12 dezembro 2007

A zungueira e a “poética” da sobrevivência






“A preocupação social manifesta-se atravês do papel do escritor,
também na senda daqueles escritores “classicos”angolanos que tematizavam
as injustiças e os quotidianos deLuanda na época colonial”
Ana Lúcia de Sá


Aristóteles defendendo a literatura contra a condenação de Platão, mostrou que o conceito de mímese, formaliza uma relação com a realidade. A concepção gnosiológica da arte faz produzir o prazer pelo reconhecimento e pela compreenção da realidade representada (Cesare Sagre 1999).
Esta imitação remete-nos na dura realidade da questão do género, sendo o feminino o que mais sofre. Assim é que nossos poetas sempre pretenderam pintar o drama social da mulher. Tem sido uma tomada de consciência da questão da mulher, mais propriamente da mulher zungueira (a vendedora ambulante que mercadeja nas ruas, sendo zungueira (o), uma deturpação do termo kimbundu nzunga, resultado da forma verbal kuzunga, circular, rodear). Hoje notamos esta zunga a pintar poesia realista, uma “poetica”de sobrevivência nas ruas de Luanda.
Agostinho Neto, poeta classico que estimo, já escrevera o drama da mulher zungueira, outrora quitandeira:
(...) Muito Sol/ e a quitandeira à sombra/ da mulemba. // (...) compra laranja doce/ compra também o amargo/ desta tortura/ da vida sem vida. // (...) Até mesmo a minha dor/ e a poesia dos meus seios nus/ eu entreguei-as aos poetas. (in Sagrada Esperança)
E os poetas recebem esta poesia denunciando o sofrimento, o “lamento da zungueira”, tal como lemos em “A boca árida da Kyanda” de Chó do Guri, mulher poeta e sobretudo mãe.
Porquê me fazes destino/ triste e sem abrigo/ (...) ngana nzambi tatê/ venho de longe/ da escuridão/ de uma longa estrada/ sem pão// Por andar sem gozo/ inama yami wadifangana mbonzo.
É de facto um sofrer que incha os pés parecendo batatas pois ela “vem de recantos recônditos da cidade cruel”. E José Luís Mendonça é outro poeta que não se alheiou a esta “poetica” de sobrevivência da mulher zungueira que procura o sustento para seus rebentos. Ele desenhou os versos abaixo:
“Prenhes candeeiros a petróleo/ à mesa do dia as quitandeiras ardem/ mestruação de pássaro entre dentes/ é chibata é chibata fresquinha olha/ carapau minha senhora eis aqui/ um país que emerge nos bolsos de pedra/ o escalpe luminoso dos navios. (in Respirar as mãos na pedra)
O drama social da mulher zungueira é enorme e pinta poesia melancólica para que os seus não padeçam e, Nguimba Ngola (autor destas linhas), canta para esta “Amiga da zunga” que se levanta quando os “raios do sol ainda a espreguiçarem-se”. Mesmo com os “lábios ressequidos pela fome que lhe assalta o estômago” ela corre “cansada/suada/a descer a calçada” ante o olhar humilhante daqueles que lhe devem protecção.
“Volta a cubata com os parcos proventos do dia/ faz o comer para o insensível dono que a quer “comer”de qualquer jeito” e sente na alma e no espírito a violência do marido e até mesmo a morte ingrata como a realidade hoje testemunha permitindo a mímese ao poeta.
“Fortaleça-te Deus oh amiga da zunga” e desejo-te um Feliz Natal e Ano Novo Próspero. (Leia-se o poema “Amiga da zunga” no livro Controverso de Kardo Bestilo).


Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, aos 12/12/2007 00:57’
nguimbangola@gmail.com

A dimensão cultural de Jorge Macedo




Uma singela homenagem ao poeta, ficcionista e ensaísta inquestionável


“...Nós os angolanos temos razões maiores para
nos orgulharmos da dimensão africana da nossa
cultura, que se tornou universal...”(Macedo 2006)


No longíquo ano de 1941, nascia na terra da palanca negra e gigante, Malange, em 16 de Outubro, um menino que veio a tornar-se num homem de grande dimensão cultural!
Segundo H.G. Wells, a grandeza de um homem pode ser medida por ‘aquilo que ele deixa para crescer’. A vida e obra de Macedo confere-lhe uma grandeza no panorama cultural angolano e, certamente, seus ensinamentos, conceitos e filosofia tem marcado um tempo.
O autor de Itetembu (1966) teve como primeira actividade profissional de regente escolar, e dai passou para a carreira administrativa. Homem de multifacética formação, fez os estudos primários e secundários na sua terra natal, frequentou os seminários maior e menor de Luanda e Malange, onde estudou filosofia que de certa forma lhe proporcionou um horizonte amplo no seu pensamento cultural. J.Macedo interessou-se pela música, e estudou-a na Academia de Música de Luanda. É também diplomado em Etnomusicologia na Universidade de Kinshasa (UNAZA).
Durante o período colonial, o nosso homenageado, foi mestre de coros, exerceu vários cargos de docência. Ao longo dos anos, exerceu também vários cargos oficiais e muitos destes na área cultural, nomeadamente director da Direcção Nacional de Arte, Director Nacional da Escola de Música, do Instituto de Línguas Nacionais, Administrador do Centro Internacional de Civilizações Bantu e foi Jornalista em Lisboa onde dirigiu a Revista Afro-Letras da Casa de Angola em Portugal.
J. Macedo estreou-se muito cedo no labor literário. Luís Kandjimbo escreve na sua página de internet, Verbetes de escritores angolanos, “Este autor pode ser considerado como sendo um dos raros poetas e ficcionistas que, pela estreia precoce à semelhança de Mário António, assinala com a sua obra a transição de gerações, neste caso da geração de 60 a 70. E tal facto pode estar na origem da sua propensão para o exercício dos vários géneros literários e associações a outras manifestações artísticas...”
Foi em 1966 que lança o livro acima citado, Itetembu. Segue-se na sua safra quatro anos depois, As Mulheres e no ano seguinte, 1971, Pai Ramos. Seguiram-se ainda em poesia, Irmã humanidade (1973), Clima do Povo (1977) que abaixo vai um extrato do poema “ Nós fomos” deste mesmo livro:

“nos ausentaram da palavra
Feriram nossa muxima
Voz nossa desabitada
No código da alienação
E no rosa do tal mapa-rosa
Kissunji gegráfico nós fomos”

Nota-se a recorrência aos termos kimbundo, muxima, kissunji, valorizando de tal modo a nossa língua. E nesta época, quando começa a escrever prosa, Jorge Macedo conta “Iniciei-me em prosa no jornal do Lobito em 1971. Carlos Ervedosa, que orientava a página de Artes e Letras do matutino Província de Angola, convidou-me a publicar os meus contos neste jornal luandense, o que fiz. Mas como eu usava discurso revolucionário, misto de português e termos de kimbundu, uma vez a censura mandou parar a saída do jornal por isso, pois o meu angolanoguês constituia transgressão às normas da correcção da língua...” (MACEDO 2004, contra-capa).
Sua vasta obra em prosa inclui os títulos, Gente do meu bairro (1977), Geografia da coragem (1978), O Menino de Olhos de Bimba (2005) As aventuras de Jójó um excelente conto infanto juvenil, entre outros.
Jorge Macedo escreve com a alma e traz a ribalta um realismo puramente africano e evocando nossas deidades africanas, como por exemplo a Muxima (NOSSA SANTA NEGRA). Conta-nos também histórias da época colonial em que nossos irmãos angolanos eram desterrados para outras paragens. Leia-se alguns extratos no conto Monami (histórias de ssenta e um):

“Mamã não dorme. Não encontra onde esconder-me, pró sessenta e um não me levar. Etu tuambundu a gente frequenta a escola ao contrário. Quinto ano pra não ir no contrato... pra não ir em S. Tomé em exílio monangamba... Mas (uaué) o SESSENTA E UM hoje, raiva da PIDE bate à porta e você, quinto ano, olho de ver injustiça que caputo faz contra tua raça, é levado no JEEP e aí onde você foi... nunca mais volta...
- MAMÃ CORAGEM, DEUS EXISTE! REZA! UM DIA NOSSA RAÇA SERÁ LIVRE!...”

Jorge Macedo, continua a semear o conhecimento, que emana da sua vasta bagagem cultural. Escreve ensaios profundos que lhe confere uma grande dimensão de homem de cultura como já dissemos no início do nosso macro texto. Exortamos a que se leiam os seguintes títulos; Literatura angolana e texto literário e Poéticas na Literatura Angolana, ambos lançados em 1989. Leia-se ainda, Poesia angolana 1975-2005 (2003) e o mais recente ensaio A Dimensão Africana da Cultura Angolana (2006) de 154 páginas contendo vinte e cinco ricos textos e mais dois em anexo, que abordam vários temas como: a questão dos assimilados, a poligamia em Angola a filosofia bantu a música e ainda, entre outros, o poder tradicional. Abaixo alguns extratos:

“A convivência dos angolanos com a cultura luso-europeia deu lugar a um extrato social culturalmente europeizado, mercê da instituição colonial do estatuto de assimilação. Os assimilados eram os africanos que para conquistar o direito à cidadania e suas mordomias, nomeadamente o acesso a cargos públicos auxiliares, nunca de soberania, eram obrigados a abandonar usos e costumes de pais e avós. quando da independência a população angolana de assimilados trasnferiu-se da administração pública colonial para a nacional angolana. Do ponto de vista cultural este extracto especial e sui generis continuou a guiar-se pelo ethos luso-europeu.” Em relação a filosofia bantu Macedo escreve, “O “campo” da filosofia africana em Angola abrange tanto a dos Banto locais e não Bantos... Os antropólogos coloniais não reconheceram quase, a dimensão da racionalidade na pessoa do africano, por não dominarem a escrita, mas por se conduzirem através dos ditames de sua civilização oral, milenar... Os Bantos elegeram o “cágado” para simbolizar a sabedoria”. Sobre a poligamia em Angola, Macedo escreve que ela é uma instituição conjugal legitimada pelo direito consuetudinário banto. O muenexi, entre os povos kimbundu, ou chefe supremo, o soba, possuia três mulheres, a Ngana Vale, que era a mulher chefe da comunidade de esposas, a Samba-Nyanga, que se encarregava dos trabalhos domésticos da casa-mãe e a Samba-Njila que acompanhava o marido em suas viagens. Os portugueses desrespeitaram estes ditames culturais dos africanos e trataram as mulheres dos angolanos como não sendo legítimas, mas como concubinas. No entanto o regime colonial destituido em 1975, é que é a responsável pelas poligamias geradas no seio da comunidade africana, pois eles não conseguiram erradicar o casamento legítimo e plural banto, geraram a poligamia de facto e não de jure, praticada à calada da noite quer por portuguese, quer por africanos europeizados, os assimilados.
Jomo Fortunato, um dos poucos críticos literários da nossa praça tal como o nosso homenageado, escreve, ‘importa referir que uma sociedade, que se pretende de paz e harmonia, e que respeita, legitima e promove a diversidade de culturas, em presença, deve propor uma relação de diálogo da sua personalidade cultural com o mundo. Contudo e é o que se pode depreender do teor da generalidade dos textos da dimensão africana da cultura angolana, de Jorge Macedo – é imperioso ser africano, antes de se ser universal’ .
É de facto um livro que preenche ‘um vazio no domínio da teorização do fenómeno cultural angolano e ao nível da reflexão de tipo endógeno, partindo dos princípios enunciados pelos arautos do nacionalismo angolano dos quais se destaca Agostinho Neto’ arremata Jomo Fortunato in Vida Cultural, edição de 17 de Setembro de 2006.
A grandeza do estimado Jorge Macedo, é ainda notável ao predispor seu precioso tempo para passar sua experiência como homem de cultura. A luz do Núcleo dos estudos literários, que visa iniciar jovens no entendimento do fenómeno literário, o professor Macedo vai estimulando os jovens que têm frequentado suas aulas no Centro Kilamba. É de facto uma grande iniciativa a louvar ainda que, aos olhos de outros escritores (não sei se por inveja ou por que razão) essa iniciativa é falha pois não tem dado frutos. Há sim senhor frutos, tal é o caso do jovem Chaahoo Avô Ngola Avô que já se estreiou com o seu “Folhear o mar no ventre da saliva” um livro de poesia. E ainda surgirão outros que de quando a quando vão expondo seus textos nos espaços poéticos que alguns jornais vão disponibilizando. Espera-se que outros escritores também possam emprestar o seu saber, sua experiência, para que os jovens adquiram então a tão propalada qualidade que se diz estar a faltar nos jovens. Portanto, caros jovens, leiamos, leiamos, leiamos e continuemos a ler para nos aprimorarmos na arte de escrever e assim nos firmarmos no “mundo movediço e permanentemente escorregadio” que é a literatura no dizer do meu amigo Abreu Paxe.
Ao professor Macedo, só temos a te dizer PARABÉNS PARA VOCÊ e que o 16 de Outubro se repita por longos e felizes anos de vida, pois sempre anciaremos beber da tua seiva enriquecedora.




Nguimba Ngola,
Mulemba waxa Ngola, aos 24 de Outubro de 2007, 0:46’.
nguimbangola@gmail.com

26 maio 2007

África mãe do cordão umbilical


Como são lindas tuas entranhas oh formusura cor de bronze
Galgo nas curvas densas da tua fauna gritos de tambor
No cume das tuas pirâmides sinfonias de paz

Oh doce África mãe do cordão umbilical salivo o deserto
Da tua pobreza riqueza ancorada na ânsia do cérebro que debica
No âmago do teu ser

Oh meu bem querer escrever tuas alegrias no rosto negro
Que delira o toque dos tambores no beijo amarelado dos camelos
Oh África Shengor Neto Lumumba no Cabral do Kilimanjaro
Jarros de paz na ansia de Mandela que esfumaça os elefantes do amor
No Kalandula da palanca que voa no ritmo do kissanje gotejando
Festas no Kalahari das tuas nádegas cor de ouro diamante petróleo minérios da vida

Oh minha África sedenta de amor e paz beija Darfur com olhos de alegria
Fazendo magia nos teus olhos negros para união das vozes metáforas de esperança
Que anulam a anorexia que graça na planície desertica onde abutres almejam o sol

Oh minha África anelo teus doces beijos no dúlcido amplexo da unidade fraternal
Ergue-te entesada e plante tua raiz no coração do mundo


14 março 2007

Altar dos teus seios


Oh! mulher
musa colorida dos meus sonhos

Percorro ancioso nas ruas curvilíneas do teu ser
e abrigo-me no oásis dos teus cabelos
saboreando quitutes orgasmícos nas tuas entranhas

Oh! mulher
Enterra-me sempre no teu mar de prazer
e na simbiose dos sonhos
desenharei poemas para colorir
o altar em que teus seios rainhas jazem radiantes


08/03/2007

20 fevereiro 2007

Carnaval


À marimba e ao quissange

ao nosso carnaval

havemos de voltar.
(A.Neto)

19 fevereiro 2007

Levarte na Bienal do Livro

Zé Isolde (exímio declamador) e o Sábio, representando o Levarte na Bienal do Livro em Dezembro.

A plateia vibrante do King's.



Declamando no King's

Nguimba Ngola declamando poesia no King's. Manuela Alfredo, Kardo Bestilo e a Jandira, aguardavam por sua vez.

16 fevereiro 2007

Teus olhos lindos brancos de criança

(Jêssica, de bata, brincando o Zero)

Oh teus olhos lindos brancos de criança
lembram-me algodão doce do musseque
no pula pula da macaca
nas garrafinhas que hoje já têm outras caras
no bica bidon com os filhos da vizinha
e o brincar de papá e mamã na esquina do quintal
lá no Marçal, oh que saudades

oh teus olhos lindos brancos de criança
me trazem a memória os tempos do cassumbula
e do a dar aí, revista e ninguém me revista
o chorar de lágrimas para não ir a escola
nas manhãs molhadas de xixi
e a mamã zangada e a gritar:
“acorda menino já é hora de ir a escola”

oh teus olhos lindos brancos de criança
me animam a soltar estes versos amarrotados
na imaginação esquecida de criança traquina
oh minha linda Jéssica, minha pequena musa inspiradora
Deus te abençoe e o futuro te brinde com muita alegria


24/09/2006 no Centro Imaginação

29 dezembro 2006

O choro de Joaninha


O choro de Joaninha são lágrimas de sangue
Ela banha nas lágrimas do seu rosto por seis dias a fio
Suas lágrimas denunciam a tristeza da alma não fecundada
E jorram angústias e lamentos rubros no canal do seu rio
Quem a liberta deste ciclo que se repete 28 mil dias?

Ela sorgue alegre em campos férteis
Anseia espasmos orgasmicos carregados do branco da vida
Ela anseia a simbiose com o divino na criação de um ser
Clama estridente com seus grandes e pequenos lábios
o amor que se afoga nas dibinzas da vida
e se esconde na camisa sensual e legal devido a sida

Chora, chora, chora Joaninha
Fofinha vistosa e formosa, mãe da vida

Chora, chora, chora Joaninha
lágrimas de sangue sedentas de afecto, carinho
Vem de mansinho seu eterno amor
Joãozinho

Navegam nas estrelas ritmicas do prazer e da responsabilidade
Cessa o choro de Joaninha que goteja alegria divinal
E o ciclo fecha-se por 9 milhões de meses.



Nguimba Ngola, CCBL 29/12/2006, 11:23’.

09 novembro 2006

O grito da manhã

A manhã corre cansada
corre que corre e
suada trilha os caminhos da labuta
com lutas marciais para a vitória da pontualidade

A manhã é um veado
corre que corre e
solta golpes no cavalo azul e branco
adormecido no trânsito maldito
afogado no garrafão

O suor, a catinga, a dor da frustração
exalam palavras ofensivas que estilhaçam
o cérebro amarrotado

A manhã grita estridente
sons cinzentos denunciando o efeito da chuva
que rasga a kianda em pedaços

Nos amassos malcheirosos do uaua e
no ferir dos tímpanos do kuduro malcriado

a manhã chora lágrimas de sangue
clamando aos céus que intervenha
no concerto das entranhas moribundas
e dos esgotos e sargetas sem costuras

A manhã volta a kubata
escondido no pôr do sol
amanhã é outro dia de luta


Nguimba Ngola na Estrada de Cacuaco, 9/11/2006 6:50’

03 outubro 2006

Pincel sinfónico da mente






Meu ser errante navega pensante
no onírico silencioso da noite
e marcas do real desafiam nas nuvens tortuosas
do subconsciente amarrotado e
quadros plásticos a preto e branco
pintam o dilema do povo que clama o pão do amor

Anseio pinceladas a óleo no cinzel da paz
desmistificando o ópaco da mente
ciente de um amanhã contente
esquecido da nebulosidade do real

Na teimosa utopia da alma
o povo canta sinfonias do bem estar
saboreando quitabas alegres
debaixo da mulembeira e da mafumeira

Dançam o semba da vida na in transparência
do céu...
oh céu, que teimas em acordar-me do meu mundo verde
porquê te alegras com o meu sofrer?
se o “o mais importante é resolver os problemas do povo” ?

Deixa o pincel sinfónico pintar o branco do amanhã
com o cinzel onírico da paz
que me apraz.

27 setembro 2006

Tímpanos feridos




Feriram os meus tímpanos
a lira barulhenta ecoou solta no cavalo azul e branco
e gotejou notas sínfonicas venenosas
que sangraram meu silêncio

Minh’alma rasgou-se em pedaços
ofegando amassos da catinga que gargantava
derramando frustrações sedentas do bálsamo
roubado pelo kuduro malcriado

“kota se quiser cai”

E caí...
Sim caí, na poeira dos meus pés
que transportaram-me na serenidade da mente
quase demente
Caí...
do cavalo que serpenteava a esquerda e a direita
sob o olhar impávido da ganância corrupta

Divorciei-me dos decibéis destruidores
que feriram meus tímpanos e
Divorciei-me do casamento do ferro com joelhos
e livrei-me do emagrecimento compulsório
caí do azul e branco de todas as jornadas
armadas de veneno mortífero dos incivilizados



Nguimba Ngola, debaixo da Mulemba xa Ngola aos 27/09/2006

O Encantar do Lev’Arte


O Encantar do Lev’Arte
Isalino Augusto * 25/09/2006



Carríssimos leitores, eis-me aqui mais uma vez para compartilhar com vocês os momentos poéticos vividos no King’s Club. Como disse no último artigo, o King’s já virou tradição Poética toda a quinta-feira. Nesta última, dia 21 de Setembro, o tema de conversa foi a musa poética de Benguela, Alda Lara.

Dilson, o apresentador do Lev’Arte, lamentou o facto de haver muito pouca informação sobre Alda Lara, a grande Poetisa. Disse ter consultado várias fontes, incluindo na internet, mas a informação em todas elas eram escassas. No entanto a plateia bebeu com alegria a informação obtida, para uns era tudo novidade e para outros serviu de acréscimo ao que já sabiam. Aliás, é um dos objectivos do projecto, divulgar vários nomes da Poesia Angolana e além fronteira incentivando assim, a sua leitura.

Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque, nasceu em Benguela a 9 de Junho de 1930 e faleceu em Cambambe a 30 de Janeiro de 1962, casada com o escritor Orlando Albuquerque que propôs-se editar-lhe postumamente toda obra, resultando em um volume de poesia e um caderno de contos. Grande declamadora que alegrou grandes Poetas Africanos na casa do império, Alda brindou-nos com excelentes versos. Dilson destacou o Poema “Testamento” que pediu a participação da plateia para interpretarem os versos do testamento a prostituta mais nova do bairro mais velho e escuro. A prostituta que mereceu os brincos lavrados em cristal, límpido e puro...

E como a Poesia nos permite várias interpretações, alguns da plateia sugeriram a sua percepção do Poema, tal foi o caso do jovem Krumane que comentou que Alda, mesmo sendo abastada, preocupava-se com os desafortunados, nas contas do outro sofrer ela deixou o seu rosário para os iletrados e os poemas loucos deixou-os para seu amor Albuquerque. Outras interpretações surgiram e enriqueceram o tema.

Dilson, depois de ler o prólogo do evento, começou a chamar ao palco os Poetas da noite. O projecto tem ainda como objectivo tirar do anonimato artistas com talento para exporem os seus trabalhos, daí surgiram da plateia Poetas “curiosos”, os que pela primeira vez pisam o palco do King’s para o doce recital. Nzacran foi o primeiro com o poema de sua autoria “Sou nato de Angola”

Visto o desprezo sem luz

Nas manhãs sem verniz

Seguiram-se outros poetas gotejando seus versos que levaram ao êxtase a plateia maravilhosa que rasgou palmas de alegria, deixando ao rubro as mãos. Dentre os quais Poetas que cantaram o amor:



Gostaria de saber

A regra do amor

Está na lua nas palavras

O rosto de uma princesa sem príncipe. Krumane



Incubados fica o nosso destino

Caminhamos longe no infinito

do amor. Ludmila



A doce Jandira, ao subir ao palco, a plateia cobrou-lhe o poema “Esclareça” onde o eu Poético pede ao seu amor que se esclareça se apenas quer usa-la ou ama-la de verdade entre outros esclarecimentos devidos, a mulher amada.

Notei com muita atenção o jovem João Papelo cujas metáforas despertaram minha curiosidade, “Inconsciência”

Eu vi mistérios isolados

Nas unhas da madrugada

Noite felina de cantos tristonhos

Saudava as trevas na sua fresca expansão



Quebrou-se o momento de versos declamados para os versos cantados pela viola do Nelson Guitarra com a música “Monangamba, monangaba zé, monangabe monangaba ó”. Os Poetas da casa arrebataram as emoções da plateia. Dilson chamou ao palco o carismático Zé Isolde com o Poema “Quando cair a madrugada”. Ele disse que:



Quando cair a madrugada

Vai chover SIDA nas torneiras daquele bordel

Na Condel

Bem junto da casa do kota Fidel



O show de cores e luzes que o Patolas captou as imagens, continuou vibrante quando Kardo Bestilo, o autor do Controverso, declamou o Poema que pariu na madrugada daquele dia, “Oh Caneta Perdida!”. Nguimba Ngola levantou a plateia com o seu característico ‘boa noite’, ele com o chapéu a moda do Poeta Agostinho Neto, cantou com a plateia o seu poema “A canção pensante de Kianda” , mais vibração. Lenny matou a plateia de risos com o que ousarei chamar croni-poema que falou do peido da vizinha no elevador, ele que ia perfumado no dia do homem, sexta-feira, a uma patuscada e, como ironia, suas meias também escondiam um forte kibuzo de chulé.

Na segunda parte do programa, Zé Isolde, Kardo, Jandira, dilson e Nguimba Ngola, despejaram mais versos metaforizados para os presentes. O evento culminou com todos os poetas no palco para a habitual mistura, recitando versos no momento com um tema sugerido pela plateia “Contraste” e foi um verdadeiro contraste no palco, que o diga o Sábio.

Fui, mais volto, pois continuarei a seguir as pisadas do Lev’Arte.



www.artesaovivo.bravehost.com

Poesia








linguagem ritmada
e amada
que excita a imaginação
e provoca a sugestão
o sonho...

poesia bonita
imaginação infinita

é o que me corre na alma
e transforma meu sangue
em rimas opulentas
imperfeitas
e consonantes
e gota a gota
pintam o poema da minha existência...

“A magia das palavras”


“A magia das palavras”
Isalino Augusto debaixo da Mulemba xa Ngola, aos 20 de Setembro de 2006.



Lev’Arte, a magia das palavras. Com esta frase estampada na parte de frente das camisolas, e atrás o sinal de prioridade com a frase ‘Prioridade a Leitura’ os Poetas da casa, deram as boas vindas ao público amante da poesia.

King’s Club já virou tradição poética toda quinta-feira a noite. Na semana passada a casa encheu literalmente. Ângelo Reis na apresentação debruçou-se, na primeira parte do programa, sobre o grande enigma, Fernando Pessoa, o poeta místico. A plateia bebeu um pouco mais da seiva de Pessoa, o Alexander Search ou o Alberto Coeiro. Deixa p’ra lá o homem é mesmo místico, aliás foi membro da ordem da Rosa Cruz.

Vai abaixo o poema “Deixem-me o sono ! Sei que é já manhã”



Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.





Foi o enigma em Pessoa que passou, na semana passada dia 14 de Setembro. No dia 7 de Setembro reflectiu-se sobre o que é Poesia? De facto toda quinta- feira, o Rei torna-se cada vez mais rico ali no King’s. O pessoal é arrebatado as alturas com metáforas sonantes e rios de lágrimas de alegria. Rasgam-se as mãos com palmas de satisfação.

O Lev’Arte, como o nome indica, pretende levar a arte para vários recantos recônditos desta cidade da Kianda. Em Agosto os jovens artistas deslocaram-se ao Instituto Normal de Educação Garcia Neto.



Instilaram nos jovens estudantes o desejo de escrever. Descobriu-se jovens com potencialidades poéticas com metáforas maravilhosas, lembro-me dos lábios órfãos num verso do poema do estudante Sidrake. Ângelo Reis vibrou, o Maximus Angelicum, o poeta dos pés descalços como podem notar na foto abaixo.(Aqui vê-se a foto acima)

Hoje não é quinta-feira por acaso? Epá já estava esquecido, é proibido faltar. Vou preparar minh’alma para mais logo cair na Pompílio Pompeu e desfrutar com os Kings poéticos, hoje falarão da linda Alda Lara, a musa benguelense. Está feito o convite, assista poesia todas as quintas-feiras no King’s Club. Fui, até pela semana.


Texto original em www.arteaovivo.bravehost.com

26 setembro 2006

Vitória Certa




Comí impaciente a dor da labuta
insatisfeito no jogo da procura e da oferta
automotivei-me no sonho da votória certa
na certeza do branco da paz de tanta luta

Será assim até na longevidade dos anos?
ou apenas utopia dos meus olhos
e amanhã chuva de espinhos e abrolhos
gotejando ódio e sangue violento no ânus?

Já é enciclopedia do passado aquela dor
agora deleito-me na onda do amor
na paz de espírito do saber viver

Agora sou empreendedor do amanhã
arquitecto do sonho do camboga do Unguanhã
transformando Angola no canteiro do amor.





Mulemba Xa Ngola, 12/08/2006

14 setembro 2006

No caminhar das unhas

No caminhar das unhas
encontrei o fantasma do mal
na odisseia humana de cunhas
o sonho se despedaça qual anormal

Beijo o céu noturno, violento
e no tormento dos injustiçados
chora a dor da alma cansada
na terra do safa-se quem poder

No onírico verdejante do amanhã
saboreio a ondulação marítima da paz
que me apraz
mortificando o cansaço da dor
olvidando a desgraça do desgraçado

Desperto do meu mundo utópico
vislumbro as marcas do real
e fios de lágrimas banham-me
até as vísceras
pois ainda não acabou
a odisseia dos monangamba
que andam na corda bamba
na terra do safa-se quem puder

Valha-me Deus
e livra-me dos algozes
dos montes e ilhas perenes
que estão nem aí com a dor
dos sofredores


Mulemba xa Ngola 14/09/2006 0:15'

25 agosto 2006

O Rei ficou mais Rico na Vila Alice

O Rei ficou mais Rico na Vila Alice
Isalino Augusto * 18/08/2006



O convite viajou rápido no veículo da tecnologia de informação “Assista Poesia Toda Quinta-Feira no King’s Club, O Rei ficou mais rico na Vila Alice, com Poesia ao ViVo ao som de Guitarra Nacional”.

Minha alma amante apaixonada pela poesia saltou alegre ao local do evento. 17 de Agosto de 2006, King’s Club recebia assim outros amantes da poesia. Com um ligeiro atraso dos convidados, próprio num dia de semana, ainda assim a casa não deixou de acolher o calor de rostos brilhantes que decidiram deleitar-se com palavras carregadas de mensagem lírica com imagens e ritmos de acabar com o stress e levar-nos ao sonho.

Kussi Bernardo na apresentação, levantou as almas dos convidados que adormeciam no frio do doce cacimbo com sua poderosa voz. Kiamboteeee, o microfone gritou alto cumprimentando o pessoal. Começou o evento acordando nossas faculdades mentais para a personagem tão bela como a flor rica de doces e aprazíveis versos. Florbela Espanca, alguns na plateia tinham alguma noção de quem se tratava e Kussi, despejou em resumo parte da vida e obra da musa literária portuguesa. Eis alguns aspectos da sua vida: 1894: A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa. - 1915: Casa com Alberto Moutinho. - 1919: Entra na Faculdade de Direito, em Lisboa. - 1919: Primeira obra, Livro de Mágoas. – 1923: Publica o Livro de Soror Saudade. – 1927: A 6 de Junho, morre Apeles, irmão da escritora, causando-lhe desgosto profundo. - 1930: Em Matosinhos, Florbela põe fim à vida. - 1931: Edição póstuma de Charneca em Flor, Relíquias e Juvenília e ainda das colectâneas de contos Dominó Negro e Máscara do Destino. Reedições dos dois primeiros livros editados. Verdadeiro começo da sua visibilidade generalizada.

Foram convidados voluntários da bonita plateia num número considerável que encheu a casa, para recitarem sonetos de Florbela Espanca. O António e a Manuela, deixaram de lado sua timidez e apresentaram-se ao palco. Kussi terminou a apresentação da vida e obra de Florbela Espanca com o seguinte terceto do soneto intitulado “Eu”;

Sou talvez a visão que alguém sonhou

Alguém que veio ao mundo para me ver,

E que nunca na vida me encontrou!



De seguida começou o desfile dos Poetas no palco do Rei, com fundo de tijolo verniz. Kussi, anunciou o primeiro Poeta da noite, Nguimba Ngola, que segundo o Kussi ‘o jovem que dá cabo dos nossos microfones’ recitou um soneto de sua autoria com o título “nas asas das éguas” note o segundo quarteto da poesia;



O vício cravou-lhe o ânus

Poisou em muitas águas

Cavalgando nas asas das éguas

Sangrou a raiz do prazer dos anos



Desfilaram outros Poetas maravilhosos que emprestaram o seu talento, Manuela, a linda menina com maravilhosas metáforas na sua poesia, Rodrigo, grande apaixonado da arte que vem já emprestando sua voz no espaço Bahia e, seguiram-se o Francisco, um virgem. Chamam virgem a todo Poeta que sobe pela primeira vez ao palco para o recital. Recitou também o Sábio e a linda Ludmila, com o Poema que fala dos pelos do namorado da sua amiga. Quebrou-se o clima para outro campo de arte, a guitarra do Nelson com seus dedos mágicos brindando-nos com a bonita música “umbi umbi yangue va kuele kala kassimbamba vossala possi”. A plateia vibrou, pulou e feriram as mãos com palmas alegres. Seguiu-se no desfile Ângelo Reis, eu gosto chama-lo Maximus Angelicum, o Poeta dos pés descalços que emocionou a plateia convidando-os a participarem da recitação do Poema “Sara eu te traí” abaixo alguns versos;



Quando tu esperavas por mim

Numa langerie vermelha no nosso

Esperançoso cadeirão preto

Oh! Sara eu te traí



A plateia não se conteve quando foi brindada com teatro do Grupo Teatral “Muana Mwa Zanga” com Nelson e companheiros, jovens ilhéus talentosos com uma peça sobre o casamento, este mesmo Nelson brindou ainda a plateia que se fartou de rir liberando o stress do dia, com poesia cómica. O evento no auge surgiu em palco Kardo Bestilo, o autor do livro que será muito brevemente lançado, o Controverso, recitou no seu estilo característico, correndo e pulando no palco como que num grande ‘Kibidi’ rebentando com o microfone e elevando a plateia ao delírio com o Poema que retrata o conflito entre fiscais do governo de Luanda e os zungueiros, vendedores ambulantes desta urbe, “Kibidi”;



Eles silenciaram minha razão de viver

naquele kibidi

E ainda me deixaram cego e paralizado

mas garanto que um deles

jamais vai fazer uso do mambo



Na segunda parte do evento, na revira volta ou 360º em que os Poetas voltam com um segundo Poema na noite. Nguimba Ngola foi anunciado e pulou ao palco com o Poema “Extase na solidão da noite” e Ângelo Reis declamou “Eu sou o anjo que caiu do seu para te amar”, em seguida Kussi, anunciou o Poeta que enlouquece a plateia com seus maravilhosos versos, o inspirado Zé Isolde, que chegou atrasado ao evento. Recitou o Poema que escreveu no mesmo dia em pleno candongueiro, o azul e branco de todos os dias, “Assim que morrer”;



Assim que morrer

coloquem meu corpo

no alto das cruzes do musseque

em jazigo de areia pedra e barro

o barro que não custa fortuna de

cimangolas bricomates e portland filleres

o barro é de graça



A banda que leva o nome da casa, Os The Kings, brindaram-nos com uma linda música “Hotel California”, com a plateia alegre no bater de palmas acompanhando o maravilhoso som.

Já para fechar o evento, subiram ao palco todos os Poetas da noite naquilo que ousaram chamar de projecto mistura, recital de poesia em grupo, cada um criava versos no momento, lindas metáforas e imagens coloridas com ritmo de mexer corações surgiram do que foi realmente uma liberdade total de criação.



Não me arrependi ao decidir ir para Rua Arsénio Pompílio Pompeo do Carpo, na Vila Alice, no Kings Club local bem aconchegante, desfrutando de momentos artísticos criados por jovens apaixonados pela arte. O projecto Lev’Arte, apresenta todas as quintas-feiras eventos do género e estão desejosos de expandi-lo para outros locais. Deus abençoe estes jovens que não se deixam levar pelos críticos que amarram a arte intitulando-se os donos dela. Neste ecletismo eles vão melhorando cada vez mais e amanhã, acreditem amanhã nascerão daí verdadeiros Poetas que enriquecerão nossa literatura. Eu cá já tomei minha resolução, todas as quintas-feiras os meus caminhos vão dar ao Kings Club deleitando-se com rimas e metáforas coloridas.

texto publicado no www.artesaovivo.bravehost.com

18 agosto 2006

Nas asas das éguas

A dor deitou-se na cama do vício
sequelas de longíquas boemias
sob o manto de cacimbo das gemeas
gazelas calejadas no ofício

O vício cravou-lhe o ânus
poisou em muitas águas
cavalgando nas asas das éguas
sangrou a raiz do prazer dos anos

Os ossos despiram-se da carne
sangrou tinta do pénis boemio
pseudokambas evaporaram do gremio

A carne secou de dor
madeira verniz afundou na cova nova
no inconsequente caminho do cu que leva a cova



Casa da mamoite do coqueiro, 16/08/2006