11 março 2010

Um ano de vida


O escritor e jornalista Luís Fernando lançou mais uma obra “Um Ano de Vida”. Com 156 páginas, é Editado pela Mayamba Editora (a nova editora dirigida por Arlindo Isabel) e inclui crónicas que abrangem um ano de publicação , 14 de Novembro de 2008 e 13 de Novembro de 2009, no suplemento Vida, do Semanário. É a observação atenta do quotidiano angolano do consagrado escritor e jornalista.
O livro foi prefaciado por Jomo Fortunato, crítico literário e musical . Segundo ele, Luís Fernando recorda “...episódios, pessoas, situações e lugares, com o propósito que permaneceu sem mudar: trazer para a partilha, o humor que adocica a vida, mesmo que não o consiga algumas vezes... “ A “...estratégia narratológica de Luís Fernando, facilitada por uma hábil selecção dos factos narrados, poderá confundir o leitor menos atento, se conferir às crónicas um mero exercício textual que exalta, de forma simplista, o humor, o burlesco e o pitoresco”.

Tenho sido um fiel leitor deste escritor que nasceu em 1961, na província do Uíge, Tomessa, licenciado em Jornalismo pela Universidade de Havana, Cuba, que me cativa com seu estilo peculiar.

Como sempre, figuras da literatura angolana e demais artes não hesitaram em comparecer no lançamento que teve o Jango da União dos Escritores Angolanos como senário. Nessa hora vale conversar com estes “gurus” e beber deles a experiência.

Força Luís Fernando.


Nas fotos:
Luís fernando e Nguimba ngola; LF assinando o livro da Kanguimbo Ananás; Jomo Fortunato o prefaciador; Luís Kandjimbo, crítico literário, em conversa com Patrício Batsikama, filósofo de arte; NN e Fragata de Morais, escritor e político.

10 março 2010

Kilumba Afrikana


A caluanda, esta senhora bonita, é simplesmente a Helena de Almeida. Eu ví a revista Vida da semana passada que trazia a foto dela, ela bem aprumada e com a farda a impôr respeito. Não liguei nenhuma para a revista, “esta semana não compro O país, ou então depois” pensei.

Cada vez que deparava com um ardina, lá a senhora na capa da revista, eu virava o rosto de modo a não ser assediado pelos rapazes com olhares a indicar cansaço e fome e o sol a surrar-lhes as costas.

Na sexta-feira dia 5,  depois de ter apresentado a rubrica “Sugestões de Leitura” no programa “Tchilar” da TPA2, fui correndo à União dos Escritores Angolanos onde Luís Fernando lançava mais uma obra.

Meus olhos, qual câmera a filmar os momentos aprazíveis do evento, deparam-se com uma kilumba africana cujo o sorriso enfeitava as suas belas feições. Eu jurei que já tinha visto aquele rosto lindo. Onde? Aproximei-me, e tentando avivar minha memória perguntei-a:

- Já nos conhecemos? Teu rosto é muito familiar.



- Lê a revista.

Respondeu ela muito carinhosa enquanto indicava a revista vida sobre à mesa em que L.Fernando assinava autógrafos. Eis que reconhecí-a. Alegrei-me de a ver em carne e osso. Que mulher linda, exclamei.

Helena de Sousa Vaz de Almeida que perdeu seus país muito cedo, vendo-se na qualidade de pai e mãe dos seus irmãos, acreditou no sonho de ser mulher polícia. Ela é da temida Polícia de Intervenção Rápida, PIR, ou “ninjas”. Força mulher!

Quando fora das fardas, ela também exibe seus dotes artísticos “Quando posso, canto no Chá de Caxinde acompanhada pela Banda Maravilha e no Xavarotti, com a banda Tambarino. Faço uma “canjinha”. Interpreto música variada de actores brasileiros e angolanos”. Aprecia Luandino Vieira (gostaste de ler João Vêncio e seus amores?) e Luís Fernando (confesso que também gosto de ler L.F., lí Clandestinos no Paraíso em menos de 3 horas,). O gosto em comum, leitura, fez com que eu visse ao vivo esta mulher habituada a armas. Afinal ela nasceu no mesmo ano que eu.

Muitos sucessos mulher de “garra”.

Os poetas não vão para o céu

Mulheres, mulheres, mulheres. O que seria do homem sem mulher? Mulheres de grandes feitos que marcaram a história merecem sempre nosso carinho. Umas vão mais cedo mas a obra fica e marca-nos, Alda Graça foi-se na terça-feira, mas na verdade ela está entre nós.

José Luís Mendonça homenageia a Alda Graça do Espírito Santo, "nascida a 30 de Abril de 1926 na cidade de São Tomé, combatente da luta pela independência nacional, instruiu a nova geração pós independência, e pelas suas mãos de poetisa nasceram versos e rimas que sustentam o orgulho da República Democrática fundada em 1975. Uma referência nacional, que rejeita vanglórias e com humildade batalhou pela conquista do progresso do país soberano.

Criou a primeira geração de jornalistas do país, e como poetisa imortalizou o massacre de 1953 no poema TRINDADE, que desde a independência nacional é recitado todos os anos e de forma arrepiante por uma voz feminina.

O poder poético de Alda graça está presente todos os dias, e em todos os momentos de São Tomé e Príncipe. O grito pela independência nacional, a unidade do povo no coro da esperança, é reflectido na letra do hino nacional de que ela é autora". (http://amulhereapoesia.blogspot.com)


Ilha nua 


Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô1
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...
A.E.S. in "É nosso o solo sagrado da terra"

 

Os poetas não vão para o céu


na morte de Alda do Espirito Santo

Os poetas não vão para o céu
eles já estão no céu
mortos para o plágio desta vida
como se ninguém mais soubesse


chamar as coisas pelos nomes
que sem querer os transformam
no prumo das portas ouvindo
cantigas de roda ao luar.


Os poetas não vão para o céu
eles já estão no céu
com seus olhos cegos abrindo
o novelo das palavras por dizer.


Por isso os poetas não morrem
se transformam simplesmente
no esplendor desse dia
que cresce entre as linhas da mão.


Montados no pégaso do universo
aparecem às vezes no umbral da via láctea
e a sua mão toca a dimensão do nada
para amealhar os cristais do movimento.


José Luis Mendonça, in 'Um Voo de Borboleta no Mecanismo Inerte do Tempo' (INALD, 2005)

Quinta-Feira Cultural

Se Sexta-Feira é considerado o dia do homem, então Quinta-Feira tornou-se o dia da Arte e Cultura nos mais diversos centros culturais da nossa urbe. O Espaço Verde Caxinde tem sido palco de lançamentos consecutivos de diversas obras literárias e acadêmicas.


No mês que a elas é dedicado, Maria da Encarnação Pimenta, nascida no Kwanza Norte, com mestrado em Psicologia Industrial e Clínica pela Universidade de Lagos, curso superior de Ciências de Educação (no Isced), estreia-se no mercado do livro com dois volumes, resultado de pesquisa de cerca de seis anos, onde a estimada psicóloga analisa assuntos vários sobre questões ligadas ao alcoolismo, a corrupção dos docentes, atitude negligente dos pais, delinquência urbana e perturbações psicológicas que podem afectar o delinquente.


O I volume, "Eventuais causas e consequências da delinquência em Angola", com uma abordagem psico-pedagógica dos temas, mostra os números e locais onde as pessoas mais maltratam seus fígados alcoolizando-se, e como os país, professores, responsáveis sociais podem identificar sinais do surgimento deste mal.


No II volume, "Quem produz os delinquentes", a psícologa comunica-se de um modo mais ficcionado mas com um realismo marcante e doloroso, que mostra a sua visão de uma situação que pode levar crianças e jovens a uma vida de delinquência, bem como alertar a sociedade para o cuidado a ter no relacionamento com a geração mais nova que observa, acompanha os actos dos adultos.


Reginaldo Silva ao apresentar o II volume disse que, Encarnação Pimenta “... de forma algo temerária arrisca o género “short story”, que a crítica mais especializada poderá não lhe ser muito favorável, nesta sua primeira incursão pelo texto literário propriamente dito.

Mas a ficção serve exactamente para isso, para deixarmos a nossa imaginação correr e discorrer livremente construindo com palavras escritas o que pensamos ser a melhor abordagem para retratarmos e transmitirmos determinada situação.


Ficcionadas, as suas “short stories”, onde qualquer coincidência com a realidade é a mais pura verdade, levam-nos de facto ao mundo real que vivemos em Angola pela mão de uma autora irrequieta e impulsiva que não esconde a sua irritação diante das injustiças sociais, o racismo doméstico envolvendo pretos e mulatos, o obscurantismo, a violência doméstica, a criminalidade e por aí adiante, num verdadeiro e interminável cortejo de horrores para todos os gostos e feitios, que falam bem mal do que país real que estamos com ele.” (in http://morrodamaianga.blogspot.com/).

Ilustres figuras da nossa sociedade fizeram-se presente honrando a psícologa e, para alegria do anfitrião que viu a casa literalmente cheia. E como não pode deixar de ser, vem sempre os momentos para trocar impressões com gente com quem falar nas mais variadas áres do saber.







No Kings,


Na Vila Alice, é já tradicional a rubrica Mesa Bicuda, uma coordenação do Movimento Lev´Arte que ofereçe a plateia maravilhada, poesia ao vivo.


Sob apresentação da Lueji Dharma, a mesa recebeu o apresentador do programa Zimabando da TV Zimbo, Armindo Laureano. O talk show focalizou-se no panorama cultural e do entertainment ao nível televisivo. A plateia vibrou pois Laureano no fim também exibiu os seus dotes literários com a declamação de dois poemas, um dos quais relembrando o personagem Dimas da novela brasileira “Pedra sobre Pedra”.

Assim viví a Quinta-Feira da cultura e Arte. Esta semana teremos mais no Kings desta feita a presença do jornalista e escritor Isaquiel Corí.

26 fevereiro 2010

A poesia de Matadi Makola

Segundo João Papelo, "a poesia como manifestação artística e subjectiva, de interpretação personificada e individualista é, num outro ângulo, uma terapia do ego. É uma breve viagem aos recônditos do íntimo. Uma contemplação espontânea do indivíduo relativamente a si próprio. A poesia traduz forte sensação de lazer, e guerra ao mesmo tempo; traduz uma esperança bailarina que não exclui o prazer de dançar com o desespero no mesmo recinto de encenação que é o papel. A poesia traduz os sentidos ausentes no presente; celebra o elo do passado com o futuro. Esta geração de Poetas que agora vem com o seu arsenal de criação, se não é um resultado da prossecução das outras gerações de escritores, como insistem alguns “críticos pessimistas” (invejosos é uma palavra abusiva e demasiadamente pesada), então ela é a geração subjugada aos velhos dotes de criação literária mais rudimentar resultante das suas capacidades cognoscitivas e reprodutivas. Reproduzindo assim um universo de imagens, metáforas, sinestesias e rítmicas resultantes do seu conhecimento mais científico da língua (onde estão os bons entendedores?)."

Com base no acima, apresento-vos o jovem poeta Matadi Makola, pseudónimo de Coimbra Augusto Adolfo, que nasceu em 1989 em Negage, tem poemas publicados no Semanário Independente e é estudante de Linguas e Literatura Portuguesa. Eis alguns dos poemas do amigo Matadi:

Transladação

Sob a música mística dos salalés,
Vem passear comigo nos becos do meu coração,
Que seja em nós, amor, o amar, destino e direcção,
Aragem movendo, suavemente, os nossos férreos pés.

Vem libertar, de mim, a mulher que escondo,
O teu par amor, para o transcendente duo,
Vasculha-me nos pensamentos e a carne que possuo,
Translada-te em mim sem o mínimo estrondo.

Que te espero em mim, e, de mim, respondo,
Aos sinais da sina onde sonhando-te actuo,
Para desaguar em ti, porque é em ti que me concluo
Princípio e fim… enfim… fechados neste círculo redondo.

Vem, meu amor, ver dos meus olhos tudo que vês,
Vem sentir, de mim, a fria aflição
Vem sonhar, do meu sonho, a cálida paixão,
Vem, meu amor, ser, no que sou, tudo que és.



Entre a rosa e o pão


O que te ofereço? Rosa ou pão?
Ó Luanda, meu amor, neste dia,
Em que os covardes amam na sua covardia,
Em que o amor testa o meu coração.

Talvez um beijo, ou um tostão,
Com que alimentes os miseráveis no teu leito,
Ou um afago escaldante que acorde no peito
Os rugidos gigantescos da nossa paixão.

Talvez, pelos desvarios, inúmeras palmadas,
Talvez um terno olhar, mas sem assédio,
Que caia na tua alma como um remédio
Das feridas que abafas nas almas fechadas.


Para a AURORA


Covarde, hipócrita me chamo,
Quando o meu coração oculta,
Quando nenhuma pedra escuta:
“AURORA, meu amor, te amo”

Mário Pinto de Andrade: um olhar íntimo



SOU, ASSIM, UM AFRICANO DE ANGOLA
"É justamente porque nasci em Angola, país africano em que vivi e aprendi a conhecer a realidade colonial, que afirmo e defendo a minha angolanidade. E sobretudo: ajudei e continuo a ajudar, na medida das minhas capacidades intelectuais, a fazer respeitar internacionalmente o direito do povo angolano a dispor de si próprio."


Não havia mais espaço para estacionar o meu popó, um guarda permitiu-me estacionar no lugar reservado de uma instituição financeira nas imediações do Chá de Caxinde, mas foi logo me lembrando da “gasosa” no final do evento.

“Boss também vais no Chá de Caxinde, arranja só a minha gasosa”

“Sem makas” , respondi e saí com o pé no nguimbo pois não queria perder parte da apresentação.


“Mário Pinto de Andrade: um olhar íntimo” é o título do livro coordenado pela filha, Henda, do grande nacionalista e homem de cultura, MPA, que foi lançado ontem no centro cultural " Chá de Caxinde", em Luanda.

O livro retrata as angústias e melancolias que Mário Pinto de Andrade viveu longe da família. Deve-se conhecer o homem não só a sua carreira política, cultural ou outra, mas também conhecer a sua dimensão pessoal, e o livro nos abre a possibilidade de ler as cartas de MPA para sua família. É um verdadeiro documento que ajudará pesquisadores, estudantes e todos aqueles que honram os homens que marcaram nossa história referiu Justino P. Andrade.

O centro cultural estava literalmente sem espaço, distintas personalidades e figuras públicas compareceram no local e a família Pinto de Andrade esteve bem representada. A apresentação foi feita pelo economista Justino Pinto de Andrade, membro da família, e depoimentos de Miguel Hurst e o Pedro, sobrinhos de MPA.
Seguiu-se a assinatura de autógrafos e ainda deu tempo para beber um copito e conversar com as ilustres figuras no local. Gostei de conhecer pessoalmente o Sousa Jamba com quem tive alguns momentos de prosa. Ainda bebi algum conhecimento sobre o processo 50 em ligeira conversa com Amadeu Amorim e, logo a seguir, fui ao Kings Club onde ainda apreciei a Mesa Bicuda com o José Moreno da Gama.

Trarei em breve mais dicas sobre as belas e íntimas cartas do livro da Henda Ducados. Mas desde já delete-se com a poesia abaixo de MPA que foi cantada em kimbundu na hora do momento cultural:


CANÇÃO DE SALABU


Nosso filho caçula
Mandaram-no pra S. Tomé


Não tinha documentos


Aiué!


Nosso filho chorou


Mamã enlouqueceu


Aiué!


Mandaram-no pra S. Tomé


Nosso filho partiu


Partiu no porão deles


Aiué!


Mandaram-no pra S. Tomé


Cortaram-lhe os cabelos


Não puderam amarrá-lo


Aiué!


Mandaram-no pra S. Tomé


Nosso filho está a pensar


Na sua terra, na sua casa


Mandaram-no trabalhar


Estão a mirá-lo, a mirá-lo


- Mamã, ele há-de voltar


Ah! A nossa sorte há-de virar


Aiué!


Mandaram-no pra S. Tomé


Nosso filho não voltou


A morte levou-o


Aiué!


Mandaram-no pra S. Tomé







25 fevereiro 2010

Maka na União


Sob o olhar seco do poeta maior, na casa dos Escritores Angolanos, a maka era colocada à mesa para um saudável debate. Historiadores, linguistas, literatos e estudantes universitários fizeram-se presentes emprestando seu calor na tradicional “maka à quarta-feira” que marca o fim do ciclo das makas do actual mandato da direcção da União dos Escritores Angolanos, destacando-se a presença do senhor Makuta Nkondo, aprecio as colocações deste ilustre mukongo nos meios de comunicação social, o Dr. Petelo Nguinamau Fidel, o Dr. Ndonga Mfwa entre outras personalidades.

Sou kimbundu e, tenho uma forte simpatia pelo povo bakongo. Sempre me intrigou o facto de este povo ser grande defensor, conservador, da sua rica cultura. Assim é que, quando recebí o email do poeta e crítico Abreu Paxe (afinal é Mpaxi, o palestrante falou sobre a deformação dos nomes bakongos) a convidar-me para a maka que teria como protagonista o Dr. Mbala Lussunzi Vita ( que nome puramente africano) que iria dissertar sob o tema “A soceidade kongo face à colonização portuguesa 1885-1961, um povo em movimento uma sociedade em mudança", não hesitei, metí-me no aveo e lá corrí na casa da cultura.

Chamou-me atenção um aspecto que devo realçar aqui pois, não tem sido habitual nos eventos que vão ocorrendo na nossa cidade engarrafada. A pontualidade. Eram exatamente 18 horas quando o moderador, Abreu Mpaxi, convidou a plateia a tomarem seus lugares. Depois da breve apresentação do recheado, rico currículo do Dr. Mbala, historiador, investigador ele entra em cena. Prendemos nossos olhos ávidos de bebermos algum conhecimento, para uns a consolidação de factos já conhecidos e novidade mesmo para os poucos jovens que alí estiveram.

Na verdade, o tema em dissertação, é o resultado do árduo trabalho de pesquisa do Dr. Mbala, sua tese de dotoramento que resultou num trabalho de 3 volumes, que ele modestamente considera apenas ser uma introdução. “Entrei na floresta densa da cutura kongo despido das vestes de mukongo, e com roupas de um cientista procurei não me perder nela, quero convosco sair dela com resultados...” referiu o dotor a dada altura da sua comunicação.

Dentre vários capítulos do seu trabalho, destacou “ a movimentação do povo kongo e a preservação da cultura diante dos portugueses". Estes maravilharam-se com o nível de ordem do Reino. Abordou os aspectos ligados a migração do povo kongo nas terras dos seus semelhantes culturais, Kongo Belga, mas no entanto eles conservavam sua tradição. Não eram permitidos os casamentos dos congoleses angolanos e congoleses belgas. Defendeu ainda que deve-se considerar “história em angola, que é o povo europeu que vem fazer história em África, considerando o africano como mero objecto de estudo e, história de Angola, que são os autóctones que passam a ser protagonistas da sua história. A sua pesquisa teve como fontes a tradição oral que foi a principal e confirmado apenas com as fontes escritas. Dentre outros títulos, destacam-se também no primeiro volume as "perspectivas históricas do povo kongo, do Reino Kongo ao Reino do Kongo, criação do districto do kongo português".

Seguiu-se logo após a dissertação, a intervenção dos convidados. Destacou-se o Sr. Makuta Nkondo que debitou orgulhosamente subsídios interessantes sobre os bakongos. O mestrando em história, Aragão Mateus , kimbundu, não gostou da aparente exclusão que Makuta faz dos outros povos como os kimbundus do reino do Ndongo. Referiu que o conhecimento da história deve ter como objectivo a unidade dos diferentes grupos etnicos que por sinal são originários de um tronco comum, os bantus, tal é a grande similaridade nas línguas. Dr. Mbala ao reagir a questão da aculturação dos bakongos, disse que o povo não foi imune a aculturação devido ao factor geográfico mas, a unidade cultural influenciou o grau de aculturação, o povo bakongo tomou consciência da sua cultura e resistiu à imposição de outras culturas.
Até à próxima maka, vou mesmo é aprofundar as minhas leituras sobre os bakongos. Bakongos de Angola, continuem então firmes na preservação da cultura.

Mono kuzolanga beni (perdoem-me se escrevi mal).

 
 
A escultura é do escultor Wizani, retirado da net, ele também um mukongo

23 fevereiro 2010

Desporto & Cultura - Parabéns kilumbas douradas



“O desporto tem o poder para mudar o mundo, tem o poder para unir as pessoas numa só direção” Nelson Mandela


Na sociedade contemporânea, notamos a proeminência do desporto e da cultura. A disseminação contínua das indústrias culturais, o perfil nacional e mundial do desporto e sua contribuição para a expressão da identidade pessoal, cultural e nacional, confirmam o lugar do desporto no centro de um consumo global pelo que, o desporto pode contribuir grandemente na identidade cultural de um povo. Neste mundo que se torna cada vez mais impessoal, o desporto pode ajudar diferentes grupos de pessoas a perceberem quem são, em quem podem confiar ou ainda a identicarem quem são seus iguais.

Autores como Bradley (1999) Jarvie (2000) têem argumentado que o desporto ajuda diferentes grupos etnicos ou nacionalidades a desenvolverem um senso de identidade cultural, assim sendo, o desporto, numa concepção positiva ajuda no reconhecimento e representação de um povo.

Nós angolanos, já carregamos alguma tradição no desporto. Grandes vitórias temos obtidos e deveras nos enchem de muitas alegrias. Bem recentemente, saboreamos as alegrias (e as tristezas) que o futebol nos concedeu. O país vestiu as cores rubro negras da bandeira, era um só povo e uma só nação em apoio aos palancas no CAN Orange Angola 2010.

É com as mãos que garimpamos grandes tesouros no desporto angolano. Dai que Gustavo da Conceição dissera uma vez “O futebol é mais importante que o basquetebol, mas o basquetebol apresenta melhores resultados”. Vem em seguida o Andebol, mais propriamente o Andebol feminino.

A selecção nacional sénior feminina de andebol conquistou sábado último a sua decima taça continental ao vencer a Tunísia por 31-30 na final do 19º Campeonato Africano das Nações, que decorreu de 11 a 21 do mês em curso no Egipto. Grande feito este das meninas de ouro e, a veterana Odete Tavares aproveita o momento para anunciar o fim da sua carreira na selecção ela diz “termino a minha carreira na selecção bem satisfeita com a conquista do deca campeonato africano e vou jogar apenas mais um ano na minha equipa”, o Petro Atlético de Luanda e, apelou aos membros do governo e aos empresários para que apoiem mais o desporto, para que a conquista de títulos seja possível.

Então, está lançado o apelo não só ao governo e empresários mas a toda sociedade civil que, apoiemos grandemente os nossos desportistas para a honra do País e desde já, parabenizo as palanquinhas douradas pelo feito e de máscara lunda no rosto dou dez batucadas no tambor da nossa angolanidade porque as kilumbas merecem.

22 fevereiro 2010

O melhor amigo do homem

O artigo abaixo é de autoria do meu amigo poeta, José Luís Mendonça, que me cedeu por gentileza. É uma reflexão interessante sobre a amizade entre o homem e o cão. Porquê o homem aprecia a companhia do cão? Leia até o fim...


O facto de o cão ser considerado o melhor amigo do homem não se deve à sua ‘canina’ fidelidade. Na minha qualidade de homem de letras, de ‘bronzeador’ de palavras, segui o trilho de muitos cães, desde que atinei com a ponte do juízo, e cheguei à consoladora conclusão de que o homem aprecia a companhia do cão simplesmente porque o cão não fala. Como o cão não fala, não fofoca, não maldiz ninguém, não mete o bedelho onde não é chamado. Com essa característica que coloca o cão, em termos de virtudes, acima de muitos de nós, o homem sente-se à vontade ao lado do cão, ao ponto de com ele coabitar mesmo num restrito apartamento.

Talvez nós, africanos, estejamos agora a copiar hábitos ocidentais, porque, que eu me lembre, o ladrar do cão aqui em África sempre foi no quintal, o cão era mais para apoiar o caçador na mata ou guardar a copeira das galinhas e o que sempre vemos nas ruas de Luanda são cães sem trela, em bandos ou solitariamente enfezados, a dar largas à liberdade de fazer amor em plena via pública e à luz do dia. Mas cão dentro de casa é o que já começa a vislumbrar-se quando adentramos num ou noutro recinto de mosaico fresco e ar condicionado activo, com o tradicional sofá onde já o animal marcou o seu território.

Cão de apartamento dá trabalho. Exige banho na banheira, com sabonete, há quem lhe insira champô no pêlo nessa hora húmida e depois uma escovadela, até que o bicho, com direito a estojo de maquilhagem, passe a ladrar mais ‘soprano’ que os rafeiros. Cão de quintal, dos nossos cá da banda, contenta-se em comer os restos do funji ou da massa do jantar. Na Europa, ter cão na cidade dá ainda mais trabalho, porque lá o cão tem comida especial, que vem empacotada e às cores. Não é de estranhar – a não ser para os recém-chegados à estranja – pois, ver-nos a andar como anda a tropa especial em terreno minado, topando tudo quanto é mais colorido que o passeio, para não ter de levar um cheirete imundo para casa. Há mesmo vertentes excrementícias coloridas de um vermelho ocre ou de um amarelo-torrado, a contrastar com o cinza escuro do passeio, que fariam jus a qualquer vernissage de museu de arte. Gente há, mais atenta aos direitos das pessoas, que carregam consigo um saquinho de plástico para levantar do chão a miséria canina. Além do banho e do pitéu industrializado, o cão de apartamento exige ser levado a determinadas horas para a defecação diária. Se o dono não é disciplinado ou se não tem tempo, terá de contratar alguém e ele há especialistas treinados para levar o cão às esquinas das ruas ou aos contornos arredondados das árvores fazer as tais ‘necessidades maiores’.

Falando em direitos da pessoa, constatei também que os cães hoje em dia exibem um olhar tão humano que quase nos toca o coração. Eles não falam, mas falam sem falar. Daí talvez o homem estar tão afoito em defender esta determinada categoria de direitos que, não sendo humanos, serão, porventura, direitos de pessoa canina.

Por tudo isto e pela convivência milenar entre o cão e o homem, o cão passou a ser tido como o melhor amigo do homem e aqui entramos já na parte metafísica ou sentimental do problema. Trata-se de puro afecto entre o animal e o homem. Coisa que tem faltado em doses iguais entre o homem e a mulher, para cair no terreno mais restrito do género humano. Porque não haja dúvida que o homem devia ver na mulher o seu melhor amigo. Só que a mulher é um Homem e não pode viver calada como um cão. O homem teria de aprender a respeitar a palavra da mulher. É nessa falta de apreciação do valor (ou do verbo) da pessoa humana que muitos conflitos arrasadores abanam a cauda.

Indo para o terreno mais lato da espécie humana, falta, na verdade, afecto e a mesma consideração ‘canina’ entre um Homem e outro Homem. A tal ponto de o filósofo Thomas Hobbes classificar o Homem como o lobo do próprio Homem. Vejam a distância do cão para o lobo. Se o Homem conseguisse ser, ao menos, o cão do próprio Homem, a coisa seria diferente. A Humanidade seria outra. Uma Humanidade mais canina, isto é, amiga do Homem. Mas, talvez para alcançar este estado de amizade sem limites, de fidelidade canina, o homem devesse falar menos e dar mais de si aos outros. A modos de cão.
 
Fonte: Jornal de Angola, 21 de Fevereiro, 2010
Fonte da imagem: podengocrioulo-podengobras.blogspot.com/
 

11 fevereiro 2010

Amor & Esperma

Amor & esperma
                        Um tema
                                    Ambíguo

Te
Ima
Em que
Imar
Neurónios
               Os amigos Fo
                                Gem o Amor 100 cor
Teimam em engolir teorias

                                    Com
                                    Plexo
                                     o A
                                     Mor
                            Dar & Receber
                                é feliCidade
           a idade é pedra que esconde o caminho?
                                Mas a suada
                                    mbunda
                                    Reluz e
                                    Carrega
                                   a cruz do
                                      amor

Nas pernas
                O Es
                      Per
                          Ma
Dia
Log
Ando
com
a VIDA
complexo
o te
     ma
        Pode-se amar duas
                        flores nu
                                    ma
                                       só colheita?
A Emma é Deusa
Acreditem
É tema é esperma é amor é calor
Que a alma aquece
E apetece cada trago com Sua
                                             Vida
                                                  De
Saborear
Pois o lugar do amor é aqui e agora

03 fevereiro 2010

João Melo na Mesa Bicuda

A interação entre escritores jovens e os consagrados, deve ser reputado como algo de suma importância por quanto há troca de experiências que ajudam os neofitos a caminhar com alguma segurança no campo escorregadio das letras.

O Lev´Arte, Movimento literário e artístico de jovens, convidou na última Quinta-Feira, para sua "Mesa Bicuda" o escritor João Melo. Abaixo vai o texto da minha kamba Lueji Dharma, que esteve no local e pode desfrutar de momentos artísticos que revigoram o intelecto .


Kings Club - Quintas-feiras

A noite de Luanda liberta-se do jugo das noites desenfreadas do àlcool e do nada, para se apresentar cada vez mais culta e mais poética.

E o Kings Club apresenta-se como uma porta aberta para a dimensão da sabedoria, da partilha num passo de dança que nos Leva à Arte num movimento Lev'art. É nesta dimensão de um espaço decorado por escadas, que a cada degrau, nos encaminham para o nobre mundo das letras escritas, declamadas e cantadas...

É na penumbra de uma luz quente mas que não ofusca que se redescobrem mundos pensados por poetas da africanidade...

É numa sala repleta de artistas que se encontra o palco onde o Nguimba Ngola e João Melo esgrimem um diálogo onde a Literatura é rainha, numa mesa bicuda por natureza.

O escritor João Melo em toda a sua intervenção demonstrou ser um homem apaixonado pela escrita, cujo percurso nas Letras se iniciou aos 15 anos. Neste percurso apontou "Antologia de Poesia Negra" de Mário Pinto de Andrade como um livro inesquecível. Um livro que lhe foi dado a conhecer em Lisboa por Rui Mingas e que considera ser de salutar visto ali se encontrar um espólio da Africanidade.

Mais uma vez a partilha na base de várias obras que João Melo nos oferece...e que actualmente o fazem ser reconhecido em Angola como um dos melhores escritores.
O Kings permite também a compra de livros, pelo que ontem consegui enriquecer a minha biblioteca com o livro de João Melo : Novos Poemas de Amor.
Parabéns ao Movimento Lev´Arte
Fonte: http://angolavitoriosa.blogspot.com/

02 fevereiro 2010

sabe Deus a razão do amor

a) os lábios A moral


a semente doce sorridente

os sábios Os beijos

mexe e mexe mais a alma contente

os sentimentos são tormentos?

é iminente a cor da felecidade

oh Lua o desenho nos olhos brilhantes

toca e toca mais

a doçura é surra mental afinal

no ponto cantante

o amor é também racional

no ponto Geométrico

mas obcecados os beijos e carícias

no ponto dançante

então que seja assim Deus é Poder

a semente doce sorridente

ama e ama mais a vida

divina é a vida

roça que roça a Magia

quanta alegria

abençoado beijo e seja Deus

A ponte do desejo

b) sabe Deus a razão do amor

deveras os nobres sentimentos

na incenssante busca do infinito

é limite que tende ao fracasso

os ímpios amassos são o dilema

no tema quente da moral

Quem freia o ritmo

Quem sonda o íntimo

oh Deus

Luz que na Kruz escreveu

os sonhos mais lindos

a consumação da ternura

a doçura e a candura do puro amor

a sinuosa dor espreita envergonhada

vem

mais uma vez digo

vem

e desenha-me

e molda-me

e sopra-me

a essência da vida

o teu vinho doce de uvas

o teu saboroso pão de amor

comandam espinhos

sabe Deus a razão do amor

afinal

quem não ama não conhece Deus