilegiar as relações entre o texto e o leitor, levando-o a ler e a reler, até a formação de uma constelação de significados probabilísticos e talvez efémeros, mas todos com alguns elementos de fruição e prazer.


O texto poético de Nguimba Ngola, pelas nossas constatações, está alicerçado num discurso fluido e marcantemente dialogal e, as vezes até, denotativo, nomeando referentes imediatos. Este tipo de poesia, embora com textos que pareçam dizer claramente tudo, esconde nas suas profundezas elementos que não revelam com evidência a informação dos signos. Estes ludibriam seguramente uma leitura linear, exigindo do leitor a necessária lupa para vigiar estes signos. E, é daí, onde vamos extrair esta constelação de significados, partindo do próprio título que também nos pareceu ser um forte indicador de leitura. A palavra “Mátria” que dá título ao poemário que estamos a apresentar, pelo seu significado, dá-nos a ideia da pátria vista do lado feminino. Ao pensarmos nisso, somos assaltados pela ideia da Mãe, que é África, o berço da humanidade, o que o poeta alude como “África mãe do cordão umbilical p.31”.


Pensamos também na mãe criada pelo poeta através das imagens e símbolos que dão força e expressão ao topos da nossa experiência comum, o que acontece, por exemplo, por um lado, com as zonas de fronteira que o poeta cria ao introduzir termos kimbudu em textos como, “(…)/no cume do cérebro do Ngana Kota(…)// Ndengue dilaji pinta o algodão(…)//Muloji a kime/Kine mo túbia(…)” em nas labaredas da incompreensão p.19, termos como Kúmbu em Malefícios do vício, p.20, termos como mulemba waxa ngola em Mulemba waxa Ngola p.35, “(…) (Ana mbwiji adila xinde dimoxi)” em Versos de perdão p.59, “(…) no estômago desgraçado de Nga Sessa(…)//Kudile mamã, não chores não oh minha mãe (…)// Dixibe ngó mamã(…), em Olhos brancos de maçaroca p.75, e, por outro, como a semiosfera criada com termos locais como “(…) tem valor guardar a mabanga do prazer/para salalé comer?(…) p29, “Kúmbu sujo”, “amiga da zunga//(…) quinda na cabeça//(…)zunga Luanda(…)// Amigo está aqui a fruta frutinha gostosa é cinco kwanzas p. 76”, “kissângua, cola, gegimbre de amor, p.80”, “salta golpes no cavalo azul e branco/ adormecido no trânsito, p.81”. O nosso poeta também fala do lar, das ruas, do musseque, de pai, do filho, de criança, de garrafinhas, de bica bidon, de cassumbula, do há dar aí revista e ninguém me revista, da escola, da unidade familiar, da noite, da pobreza, da riqueza, da dor, das calemas, das pétalas, do amor, da fauna, dos tambores, do kilimanjaro, do kissanje, de kalandula, do kalahari, do petróleo, de Shengor, de Neto, de Lumumba, de Cabral, de Mandela, de Darfur, de abutres, de liamba, de libanga, de malambas, de bangas, de Ngola Kiluanje kia samba, de Cacuaco, do Sambizanga, do Farol das Lagostas, do Cemitério do 14, da sanita madalena, de Ondjaki, de Kafukeno, de sereia, de sarjetas, de esgotos, de lixo, da mbanza Luanda, da vitória é certa, do Unguanhã, da mulemba, dos quibutos, do candongueiro, dos mendigos, dos desafortunados. Tudo isto, aparece deliberadamente exposto nos seus textos, para demonstrar o seu desejo de esculpir palavras: “meus olhos lambem a rubra poeira/transportadas nas vértebras da pobreza//meus olhos saboreiam o paladar lamacento/de ruas incontornáveis de miséria (…) //o brilho multicolor da imundice p.85”, “é a vida que se vive aos olhos da quianda p.84”, “(…) nas ruas da cidade na mocidade dos dias/ sem barulho dos canhões da outrora p.78”, “Quero a minha madrugada límpida e serena/devolvam-na já oh mestres da escuridão p.79”, por isso, “Meu sangue verseja/o recital do quotidiano (…)//(…) (n)o contraste da hierarquia/ na anarquia dos rendimentos (…)p.81”. Fica assim demonstrada a retórica alterneira a serviço de temas sociais e políticos.


Em suma, o registo estilístico, do texto que estamos a apresentar, pode ser inventariado a partir daquilo que Eco alude como o prototexto que nós percebemos a partir do metatexto, neste caso a poesia de Ngimba Ngola, ao vigiarmos a organização das séries temáticas tais como acima se aludiu e aproximá-las aos músicos como Rui Mingas e Teta Lando no texto da p.22 e com Valdemar Bastos no texto da p.76 e das Gingas em Mbanza Luanda. Mas também ao vigiarmos, em termos formais, as obras de semelhante organização temática: em Camões com o mote e a glosa, na sua poesia épica, a forma como o nosso poeta organiza os cinco momentos de que se compõe o livro, vem-nos isto à memória, em José da Silva Maia Ferreira, às dedicatórias e os ecos do romantismo, poesia relação social, daquela poesia ramo de flores para os amigos como escreveu Mário António, ilustrados nos textos do quarto momento, em Cordeiro da Mata com as características adivinhísticas na construção do texto, ilustrados nas páginas 70 e 71 em Chaves Douradas e Xé Félito respectivamente, em Viriato da Cruz no seu aspecto coloquial, em Agostinho Neto e tantos outros poetas, citados num outro texto nosso de apresentação, no hibridismo linguístico.


Os elementos acima apontados constituem-se em referências inequívocas da arte e poesia não só do mundo, no caso de Camões, como de Angola e com eles, ainda hoje, poetas como Nguimba Ngola vão mantendo recorrentes afectos e confirma o diálogo com a primeira fase de formação da nossa literatura e não só.Esta possibilidade de leitura que nos dá Nguimba Ngola faz com que o mesmo se institua como poeta e viva a poesia, como ele mesmo diz “Tateio no escuro dos versos/a escuridão poética é profunda/trilho forma e conteúdos dispersos/na hermenêutica da palavras//É um paradoxo/a cor da poesia/pintando na tela das correntes/quentes do dogmatismo coxo//Eu solto humildes versos/ magia das palavras/que brindam as pétalas da mente/com aprazíveis sinfonias//nego-me aos caprichos da tradição e da erudição/sigo livremente nos trilhos da criação/e costuro poemas de Paz e Amor e Consolo/na marginal da vida//é a poesia que faz a magia/nas pontas livres dos meus dedos// viva a poesia p.52”. Postos aqui e inventariando os elementos que proporcionaram a nossa caminhada que trouxe até cá, olhando ainda para este texto do poeta que vimos apresentar, concluímos que quando pensamos na poesia, ela fica cada vez mais longe de si mesmo e de nós. Por isso, fica a pergunta necessária para pensarmos na poesia, para pensarmos na literatura, para pensarmos na teoria literária. Qual é a pátria da poesia?

06 julho 2009

A Mátria de Nguimba Ngola


Segundo Luís Adriano Carlos, na Universidade do Porto, a Mátria é uma ideia que seduz espíritos insatisfeitos com as perversões morais e políticas da ideia de Pátria. Cita Miguel de Unamuno, o espanhol que fundou o matriotismo para designar um sentimento alternativo que desse resposta ao fracasso do sentimento patriótico. Para Unamuno, “...o amor de mãe é o mais racional dos amores e o mais inteligente”.

Nguimba Ngola, o poeta que lançará o seu primeiro poemário no dia 11 de Julho, “Mátria” em que mescla a ideia de terra-mãe (motherland) com a idéia de concepção, de “Mulher Mãe da Vida” e diferente da ideia do Padre António Vieira que criou o vócabulo mátria, muito antes de Unamuno, no seu Sermão de Nossa Senhora da Conceição, pregado na Bahia em 1639, e da Mátria de Natália Correia.

A Mátria de Nguimba Ngola, é a mátria angolana, africana, dividida em cinco sublimes momentos em que nos convoca ao diálogo ou tão somente à reflexão e faze-lo no “regaço da Mátria”, que certamente é aconchegante.Desde o momento em que há “desassossego no lar” a perda dos valores familiares, muitas mães lamentam diariamente na nossa mátria angolana bem como a própria terra-mãe que é acometida de vários males sociais. São várias as consequências do “malefício do vício que mortifica a paz e a harmonia” e “despedaçando o fel da violência/que esfumaça solta no mar” e a delinquência juvenil marcada pelo consumo de drogas. Eis a constatação do poeta “Luzes cintilantes que iluminam o olhar surdo mudo/do cambonga que navega errante no mar concupiscente/da liamba e libanga e outras bangas” consequentemente vem a imoralidade sexual pois “as uvas verdes perdem o hímen/tão cedo/sem medo” resultando em “Erros que matam” como escreve Antónia Sónia Gomes no seu romance (2007).

Nguimba, no seu fazer poético que certamente não se trata já de um João Maimona ou José Luís Mendonça, nem um Rimbaud ou Baudelaire, pois ainda terá que galgar muitas picadas no labor das palavras, continua nos convocando no segundo momento a adentrarmo-nos na sua visão de mundo para quiça nos rever nos seus versos, pois ele, “absorto nos versos suculentos da reflexão/tacteio no Regaço da MÁTRIA/com sentimentos fracassados/com ternos conselhos/com dúlcidos sonhos/ansiando amor e paz/e Metáforas de Esperança.”. Ele escreve que “Na escuridão da alma desabrocham fantasmas/que exalam mistérios enfronhados na carne/e mortificam o deleite atingindo o cerne/das questões filosóficas causando traumas”. Estes traumas que afectam milhares dos filhos da terra-mãe angolana e os famintos em Darfur.

O poeta no entanto, não perde a esperança pois “O fogo dos meus olhos alegra-se com o instante utópico/banhando-os com lágrimas de esperança/pois amanhã haverá bonança nas entranhas da MÃE”. Ele nos convida a sermos “...empreendedor do amanhã/arquitecto do sonho do camboga do Unguanhã/transformando Angola no canteiro de amor.” Sendo Ungunhã, um bairro perdido no vasto musseque do Sambizanga, a metáfora dos bairros dos sofredores .

Ngola, como dissemos acima, não se considera já o tal poeta transcendental, há de sê-lo, pois notamos em diálogo com sua mãe, terra-mãe, a sua mátria, que “Quero ser poeta oh minha mãe/para continuar a amar a vida/porque o poeta oh minha mãe/é um ser divino pactuando com o Eterno/na criação do belo”. Ele não está preocupado com “os vigias” que “mastigam a semântica”, reconhece que o labor poético é “Suor da caneta” no entanto não deixa de ser “Olhar subjectivo”. Ele escreve:“É um paradoxo/a cor da poesia/pintando na tela das correntes/quentes do dogmatismo coxo//Eu solto humildes versos/a magia das palavras/que brindam as pétalas da mente/com aprazíveis sinfonias//Nego-me aos caprichos da tradição/sigo livre mente nos trilhos da criação/e costuro poemas de paz amor e consolo/na marginal da vida.

Mátria traz também o lado mais lírico da alma do poeta, no quarto momento veremos que :“desabrocha nas pétalas do coraçãosentimentos desejos puros e turvos pensamentosa musa colorida dos meus sonhos me eleva nospíncaros do (des) prazere também reina a Amizade no Regaço da MÁTRIA”.O poeta dedica belos versos a cerca de sete amigos e a sua amada. É aqui onde a mulher, é colocada no pedestal mais alto. O amor e carinho flui ternamente apesar dos (des)prazer, o dilema do “dedo doirado” que “pula cercas longínquas.../vive o dilema do amor/e sucumbe na libertinagem da cidade com muita dor”. Ainda assim para o poeta o sentimento expresso nos versos abaixo continua verdadeiro;


“Oh MULHER alma divinal

inspiração do Eu Poético

Te amo e sempre te amarei

até que não haja mais POESIA”

No quinto e último momento Mátria toca ainda mais nas questões sociais, o problema das desigualidades, a fome, a miséria resultantes da pobreza, as dificuldades de transporte e, o poeta escreve que é neste momento que “meu sangue verseja o quotidiano duro/de sol a sol caminha a dor/mas na utopia do amanhã brilha a/ESPERANÇA no Regaço da MÁTRIA”.E a esperança, esta nunca morre conforme podemos notar a fé do poeta nos versos abaixo;


“viajo então na utopia do amanhã

vislumbro pastos relvosos no Unguanhã

e as cubatas a fumegarem PAZ com sabor a

[lasanha”

Eis a mátria de Nguimba Ngola, a mátria angolana que com um sentido artístico nos convoca a recriar um mundo novo, um mundo de PAZ e AMOR.

Sucessos é que desejamos a este jovem poeta que doravante começa a trilhar “no escuro dos versos” em que “a escuridão poética é profunda” laborando a “hermeneutica das palavras”.
Ndembo KizeleTalatona,

aos 30/06/2009, 16:06´

É já neste Sábado!


23 maio 2009

Inovação linguística em “Uma Maria João e os Knunca”



É com prazer que leio o novo título de Luís Rosa Lopes, “Uma Maria João e os Knunca” editado pela União dos Escritores Angolanos, edição de 2008. O acto de lançamento aconteceu na sede da UEA a 14 de Março do corrente ano. Luís Rosa Lopes é heterónimo de Luís Filipe de Castro Louro da Rosa Lopes que nasceu em Abril dia 14, considerado mês da juventude, no ano de 1954. Publicou “A Gota D´Água em 1984 e “Mu Ukulu, Ki tuexilé ku mayombola” em 2005. Logo traz já os dedos calejados na senda da narrativa angolana.


A análise a que nos prestamos neste espaço, não constitui já uma tarefa com todo o rigor científico no âmbito da crítica literária, antes ser uma modesta apreciação fruto das nossas notas de leitura atendendo que o texto literário institui uma comunicação sui generis, onde emissor e destinatário não se encontram face a face não possibilitando o feedback daí que, o leitor ou destinatário tem o poder de controlar, aprofundar a compreensão da mensagem, interropendo a leitura para meditar, relendo. (Cesare Segre 1999).


Luís Rosa Lopes nos apresenta nove contos, no seu estilo muitas vezes humorístico, o quotidiano duro dos personagens que vão a luta para o alcance de melhores condições de vida bem como “eternos debates entre a tradição e as adapatações a novas realidades” e uma visão futurística da cidade de Luanda sendo um apelo a quem de direito e reflexão dos citadinos amantes da “cidade-berço, a cidade-vivência, a cidade-prazer, a cidade-drama, a cidade-farra, a cidade vida e morte...”.


A característica marcante nos textos narrativos em “uma Maria João e os knunca” é a inovação linguística, senão vejamos a invenção da palavra knunca (junção do pronome que com o advérbio nunca) bem como aviãojado, que subentende os que nunca tinham viajado de avião.


A língua, sendo um meio de comunicação de uma sociedade, deve obedecer a um certo padrão para que os utilizadores dela possam entender-se apesar da possibilidade de variações linguísticas. Nós angolanos adoptamos a língua do colonizador, o Português, como sendo “língua oficial”. O regime colonial dos portugueses, mediante uma política assimilante com intenções de nos inculcar os hábitos e valores portugueses, permitiu a que uma boa parte dos angolanos se comunicassem nesta língua.


Entrementes, A língua portuguesa em Angola encontra-se em constante transformação. As interferências linguísticas resultantes do seu contacto com as línguas nacionais, tradicionais, a criação de novas palavras e expressões inventadas pela criatividade popular, bem como certos afastamentos à norma padrão de Portugal, imprimem-lhe uma nova força, vinculando-o e adaptando-o cada vez mais à realidade angolana. Podemos notar esta força bem patente na literatura, que é mesclada com as línguas locais tais como o kimbundu, umbundu e o kikongo para citar apenas estas. Luís Rosa Lopes não se alheia a este fenómeno, transcrevendo a fonética dos personagens tal e qual eles se expressam a exemplo dos kotas Uanhenga Xitu e Luandino Vieira. Nota-se o diálogo abaixo:


“ – Acarmam só, muzangálas! Isso vai dar pra todos... Não adianta só nos porradarmos à toa, né?


- Yá! Ta m´bora bom. Vamos se dividir sem n´vunda.”


Os sociolectos, como sendo série de variedades linguísticas relativas aos ambientes sociais a que pertencem os falantes e às condições em que se realiza a enunciação, não são rígidos, dada a circulação e os contactos entre os estratos sociais. Logo a escolha estilística reduz-se às opções oferecidadas pelo sociolecto e o comportamento do escritor que actua em princípio, dentro dos limites do registo literário. Ocorre que é, muitas vezes permitido, fazer uso de todas a variedades da língua bem como inovações do tipo que lemos em “Uma Maria João e os knunca”. (C.Segre 1999).
Que viva a literatura angolana e logicamente a nossa cultura.

Mulemba waxa Ngola, ao 09 de Abril de 2009. 01:25´

12 outubro 2008

A juventude e sua expressão cultural


Falar de cultura é falar do desenvolvimento intelectual e ou ainda do conjunto de padrões de comportamentos das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais que caracterizam uma sociedade.

Vamos tecer algumas considerações sobre a juventude luandense , que representa a angolana, o seu interesse na cultura e o relacionamento com as instituições culturais. Ela está ávida de se cultivar ou procurar justificar-se ante aos obstáculos e às carências sociais?

A juventude é uma fase muito conturbada, na qual ocorrem os grandes conflitos como por exemplo o desenvolvimento do potencial criativo em relação aos obstáculos que o sistema lhe impõe, quer no sentido material, quer moral. Esses conflitos interferem nas escolhas e na definição da identidade individual e colectiva do jovem que se vê muito pressionado na tomada das decisões que ganham um rosto de angústia ou crise. Sabendo que ele faz parte dos maiores portadores da expressão cultural, há uma necessidade de o acompanhar e apostar na sua formação intelectual e crítica.

A dimensão da cultura e do lazer tem muita importância na sua vida. Hoje, observamos o grande interesse da juventude na fruição de diferentes formas de lazer e de produtos da cultura de massas. Porém, acontece que as actividades de diversão estão cada vez mais acentuadas. Há pouca preocupacão da juventude se desenvolver nas áreas do saber, pois está mais preocupada com a moda, as farras, as grandes raves, álcool e com sexo. A cultura do tchilo, da desbunda, tchilar sem limites é a tónica do momento aliado ao consumismo frenético, escravizados pelos meios de comunicação em massas (principalmente as novelas na televisão) e novos produtos que a tecnologia oferece.

Nas expressões culturais da juventude, a música nos mais variados rítmos (rap, kuduro, kizomba e etc.) tem maior impacto, o mesmo já não se diz do cinema que não tem tido grande oferta, apesar do renascimento apático do cinema amador que constituem a cultura industrializada. Quanto ao usufruto de formas de cultura erudita ou não industrializada tal como a visita aos museus, o teatro, apreciar exposições de fotografias e de artes plásticas ou escultura, a preocupação com a literatura acadêmica e de ficção nota-se certo desprezo o que está a causar miséria cultural no seio da juventude. Estes apontam, por sua vez, a falta de incentivos e referências morais, as carências financeiras e outras como causa dessa apatia intelectual.

A cultura e a relação com as instituições culturais deviam ser encarados com grande valor para a definição do modo de ser jovem, pois nesta fase o jovem tem o vigor e interesses acentuados. No entanto, vemos a queda da juventude na anticultura que os marginaliza. Muitos dessa fase dão pouca importância ao aumento da cultura, o que atrasa o seu desenvolvimento acadêmico e pessoal.

Há necessidade de se pesquisar mais e participar de actividades culturais que surgem como os eventos culturais do grupo Lev´Arte, com sessões de poesia no Instituto Camões, o Artes ao Vivo no Espaço Bahia, a tarde dos poetas da Brigada Jovem de Literatura e outros eventos que são anunciados nas páginas dos jornais e revistas da cidade.
É chamada a intervenção dos pais, e do Estado no resgate dos hábitos de leitura e escrita pelo que deverá haver mais bibliotecas e livrarias, a relização regular de feiras de livros, a realização de concursos de leitura e escrita, a criação de políticas que façam o livro chegar aos consumidores a baixo preço. Assim, conseguir-se-á reduzir o índice de analfabetismo cultural entre os jovens que são uma força motriz para o engrandecimento do País belo e rico em cultura.Mais cultura, mais identidade, mais vida.

Nguimba Ngola in Folha 8, edição de 11 de Outubro.

07 outubro 2008

O prefácio como discurso introdutório e autónomo da obra literária


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“Cada texto pessoal é fruto de uma época própria, de condições únicas e de diversas origens que respeitam ao seu contexto de produção. Para mim, escrever sobre uma obra ou até um só texto poético é tarefa árdua e espinhosa” Ana de Sá in prefácio da obra Caminhos da Mente de T. Nankhova Trajanno.



É notável em obras literárias da nossa praça e não só, o uso do prefácio. E ter um livro prefaciado por escritores ou ensaistas renomados tem sido uma correria entre os poetas e escritores jovens e adultos no sentido da maturação literária. Deve-se salientar que esta busca ou pedidos por prefácios não tem sido sempre coroado de éxitos e, quando mais se tratar de escritores ou poetas jovens e geralmente desconhecidos o que muitas vezes cria constrangimentos recíprocos.

Um confrade nas lides literárias perguntou-me, “Nguimba quem vai prefaciar tua primeira obra?” e eu respondí-lhe com outra pergunta, “qual é a utilidade de um prefácio na obra literária?” O meu amigo redundando em argumentos descabidos terminou dizendo que assim a obra tem mais valor, tem mais peso. Afinal o que é o prefácio e quais são as suas funções no texto? É o prefácio um texto integrante da obra ou é autónomo a ele?

Quero neste pequeno texto abordar estas questões bem como o problema do autor do prefácio socorrendo-me de dados de leituras do estudo sobre a Teoria e Prática dos Prefácios do Professor de Literatura Luso-Brasileira e Comparada da Universidade Federal de Pernambuco-Brasil, César Giusti.

O prefácio (do latim, praefatio) designa aquilo que foi feito para introduzir algo que vem depois de si. O prefácio tem relação sinonímica com o prólogo, ambas as palavras desiganam a função introdutória. Para além da simples tarefa de introduzir uma obra literária, o prefácio envolve outras várias finalidades. O Professor César sistematizando as idéias de Aristóteles cita cinco funções do prefácio.

A função demonstrativa, que demonstra o assunto, indicando-o de modo sintético objectivando os propósitos da obra e do autor e Aristóteles considera essa função indispensável. Os autores explicam assim a razão de ser da obra, seu significado e até mesmo sua origem. Ela não se pretende crítica, é mais justificativa. Os autores que se utilizam de prefácios acham-na como o ponto de interesse geral. Esta finalidade é um exercício de introdução, é como uma carta de apresentação. Em seguida temos a função sinsestésica que procura alcançar a docilidade do leitor ou obter a sua benevolência e, o autor socorre-se de truques de convecimento do leitor. A função pertinente é que gera a autonomia do prefácio, embora sendo parte de um todo da obra, ele é autónomo, é um discurso paralelo, tecendo considerações gratuitas. A obra portanto independe do prefácio que se torna matéria inútil ou gratuita. Temos depois a função topológica e a função didascálica, que apresenta-se já como uma peça de crítica literária. Todas as funções apresentadas podem atuar ao mesmo tempo no texto ou de forma isolada.

Quanto a autoria do prefácio, este é feito pelo próprio autor da obra ou pode ser alguém distinto do escritor a quem pertence a obra. Para o segundo caso, interessa aos estudos críticos. Normalmente este autor distinto do autor da obra é uma pessoa que conhecemos e por motivos de amizade, identidade de princípios, de real ou de suposto prestígio intelectual ele se debruça sobre a obra enaltecendo-a com um sentimento de modéstia como se pode notar o parágrafo final do prefácio de Inocência Mata ao livro da escritora Chó do Guri, Na boca árida da Kyanda, “ ...Chó do Guri cresce na sua escrita, embora ainda se note um incipiente labor da palavra...”

O professor César prossegue dizendo no seu estudo que a existência de prefácios do próprio autor demonstra incoerência ou mesmo o reconhecimento da ineficácia da obra pois o autor tem o território do texto para se expressar. Então de que adianta o prefácio, sabendo que ele não é parte estrutural da obra literária? Muito bem, pode se calhar justificar para o jovem escritor tal como o meu confrade que escuso citar o nome, dar peso ao texto. Mas vai ter de se “cabombiar” aos ilustres escritores e críticos da nossa praça entre os quais Jorge Macedo, Akiz Neto, Jomo Fortunato, Trajanno Nankhova Trajanno, Abreu Paxe e entre outros. Se assim não desejar, saiba então que a obra literária faz sentido sem precisar de prefácio que mesmo lhe dando significação, será sempre gratuito. O professor César ainda acrescenta dizendo que é inútil e as vezes servindo apenas como simples ornato tradicional do texto.

Nguimba Ngola,
Mulema waxa Ngola, aos 24 de Agosto de 2008. 23.41´
nguimbangola@gmail.com

28 julho 2008

Lev´Arte - Dois anos de poesia











“Diz o ditado popular que “palavras leva-as o vento”. Para o movimento Levarte, o provérbio não se aplica, já que ali as palavras são gravadas a ferro e fogo na alma dos integrantes. A paixão que os move leva-os a seguir em frente e a desbravar caminhos, ramificando-se por esta Luanda fora em busca de pessoas que contrariam o famoso ditado” (António Onofre in revista austral, Nov/Dez 2007).

O Lev´Arte nasceu a 20 de Julho de 2006 e é constituído por jovens amantes da literatura. Um dos maiores objetivos do movimento é o resgate dos hábitos de leitura bem como a promoção da poesia. Desse modo o movimento faz o seu papel na consciencialização da juventude e não só, nos caminhos da humanização.

Luciano Zajdsznajder (1994) afirma que o homem pós-moderno se distancia de si mesmo, à medida que o mundo a sua volta se torna mais turbulento e sua vida mais fragmentada e, Heidegger (1973), filosofo alemão, acrescenta que o homem na sua busca sem freios de auto asseguramento, diminui toda a profundidade de seu pensamento e foge da vitalidade criativa. Assim o Lev´Arte com seus eventos poéticos tenta conduzir a juventude a si mesmo, resgatando-o da devassidão e do vazio devolvendo-lhe a sua liberdade criativa.

A poesia tem o seu zênite na declamação. É preciso que haja mestres nessa arte, pois assim os poemas ganham vida. O Lev´arte tem permitido o aparecimento de jovens com talento na arte da declamação. A par da poesia recitada, está a música e o teatro, outras expressões artísticas que preenchem os eventos levarteanos que emocionam todos aqueles que afluem a estes eventos.

Ao longo dos dois anos de poesia e declamação, o movimento levarteano levou a arte para diversas instituições de ensino bem como palestras com os estudantes para atingirem seu objetivo principal. Uma caminhada marcante do grupo foi a deslocação no ano passado ao Hospital Psiquiátrico onde conviveram com os pacientes e o corpo clínico. Foi um dia memorável, segundo afirmou Kardo Bestilo, um dos membros executivo do movimento.

Os membros do movimento Lev´Arte sentem-se regozijados com os resultados alcançados ao longo destes dois anos em que nem tudo foi um paraíso de sucessos. Tiveram também momentos de grandes desafios e provações que quase os levou a parar com os eventos. No entanto eles sobreviveram tal como a criança que marca seus primeiros passos está sujeito a quedas e depois tem os pés firmes para continuar a marcha.

É de louvar os esforços deste movimento que tem contribuído dessa forma para o crescimento da nossa cultura. Parabéns levarteanos por mais um ano de existência e que a vossa coragem e determinação sempre vos acompanhem ao fazerem do impossível o possível.


Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, aos 21/07/2008 23:55´.

04 julho 2008

Arte africana e seu futuro





“É o homem, e não a riqueza material, a esperança da nossa áfrica... e a conquista da independência do pensamento africano exige dos seus filhos uma luta sem tréguas” (Jorge Macedo, 2006)


A arte, (termo do latim ars, que significa técnica ou habilidade) tem relação com as manifestações de ordem estética por parte dos humanos. É um fenómeno cultural, que tem haver com o pensamento, com a percepção, e com a capacidade de inovação e criação.Nós africanos, vimos lutando pela independência, que não se limita a uma luta de afirmação política mas também pela libertação do seu povo contra a dominação e opressão. Esta liberdade tem permitido ao homem africano o seu desenvolvimento físico e mental e por sua vez o desenvolvimento da sua própria cultura.

“África, mãe do cordão umbilical” já entrou com sucesso no mundo moderno das artes. A produção bem como a avaliação artística na África, já exige independência. Os artistas africanos não precisam ser simples seguidores daquilo que se faz no ocidente, já podem produzir arte profundamente africana e merecer os devidos aplausos no mundo. Para tal, eles exprimem a sua visão atravêz de um produto original com profundo significado social para o indivíduo e para a comunidade ou sociedade onde ele interage.

Felizmente hoje, a África já se expõe ao mundo com sua arte, já se faz presente em exposições internacionais ou bienais e com muito sucesso merecendo a admiração e o devido respeito o que eleva esta arte africana nos píncaros do modernismo artístico. No entanto, há ainda muito o que se fazer tal como a criação de instituições modernas que capacitam os artistas com recursos necessários para levarem a cabo seus trabalhos bem como capacitar aqueles que estudam esta mesma arte. É chamado também aqui os empresários da arte, o mecenato tem que funcionar.

Na literatura, a África tem alcançado grandes realizações, bem como no cinema e música. O mesmo se pode dizer das artes vicuais embora ainda faltem instrumentos críticos para reclamar e celebrar tais realizações. Notamos por exemplo em Angola, o Etonismo, que pode muito bem ser considerado uma corrente artística mas tem sido contestada pela “miopia” de certos críticos que não valorizam o labor artístico africano.

Os africanos estão na busca de uma cultura, de modo que seus agentes culturais sempre lutarão para valorizar esta rica cultura à exemplo de Wole Soyinka, escritor nigeriano que escreve diferente apesar de usar o idioma do colonizador e da educação formal no estilo europeu. Nomes ainda sonantes na arte africana têm merecido reconhecimento mundial tais como; Aina Onabulu da Nigéria, Ernest Mancoba, sul africano que pintou o quadro composition em 1940 e seus compatriotas no campo literário, John Maxwell Coetzee e Nadine gordimer, cito ainda Chinua Achebe, Ben Okri, Kossi Effoui, Chenjerai Hove, a marfinense Véronique Tadjo, e porque não o nosso Pepetela que no seu “O quase fim do mundo” destaca muito a África. São portanto, uma lista promissora promissora de intelectuais africanos integrantes da modernidade artística que também se quer universal sem deixar de ser acima de tudo africano.

“ Oh minha áfrica
Anelo teus doces beijos no dúlcido
Amplexo da unidade fraternal
Ergue-te entesada e plante tua raiz no coração do mundo”

(Extractos do poema África, mãe do cordão umbilical de Nguimba Ngola, in Vida Cultural 03/06/2007).


Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, 20 de Maio de 2008 23:15´

12 dezembro 2007

A zungueira e a “poética” da sobrevivência






“A preocupação social manifesta-se atravês do papel do escritor,
também na senda daqueles escritores “classicos”angolanos que tematizavam
as injustiças e os quotidianos deLuanda na época colonial”
Ana Lúcia de Sá


Aristóteles defendendo a literatura contra a condenação de Platão, mostrou que o conceito de mímese, formaliza uma relação com a realidade. A concepção gnosiológica da arte faz produzir o prazer pelo reconhecimento e pela compreenção da realidade representada (Cesare Sagre 1999).
Esta imitação remete-nos na dura realidade da questão do género, sendo o feminino o que mais sofre. Assim é que nossos poetas sempre pretenderam pintar o drama social da mulher. Tem sido uma tomada de consciência da questão da mulher, mais propriamente da mulher zungueira (a vendedora ambulante que mercadeja nas ruas, sendo zungueira (o), uma deturpação do termo kimbundu nzunga, resultado da forma verbal kuzunga, circular, rodear). Hoje notamos esta zunga a pintar poesia realista, uma “poetica”de sobrevivência nas ruas de Luanda.
Agostinho Neto, poeta classico que estimo, já escrevera o drama da mulher zungueira, outrora quitandeira:
(...) Muito Sol/ e a quitandeira à sombra/ da mulemba. // (...) compra laranja doce/ compra também o amargo/ desta tortura/ da vida sem vida. // (...) Até mesmo a minha dor/ e a poesia dos meus seios nus/ eu entreguei-as aos poetas. (in Sagrada Esperança)
E os poetas recebem esta poesia denunciando o sofrimento, o “lamento da zungueira”, tal como lemos em “A boca árida da Kyanda” de Chó do Guri, mulher poeta e sobretudo mãe.
Porquê me fazes destino/ triste e sem abrigo/ (...) ngana nzambi tatê/ venho de longe/ da escuridão/ de uma longa estrada/ sem pão// Por andar sem gozo/ inama yami wadifangana mbonzo.
É de facto um sofrer que incha os pés parecendo batatas pois ela “vem de recantos recônditos da cidade cruel”. E José Luís Mendonça é outro poeta que não se alheiou a esta “poetica” de sobrevivência da mulher zungueira que procura o sustento para seus rebentos. Ele desenhou os versos abaixo:
“Prenhes candeeiros a petróleo/ à mesa do dia as quitandeiras ardem/ mestruação de pássaro entre dentes/ é chibata é chibata fresquinha olha/ carapau minha senhora eis aqui/ um país que emerge nos bolsos de pedra/ o escalpe luminoso dos navios. (in Respirar as mãos na pedra)
O drama social da mulher zungueira é enorme e pinta poesia melancólica para que os seus não padeçam e, Nguimba Ngola (autor destas linhas), canta para esta “Amiga da zunga” que se levanta quando os “raios do sol ainda a espreguiçarem-se”. Mesmo com os “lábios ressequidos pela fome que lhe assalta o estômago” ela corre “cansada/suada/a descer a calçada” ante o olhar humilhante daqueles que lhe devem protecção.
“Volta a cubata com os parcos proventos do dia/ faz o comer para o insensível dono que a quer “comer”de qualquer jeito” e sente na alma e no espírito a violência do marido e até mesmo a morte ingrata como a realidade hoje testemunha permitindo a mímese ao poeta.
“Fortaleça-te Deus oh amiga da zunga” e desejo-te um Feliz Natal e Ano Novo Próspero. (Leia-se o poema “Amiga da zunga” no livro Controverso de Kardo Bestilo).


Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, aos 12/12/2007 00:57’
nguimbangola@gmail.com

A dimensão cultural de Jorge Macedo




Uma singela homenagem ao poeta, ficcionista e ensaísta inquestionável


“...Nós os angolanos temos razões maiores para
nos orgulharmos da dimensão africana da nossa
cultura, que se tornou universal...”(Macedo 2006)


No longíquo ano de 1941, nascia na terra da palanca negra e gigante, Malange, em 16 de Outubro, um menino que veio a tornar-se num homem de grande dimensão cultural!
Segundo H.G. Wells, a grandeza de um homem pode ser medida por ‘aquilo que ele deixa para crescer’. A vida e obra de Macedo confere-lhe uma grandeza no panorama cultural angolano e, certamente, seus ensinamentos, conceitos e filosofia tem marcado um tempo.
O autor de Itetembu (1966) teve como primeira actividade profissional de regente escolar, e dai passou para a carreira administrativa. Homem de multifacética formação, fez os estudos primários e secundários na sua terra natal, frequentou os seminários maior e menor de Luanda e Malange, onde estudou filosofia que de certa forma lhe proporcionou um horizonte amplo no seu pensamento cultural. J.Macedo interessou-se pela música, e estudou-a na Academia de Música de Luanda. É também diplomado em Etnomusicologia na Universidade de Kinshasa (UNAZA).
Durante o período colonial, o nosso homenageado, foi mestre de coros, exerceu vários cargos de docência. Ao longo dos anos, exerceu também vários cargos oficiais e muitos destes na área cultural, nomeadamente director da Direcção Nacional de Arte, Director Nacional da Escola de Música, do Instituto de Línguas Nacionais, Administrador do Centro Internacional de Civilizações Bantu e foi Jornalista em Lisboa onde dirigiu a Revista Afro-Letras da Casa de Angola em Portugal.
J. Macedo estreou-se muito cedo no labor literário. Luís Kandjimbo escreve na sua página de internet, Verbetes de escritores angolanos, “Este autor pode ser considerado como sendo um dos raros poetas e ficcionistas que, pela estreia precoce à semelhança de Mário António, assinala com a sua obra a transição de gerações, neste caso da geração de 60 a 70. E tal facto pode estar na origem da sua propensão para o exercício dos vários géneros literários e associações a outras manifestações artísticas...”
Foi em 1966 que lança o livro acima citado, Itetembu. Segue-se na sua safra quatro anos depois, As Mulheres e no ano seguinte, 1971, Pai Ramos. Seguiram-se ainda em poesia, Irmã humanidade (1973), Clima do Povo (1977) que abaixo vai um extrato do poema “ Nós fomos” deste mesmo livro:

“nos ausentaram da palavra
Feriram nossa muxima
Voz nossa desabitada
No código da alienação
E no rosa do tal mapa-rosa
Kissunji gegráfico nós fomos”

Nota-se a recorrência aos termos kimbundo, muxima, kissunji, valorizando de tal modo a nossa língua. E nesta época, quando começa a escrever prosa, Jorge Macedo conta “Iniciei-me em prosa no jornal do Lobito em 1971. Carlos Ervedosa, que orientava a página de Artes e Letras do matutino Província de Angola, convidou-me a publicar os meus contos neste jornal luandense, o que fiz. Mas como eu usava discurso revolucionário, misto de português e termos de kimbundu, uma vez a censura mandou parar a saída do jornal por isso, pois o meu angolanoguês constituia transgressão às normas da correcção da língua...” (MACEDO 2004, contra-capa).
Sua vasta obra em prosa inclui os títulos, Gente do meu bairro (1977), Geografia da coragem (1978), O Menino de Olhos de Bimba (2005) As aventuras de Jójó um excelente conto infanto juvenil, entre outros.
Jorge Macedo escreve com a alma e traz a ribalta um realismo puramente africano e evocando nossas deidades africanas, como por exemplo a Muxima (NOSSA SANTA NEGRA). Conta-nos também histórias da época colonial em que nossos irmãos angolanos eram desterrados para outras paragens. Leia-se alguns extratos no conto Monami (histórias de ssenta e um):

“Mamã não dorme. Não encontra onde esconder-me, pró sessenta e um não me levar. Etu tuambundu a gente frequenta a escola ao contrário. Quinto ano pra não ir no contrato... pra não ir em S. Tomé em exílio monangamba... Mas (uaué) o SESSENTA E UM hoje, raiva da PIDE bate à porta e você, quinto ano, olho de ver injustiça que caputo faz contra tua raça, é levado no JEEP e aí onde você foi... nunca mais volta...
- MAMÃ CORAGEM, DEUS EXISTE! REZA! UM DIA NOSSA RAÇA SERÁ LIVRE!...”

Jorge Macedo, continua a semear o conhecimento, que emana da sua vasta bagagem cultural. Escreve ensaios profundos que lhe confere uma grande dimensão de homem de cultura como já dissemos no início do nosso macro texto. Exortamos a que se leiam os seguintes títulos; Literatura angolana e texto literário e Poéticas na Literatura Angolana, ambos lançados em 1989. Leia-se ainda, Poesia angolana 1975-2005 (2003) e o mais recente ensaio A Dimensão Africana da Cultura Angolana (2006) de 154 páginas contendo vinte e cinco ricos textos e mais dois em anexo, que abordam vários temas como: a questão dos assimilados, a poligamia em Angola a filosofia bantu a música e ainda, entre outros, o poder tradicional. Abaixo alguns extratos:

“A convivência dos angolanos com a cultura luso-europeia deu lugar a um extrato social culturalmente europeizado, mercê da instituição colonial do estatuto de assimilação. Os assimilados eram os africanos que para conquistar o direito à cidadania e suas mordomias, nomeadamente o acesso a cargos públicos auxiliares, nunca de soberania, eram obrigados a abandonar usos e costumes de pais e avós. quando da independência a população angolana de assimilados trasnferiu-se da administração pública colonial para a nacional angolana. Do ponto de vista cultural este extracto especial e sui generis continuou a guiar-se pelo ethos luso-europeu.” Em relação a filosofia bantu Macedo escreve, “O “campo” da filosofia africana em Angola abrange tanto a dos Banto locais e não Bantos... Os antropólogos coloniais não reconheceram quase, a dimensão da racionalidade na pessoa do africano, por não dominarem a escrita, mas por se conduzirem através dos ditames de sua civilização oral, milenar... Os Bantos elegeram o “cágado” para simbolizar a sabedoria”. Sobre a poligamia em Angola, Macedo escreve que ela é uma instituição conjugal legitimada pelo direito consuetudinário banto. O muenexi, entre os povos kimbundu, ou chefe supremo, o soba, possuia três mulheres, a Ngana Vale, que era a mulher chefe da comunidade de esposas, a Samba-Nyanga, que se encarregava dos trabalhos domésticos da casa-mãe e a Samba-Njila que acompanhava o marido em suas viagens. Os portugueses desrespeitaram estes ditames culturais dos africanos e trataram as mulheres dos angolanos como não sendo legítimas, mas como concubinas. No entanto o regime colonial destituido em 1975, é que é a responsável pelas poligamias geradas no seio da comunidade africana, pois eles não conseguiram erradicar o casamento legítimo e plural banto, geraram a poligamia de facto e não de jure, praticada à calada da noite quer por portuguese, quer por africanos europeizados, os assimilados.
Jomo Fortunato, um dos poucos críticos literários da nossa praça tal como o nosso homenageado, escreve, ‘importa referir que uma sociedade, que se pretende de paz e harmonia, e que respeita, legitima e promove a diversidade de culturas, em presença, deve propor uma relação de diálogo da sua personalidade cultural com o mundo. Contudo e é o que se pode depreender do teor da generalidade dos textos da dimensão africana da cultura angolana, de Jorge Macedo – é imperioso ser africano, antes de se ser universal’ .
É de facto um livro que preenche ‘um vazio no domínio da teorização do fenómeno cultural angolano e ao nível da reflexão de tipo endógeno, partindo dos princípios enunciados pelos arautos do nacionalismo angolano dos quais se destaca Agostinho Neto’ arremata Jomo Fortunato in Vida Cultural, edição de 17 de Setembro de 2006.
A grandeza do estimado Jorge Macedo, é ainda notável ao predispor seu precioso tempo para passar sua experiência como homem de cultura. A luz do Núcleo dos estudos literários, que visa iniciar jovens no entendimento do fenómeno literário, o professor Macedo vai estimulando os jovens que têm frequentado suas aulas no Centro Kilamba. É de facto uma grande iniciativa a louvar ainda que, aos olhos de outros escritores (não sei se por inveja ou por que razão) essa iniciativa é falha pois não tem dado frutos. Há sim senhor frutos, tal é o caso do jovem Chaahoo Avô Ngola Avô que já se estreiou com o seu “Folhear o mar no ventre da saliva” um livro de poesia. E ainda surgirão outros que de quando a quando vão expondo seus textos nos espaços poéticos que alguns jornais vão disponibilizando. Espera-se que outros escritores também possam emprestar o seu saber, sua experiência, para que os jovens adquiram então a tão propalada qualidade que se diz estar a faltar nos jovens. Portanto, caros jovens, leiamos, leiamos, leiamos e continuemos a ler para nos aprimorarmos na arte de escrever e assim nos firmarmos no “mundo movediço e permanentemente escorregadio” que é a literatura no dizer do meu amigo Abreu Paxe.
Ao professor Macedo, só temos a te dizer PARABÉNS PARA VOCÊ e que o 16 de Outubro se repita por longos e felizes anos de vida, pois sempre anciaremos beber da tua seiva enriquecedora.




Nguimba Ngola,
Mulemba waxa Ngola, aos 24 de Outubro de 2007, 0:46’.
nguimbangola@gmail.com