24 março 2010

“A fotografia é uma arte sim..” - Wagner Dias na Mesa Bicuda

A palavra Fotografia vem do grego φως [fós] ("luz"), e γραφις [grafis] ("estilo", "pincel") ou γραφη grafê, e significa "desenhar com luz".

Por definição, fotografia é, essencialmente, a técnica de criação de imagens por meio de exposição luminosa, fixando esta em uma superfície sensível.

Convidamos Wagner Dias que no seu jeito carioca, pisou o palco do The Kings Club. Amante do surf este fotógrafo assume-se e dedica-se no seu trabalho pois para ele “a vitória vem da vontade de fazer tudo certo”.
Contagiado pelo calor humano e carinho do Lev´Arte, Wagner nos relata o abaixo:


VIDA E OBRA

Quem é Wagner Dias?
Sou produtor de vídeo e Fotografo profissional, editor de imagens e vídeo e natural do Rio de Janeiro, Brasil. Nasci em 11/04/1964.

Como a fotografia entra na sua vida?

Trabalhando com informática desde 1983, a fotografia entrou como um hobby, após terem sido lançadas as primeiras câmeras digitais e impressoras a jacto de tinta no Brasil. A partir de 1997 a fotografia passou a ser a profissão onde nunca deixou de estar ligada a informática na área de edições de imagens e outros itens mais.

Que fotográfos admiras?

Alexandre Oliveira e Wladimir Damaso, por terem sido as pessoas que dedicaram um pouco de seu tempo a me aperfeiçoar no ramo da fotografia.

Qual o melhor momento que fotografou?

Já existiram vários momentos bons, mas um que me lembro foi em uma praia do Rio de Janeiro onde fotografava o surf em um final de tarde com ondas altas, mar revolto e praia deserta, um cidadão arriscou entrar no mar para banhar-se, e afogava-se, comecei a fotografar mas interrompi as fotos para ajuda-lo, quando retornei percebi que só haviam 2 ou 3 fotos do momento, e essas ficaram marcadas pelo fato de já ter ouvido de vários fotografos que a profissão está em primeiro lugar, tive muita satisfação no momento em que cliquei e imediatamente larguei a camera para ajuda-lo, pode nao ter sido a melhor fotografia que fiz mas foi o melhor momento em que podia estar fotografando.

Já lhe impediram de tirar fotos? Como reagiu?

Sim, já me impediram de tirar fotografias, isso é normal no ramo quando são necessárias às fotos em locais não permitidos por leis governamentais e empresas particulares. A reação tem que ser tranquila e sensata, pois isto faz parte da profissão.

Participou de exposições fotográficas? Quais?

Sim, paricipei de uma exposição fotográfica referente as fotos de esportes aquaticos, como o Surf, KiteSurf e WindSurf.

Fale resumidamente de outros trabalhos que faz... 

Por gostar muito dessa profissão na qual eu atuo me dediquei muito a todos os tipos de fotografia, sendo assim estou pronto a fazer qualquer foto que seja necessária. Também faço edições de imagens, criação de lay-outs e impressões de imagens em qualquer formato ou tamanho.

FOTOGRAFIA E ARTE

Há acérrima discussão sobre se fotografia é arte. O que se lhe oferece comentar?

Sim, a fotografia é uma arte sim... Pois assim como um pintor as vezes leva meses ou anos para fazer um quadro, o fotográfo quando sensivel a natureza ou a situações momentâneas tem apenas segundos para fazer esta pintura, pinturas essas que muitas das vezes ficam registradas em nossas mentes e nunca mais nos deixam. Sendo assim, acho que pode-se considerar uma arte.

Que relações pode existir entre literatura e a fotografia?

Relações totais, pois são duas artes ligadas. Imaginem fotos artisticas descritas por belas palavras.

Você tem planos de editar um livro?

Sim, livro este onde as fotos sejam acompanhadas por belos poemas referente as mesmas.

A FOTOGRAFIA E O FOTÓGRAFO

Qual a sua opinião sobre a invenção da fotografia, foi Louis Jacque Mande Daguerre ou Joseph N. Niepce?

Considerando o que a história diz, que no século IV a.C., o grego Aristóteles observou algo que o fascinou: a luz que entrava por um pequeno orifício projectava a imagem exterior ao contrário. Em seguida Leonardo da Vinci descreveu uma câmara escura portátil, modelo com um espelho e uma lente, usado pelos artistas do século XVI, para projectarem imagens. Mas não sabia ainda como fixar as imagens. Em 1829, o francês Niepce revestiu uma chapa de metal com substâncias químicas sensíveis à luz e, utilizando uma câmara escura, projectou uma imagem na chapa, a exposição durou oito horas e ele assim fixou a primeira fotografia. Em 1839, Daguerre aperfeiçoou este processo, criando um aparelho em que a exposição era só de 30 min, o problema é que esta máquina pesava 50 Kg. Em 1841, o inglês William Fox Talbot inventou um processo de produzir fotografias em negativo do qual se podiam obter as reproduções que se quisesse a preto e branco, e assim por diante até os dias de hoje.

Então minha opinião é que efetivamente não houve um inventor da fotografia, isto foi um processo de longos e longos anos, sendo aperfeiçoado cada vez mais pelo homem.

Fazer fotografia é apenas apertar o disparador?

De jeito nenhum, uma fotografia tem que ser trabalhada, apesar de certos momentos o fotografo ter muito pouco tempo para isto, as vezes tendo apenas segundos. Acho que o verdadeiro profissional sempre se preocupará com este detalhe e por último, o simples apertar do botão de disparo.
O que determina se um fotógrafo é amador ou profissional?

A preocupação com cada fotografia que vai fazer, o carinho com que faz isto e o conhecimento técnico em todas as formas, tanto de ambientes onde a foto será feita como da tecnologia a explorar de seu equipamento.
Que especialização na fotografia mais aprecia? Fale um pouquinho das demais especializações.

Meu conceito sobre as especialidades da fotografia giram em torno da luz, acho que um fotografo que sabe trabalhar bem seu equipamento em consequencia da iluminação que se encontra no momento da fotografia ele pode ser considerado um especialista em qualquer tipo de foto. Seja em estudios, externas, esportes, submarinas, aéreas, publicitárias, eventos, fotojornalismo, etc. Agora a que mais aprecio são as fotografias de esporte, pois os movimentos rápidos e muitas vezes com baixa lumonosidade fazem o fotografo se esforçar mais para ter uma grande foto.

Segundo o fotografo brasileiro Otto Stupakoff “O maior desafio do artista é o de encontrar sua própria voz", já encontrou sua voz na fotografia?

Eu não diria encontrar sua própria voz, mas acho que assumir sua própria voz, pois não se criam artistas, nascem artistas, basta que este filho da natureza consiga no meio de tanto capitalismo conseguir assumir e vencer com seus dons. É o que procuro fazer dentro de minha criatividade e obviamente minhas limitações.

Que obstáculos enfrentam os fotógrafos?

No meu ponto de vista é o mercado de trabalho, na maioria das vezes, não dar o devido valor a uma fotografia profissional, achando, muitas vezes, que a fotografia não passa de um simples click no botão de disparo.

MULTIMÍDIA

Como pode um escritor, poeta ou músico tirar proveito da multimídia digital?

O proveito pode ser tirado de muitas formas, seguem alguns exemplos: Um livro de poesias com um CD anexo onde o leitor poderia escutar a poesia ao mesmo tempo que lê seu livro e visualiza as fotos, Cartões de visitas digitais, em forma de CD, onde podem ser colocadas suas obras em áudio, vídeo, fotos ou até mesmo escritas, e assim por diante, são muitas as formas de ser tirar proveito da multimidia.

GERAL

Tem contactos com fotógrafos angolanos? Quais?

Muito pouco, mas posso citar um que realmente mantenho contacto, é Paulino Damião (fotojornalista do Jornal de Angola), onde já fizemos muitas fotografias juntos aos arredores de Luanda, e que hoje já se tornou um grande amigo.

Fotografou em Angola, Conta-nos a experiência.

Sim, experiencia magnifica fotografar em Angola, principalmente aos arredores da cidade, onde encontrei pessoas vivendo o dia a dia com felicidade independente de suas situações, trajes diferentes, paisagens belas e diferenciadas.

O que quer deixar como mensagem para o Lev´Arte e a plateia?

Bom... para deixar uma mensagem preciso primeiro citar a sensação que tive ao conhecer o Lev`Arte e as pessoas que lá estavam. Foi uma sensação de leveza, ver estampado nos rostos de cada um o prazer de ali estarem, e poder sentir a dignidade e carinho de todos, também a vontade interior de cada um em conseguir levar este movimento para frente. Como este tipo de conduta segue meus pensamentos e objetivos a mensagem que posso deixar é a que sempre sigo, que é a seguinte:

A vitória vem da vontade de fazer tudo certo.
Do início ao fim.
De não se permitir errar.
E dar de si o máximo absoluto.

Desta forma acho muito difícil não conseguir atingir nossos objetivos. Muito obrigado a todos.

19 março 2010

Feliz Dia dos Pais

O dia dos pais é celebrado em várias partes do mundo. Nem sempre esse dia para honrar os pais é o mesmo em todos os países. Os costumes e tradições realacionados ao dia também são diferentes em vários países.
Encontraram-se registos do dia dos Pais nas ruínas da Babilônia há mais de 4 mil anos. Um jovem chamado Elmesu moldou em argila o primeiro cartão. Desejava sorte, saúde e longa vida a seu pai.

Países que foram culturalmente influenciados pela igreja católica, celebram o dia de São José em 19 de Março. Em 1870, o papa Pio IX o proclamou "O Patrono da Igreja Universal" e, a partir de então, passou a ser cultuado no dia 19 de março. Em 1955 Pio XII  fixou o dia 1º de Maio para "São José Operário, o trabalhador".

Descendente de Davi, São José era carpinteiro na Galiléia e comprometido com Maria. Quando Maria recebeu a anunciação do anjo Gabriel de que daria à luz ao Menino Jesus, José ficou bastante confuso porque apesar de não ter tomado parte na gravidez, confiava na fidelidade dela. Resolveu, então, terminar o noivado e deixá-la secretamente, sem comentar nada com ninguém. Porém, em um sonho, um anjo lhe apareceu e contou que o Menino era Filho de Deus e que ele deveria manter o casamento. José esteve ao lado de Maria em todos os momentos, principalmente na hora do parto, que aconteceu em um estábulo, em Belém.

Hoje os tempos são de uma grande correria, o que tem afetado as familias. O pai passa mais tempo na rua do que em casa com os filhos, na louca busca do sustento. No entanto há pais que não estão se importando com o arranjo familiar e não assumem seu papel de pai. Ai os filhos andam a deriva sem orientação ou escassa que a mãe dá pois ela também vai à rua em busca de comida. No livro de poesia “Mátria”, escrevemos um poema “Flores do Lar” que ilustra este facto;


Naquele tempo
germinava
pai
filho
mãe
no vaso da minha mesa

Hoje secou a semente
é a praga do corre aqui e acolá
que sugou as flores do lar

E amarrou-as nas grades
da falta de tempo

(O tempo é um bem escasso)


Não sou um grande exemplo de pai, mas tenho me esforçado a sê-lo procurando ser amigo dos meus filhos e educar-lhes nos caminhos virtuosos. É deveras tamanhã a alegria de vê-los a crescer. No dia 11 de Março, eu me tornei pai pela 5ª vez, (enchei a terra e multiplicai-vos... ?) recebí o Jamiel da Paz. A tarefa de cria-los e educa-los é gigantesca atendendo as circunstâncias em que vivemos. São várias as dificuldades socio-económicas neste país e muitos país lutam para o sustento material e espiritual dos filhos.

Papás angolanos, não importa as dificuldades, vamos assumir nosso papel e reflitamos nas dicas abaixo:

1. Passe tempo com seus filhos – “É mais fácil falar do que fazer”,  poderemos pensar mas, como indica Deuteronômio 6:7, não há o que substitua passar tempo com os filhos.

2 . Ensine valores corretos aos filhos – Um pai aconselha, “Dê muito amor aos filhos e leia para eles”, isso estimula a inteligência dos filhos e, devemos ensina-los a diferenciar o certo do errado.

3. Seja razoável - Apesar de lhes darmos toda a ajuda possível, não ficamos controlando cada ação deles. A Bíblia aconselha os pais em Colossenses 3:21: “Não estejais exasperando os vossos filhos, para que não fiquem desanimados.”

4. Beneficie-se de conselhos confiáveis – Na Bíblia encontramos uma ampla variedade de conselhos sábios (esqueçamos o Saramago que disse que ela é um manual de maus costumes...). Também há bons especialistas, conselheiros familiares sérios que podem ajudar para lidarmos com todos os aspectos da vida dos filhos à medida que estes crescem.

Feliz dia dos pais.

18 março 2010

"Há que tornar a escola numa fábrica de leitores"



Foi sem rodeios que o convite à Mesa Bicuda do Lev´Arte foi aceite. Com o objectivo de manter viva a interação entre escritores e seus leitores, bem como a promoção de suas obras, a Mesa continua cada vez mais bicuda. Nosso ilustre convidado foi o escritor e jornalista Isaquiel Corí, nascido aos 12 de Agosto de 1967 em Luanda. Isaquiel escreveu:

Sacudidos pelo vento, UEA – 1996
O último feiticeiro, Chá de Caxinde – 2005
Pessoas com quem falar, UEA – 2006 (em co-autoria com Aguinaldo Cristóvão)

No prelo está: O último recuo, Mayamba Editora.


Nguimba Ngola - Fale um pouco sobre a sua infância.

Isaquiel Corí - Passei praticamente toda a minha infância e adolescência no bairro Kassequel do Lourenço. Naquele tempo, estávamos em guerra (aliás a guerra sempre foi uma constante na vida das pessoas da minha geração) o dia a dia do bairro era bastante marcado pelo barulho dos aviões, sobretudo militares, com destaque para os Migs, que levantavam voo e aterravam no aeroporto bem próximo. A vedação do aeroporto era bastante imprecisa e havia pontos em que as pessoas atravessavam a própria pista. O grande quintal do aeroporto, no tempo chuvoso, ficava todo verde de capim e era habitado por várias espécies de animais, sobretudo insectos e pássaros. Nós, crianças, íamos à caça de pássaros e gafanhotos e brincávamos nas carcaças de aviões abandonados, ainda do tempo colonial. Lembro-me dum que era conhecido por todos como Barriga de Ginguba e hoje julgo tratar-se de um Hércules. Tínhamos bastante contacto com os cubanos, que tinham um quartel mesmo ao lado do supermercado Lourenço, por detrás da igreja católica. Lembro-me dos cubanos por causa das actividades musicais que organizavam, nas suas datas festivas, que eram abertas à assistência dos moradores do bairro. Naquele tempo era frequente brincarmos às guerras, os Cucuco contra os Sambequeque… Eram guerras travadas com pedras de areia vermelha no quintal do aeroporto, que estava recheado de grandes montanhas de areia vermelha. Frequentemente as batalhas desciam até às próprias ruas do bairro, para imenso desagrado dos nossos pais ou tutores. Enfim, tive uma infância igual ao das crianças do meu bairro, até que os meus olhos voltaram-se para o acervo muito bem guardado de livros, jornais e revistas pertença do meu irmão primogénito, o saudoso Borges. Passei então a sair menos para as brincadeiras com os outros para tornar-me num leitor obsessivo, diria mesmo compulsivo.

NN - Como se dá a ida à tropa?

IC - Fui à tropa nas mesmas circunstâncias em que todos iam. Em 1985, ano em que completaria dezoito anos, fui apresentar-me. Estávamos no mês de Março e, portanto, ainda tinha 17 anos de idade. Como sabe, o cumprimento do serviço militar já era obrigatório.
NN - Como surge o interesse pelo jornalismo?

IC - Tenho dito às pessoas que não sou um jornalista de raiz. Torno-me jornalista a partir da literatura. A partir de 1987 passei a enviar crónicas para o Jornal de Angola. Inicialmente eram publicadas na coluna “Cartas dos Leitores”, mas não tardou passaram a inseri-las no espaço editorial normal. Mais tarde o Jornal de Angola organizou os concursos literários “Jornal de Angola/Odebrecht” e “O Conto do Mês” e eu ganhei várias edições. Aqui devo render a minha homenagem ao falecido Victor Custódio Ribeiro, que foi dos que mais ganharam tais concursos. O facto de ter feito o curso médio de jornalismo deu ao aspirante a escritor, que até então era um obscuro “rato de biblioteca”, a possibilidade de enveredar profissionalmente pelo jornalismo.

NN - Como demarcas a fronteira entre jornalismo e literatura?

IC - A fronteira é clara e não há que fazer confusão. O jornalismo tem regras claras, sendo que o profissional é escravo da verdade dos factos. O escritor rege-se pela profundidade ilimitada do seu sonho, é um construtor de verdades próprias, sonhadas. Mas do ponto de vista da técnica narrativa o jornalismo, em géneros como a reportagem e a crónica, bem pode, nos melhores profissionais, valer-se das conquistas da literatura. Por outro lado alguns dos grandes escritores há muito que incorporaram nas suas obras técnicas oriundas do jornalismo, até mesmo porque muitos deles foram jornalistas. Um bom jornalista, em princípio, tem a pretensão íntima de vir a tornar-se escritor.

NN - Que livros o influenciaram para essa aproximação ao mundo literário?

IC - Tive a sorte de ter acesso a bons livros, desde sempre. Em casa tinha, para além dos grandes clássicos da literatura policial, várias antologias do conto português, brasileiro, norte-americano, latino-americano… Havia os romances de Hemingway (“O Adeus Às Armas”, “Por Quem os Sinos Dobram”, “O Velho e o Mar”), Somerset Maugham (“O Fio da Navalha”), John Stainbeck (“A Leste do Paraíso”), William Faulkner (“O Som e a Fúria”)… Porque na tropa tornei-me bibliotecário, o leque de opções alargou-se bastante. Foi aí que tive acesso à colecção Vozes de África, do INALD, que editou uma boa parte dos grandes escritores africanos. Mais tarde, quando passei a trabalhar na Biblioteca Nacional, as opções tornaram-se quase infinitas.

NN - Que motivação teve para escrever a temática da guerra em “Sacudidos pelo vento”?

IC - Este livro resultou de uma profunda reflexão em torno do destino da minha geração, cuja existência estava literalmente cercada pela guerra.

NN - Abel, Luís, Adriano e o Paulo, são personagens reais?

IC - Não. Cada um deles reúne em si características típicas do grupo a que pertencem. Qualquer um deles tem a ver com várias pessoas do tempo a que o livro se refere, muitas das quais estão vivas e se reconhecem, se sentem retratadas, na história do romance.

NN - A guerra é sempre injusta?

IC - Num sentido totalmente idealista é sempre injusta. Mas nós vivemos no mundo dos homens e sabemos que a humanidade sempre viveu em conflito consigo mesma e travou guerras, umas mais sangrentas que outras. Neste sentido, puramente humano e realista, devemos relativizar o nosso juízo e dizer que há guerras justas e injustas. Por exemplo, uma guerra que vise travar o genocídio ou acabar com a escravidão, há-de ser sempre justa.

NN - Porquê só edita o segundo livro depois de cerca de 9 anos?

IC - Por razões meramente prosaicas, inerentes à nossa conjuntura: as dificuldades de edição.

NN - Acredita no feitiço?

IC - Não. Mas acredito que existem pessoas que acreditam no feitiço, cujas vidas são inteiramente condicionadas por essa crença. Por isso é minha convicção que os estudiosos da coisa social devem levar a sério essa realidade e estudá-la profundamente de forma a compreender por que razão tanta gente, em pleno século XXI, ainda é capaz de matar ou morrer por causa dessa crença. Enquanto escritor o fenómeno do feitiço interessa-me enquanto elemento que move e cria paixões nas pessoas, estrutura ou desestrutura relacionamentos e cria associações com o sonho, a fantasia.

NN - O que é mais fácil para ti, escrever um romance ou contos?

IC - Julgo que escrever um conto é muito mais difícil, por causa da alta intensidade e condensação narrativa que o género exige. Um romance escreve-se a si mesmo de modo tranquilo, exigindo do autor características praticamente extra-literárias, tais como auto-disciplina, auto-organização, perseverança e uma estratégia de criação clara e coerente.

NN - Pensa editar poesia?

IC - Não. Decididamente, apesar de ser um grande leitor de boa poesia, considero-me destituído de talento para escrever poemas.

NN - Como podem os jovens recuperar o hábito saudável da leitura?

IC - Ao invés de recuperar eu falaria em adquirir. Há que tornar a escola numa fábrica de leitores. Familiarizar a criança com o livro. Fazê-la descobrir que por detrás, ou no interior, do objecto material chamado livro há todo um mundo maravilhoso de conhecimento, histórias fantásticas de embalar, personagens de sonho, canções alegres. Fazê-la entender que o livro carrega toda uma vida virtual, praticamente toda a experiência humana. Que, a par da convivência social, a leitura é o grande pilar da existência.

NN - Que dizer da Língua Portuguesa? Como dominá-la, sendo este um aspecto sempre batido pelos escritores ao aconselharem os mais novos?

IC - É evidente que cada um faz o uso da língua de acordo com o meio social em que vive. Quem aspira a ser escritor na língua portuguesa, naturalmente deve fazer um esforço suplementar para dominar aquele que será o seu instrumento de arte ou de trabalho, que é a língua portuguesa. Esse domínio passa pelo conhecimento da língua tal como é falada nos meios frequentados pelo futuro escritor, mas também das suas normas gerais, aplicáveis em qualquer circunstância. Da tensão que se vai criar entre o domínio da língua no meio, as leituras das obras de outros escritores e as normas gerais vai resultar certamente a linguagem própria do escritor, em função do seu talento e criatividade.
NN - Acredita que o livro tende a desaparecer ante os desenvolvimentos no campo das tecnologias de informação?

IC - Tenho acompanhado com muita atenção as notícias sobre as tendências recentes, resultantes da emergência dos meios audiovisuais e, nomeadamente, do e-book. Sinceramente, salvo a minha ignorância na matéria, não me vejo a ler um dia um romance na tela de um computador. Sempre associei o prazer da leitura ao uso e usufruto do livro enquanto objecto material, que tem peso e volume e que se pode tactear, cheirar e até encher a margem das folhas com as nossas anotações. Chamem-me arcaico mas é assim que eu amo o livro.

NN - Que dizer da internet como fonte de divulgação de informação?

IC - O grande desafio é tornar a internet num instrumento a nosso serviço. É dominá-la ao ponto de estarmos dentro dela a passar imagens e valores a nosso respeito e do nosso mundo. Há que abandonar a noção passiva de que a net é apenas um local para ir buscar saberes. Os saberes nós também os temos e podemos e devemos partilhá-los através desse canal global.

NN - O que acha da iniciativa do Lev´Arte?

IC - O Levarte é um dos fenómenos culturais mais relevantes dos últimos anos. Sobretudo porque, até onde sei, não é de iniciativa estatal, não veio, digamos, assim de cima, mas emergiu da própria realidade cultural, por iniciativa de jovens que têm sede de associar-se, de juntar, recolher e aprimorar experiências. É uma espécie de renascer das tertúlias literárias em que, nos anos 80, medraram muitos dos actuais talentos da literatura angolana.

NN - Que mensagem deixa para todo aquele que se interessa pela arte, mais propriamente a arte literária?

IC - Que a literatura é uma coisa muito séria, que exige muita dedicação. Que queiram ser escritores a partir de uma necessidade íntima de auto-expressão, de auto-conhecimento ou de conhecimento do mundo por via da criação literária. Que não pensem que a literatura é um caminho fácil, um instrumento ou uma plataforma para mais rapidamente subir na escadaria social. Que pensem sobretudo em fazer obra e não nos ganhos que o autor dela possa obter.



Nas fotos:
Isaquiel Corí; Nguimba Ngola exibindo as obras do convidado; A plateia apreciou o evento vê-se a alegria; Alice Cruz, jornalista, e Wladimir Gonga, músico, de que estavam a tratar?; Mira Clok, a menina linda do protocolo e Kardo Bestilo, poeta e coordenador do Lev´Arte.  



17 março 2010

Dya Kasembe


O mês é mesmo delas.Vamos honra-las pelos seus feitos. Ela é feminista assumida, contadora de estórias incríveis, é a Dra. Amélia de Fátima Cardoso  ou melhor, Dya Kasembe. Nasceu em 1946 na localidade de Mumondo, município da Muxima, província do Bengo, fez os estudos primários e secundários no antigo colégio São José de Cluny.

Dya Kasembe publicou, "Angola 20 anos de guerra civil, uma mulher acusa" (1995), Femmes saceees, insoumises et "Rebelles" (1997), e "soigner en noir et blanc" (1999). Pelas Edições Cultures Croisees, as obras, ela publica "Tchiala L`enracinee" (2002), "Les bons tours de Capidon" (2004) . Publicou ainda, "As mulheres honradas e insubmissas de Angola" Nzila, 2005, "Amores da Sanzala" e "Cartas para maridos temerários" do qual transcreve-se abaixo uma delas.                         
Da Mariquinhas para o Zeca

(Zeca, 68 anos, general na reserva; Mariquinhas, 48 anos, ex-militar das FAPLA)

Zeca,

É mesmo verdade que eu bebo, e já bebia quando me conheceste, mas não bebo com o teu dinheiro. Isto não é motivo para bateres sempre na mesma tecla, que uma mulher não deve beber assim. Não sou a primeira nem a última, eu tenho razões para beber mas tu não tens razões para disparatar e bater, porque quando bebo até nem faço confusão. Danço, faço amor contigo, fico quente, e tu gostas não é? Sobretudo quando bebo champanhe fico com aqueles olhos que nem consegues resistir? Então amor, já me conheceste assim e serei sempre assim. Diga-se de passagem amor, que também não bebo por aí além. E também nem bebo todos os dias.

Eu fui militar das FAPLA, e só sei pegar numa metralhadora; eu só não te bato porque tenho medo de te matar assim como estás todo magrinho e até uma ventania poderia carregar, se te der um empurrão vais mesmo cair. Eu bebo, mas tu fumas, e não fumas tabaco, ou pensas que não sei. Nem eu nem tu temos filhos, entregámos a vida toda à revolução, então deixa-me em paz. Tu fumas e eu bebo, qual é o mal?

A tal pensão dos antigos combatentes, nem chega para eu afogar as minhas mágoas e ainda achas que gasto muito na bebida! Bebo sim senhor, e como sei que se te disser isto na cara vais me matar, digo-te por escrito porque ainda sei escrever. E se tu não bebes, então deverias arranjar outra mulher que não beba, porquê estás agarrado a mim? Então é porque me amas. Então amorzinho, bebo sim senhor, e não hei-de beber porquê? Sabes porque te escrevo amor? Para te dizer QUE BEBO, BEBI E BEBEREI.

Mas eu amo-te mesmo assim, e sei que tu me amas e muito mesmo. Não me compliques a vida Zeca, o tempo que nos resta vamos ficar em paz. Vivermos bem, comermos bem, termos um conforto. Para quem vamos guardar o dinheiro, não temos herdeiros, e também nem temos sobrinhos? Por isso, beber de vez em quando, quando temos dinheiro, não é mal para ninguém. Os vizinhos não têm queixas nossas.



Sempre tua, Mariquinhas.

(in Cartas para maridos temerários de Dya Kasembe, edição da Nzila)


Nas Fotos:
Dya Kasembe; Nguimba Ngola e a Dya Kasembe, "há lá uma carta para tí Nguimba"

Força Mulher

Conhecí-a numa quinta-feira. Ela ansiosa para viver momentos em que a palavra se torna rainha no palco do Kings Club com o Lev´Arte. Fiz o devido protocolo para acomoda-la. Daí em diante mantivemos um diálogo meio tímido no início. Ela é estudante do curso superior em Língua e Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto e professora de Língua Portuguesa no Colégio Juviyld em Luanda.

O interesse comum pela literatura uniu-nos imediatamente. Encontramo-nos pela segunda vez na União dos Escritores Angolanos aquando da Maka à Quarta-Feira sobre os Bakongos. Evaltina Mande, essa mulher que o futuro lhe guarda muitos sucessos, é uma professora empenhada e nunca quer deixar ficar mal seus alunos.

Ontem ela ligou-me no telemóvel e contou-me o seu dia laboral. A aula para aquele dia tinha como destaque o "Texto Lírico". Ela tinha de reproduzir cópias do material para aula, no entanto a avaria na fotocopiadora não lhe permite tal. O que fazer? Evaltina com o sentido apurado das mulheres, pensa na melhor alternativa para manter viva a aula. Eis que se lembra do livro de poesia Mátria que ela trazia na bolsa e então decidiu discutir com os alunos em volta do livro. Analisaram os   poemas  "Sanita Madalena", "Choro de Joaninha" e "Cuidado com o Bicho", que resultou na tentativa de descodificação dos mesmos.

Desse modo, Evaltina Bande, está  demosntrando que "a  escola deve ser um dos principais canais de veiculação das obras literárias, através de programas de leitura obrigatória". Sendo assim, neste mês que simbolicamente é dedicado às mulheres, eu rendo-a a minha singela homenagem. Força mulher.

O choro de Joaninha
O choro de Joaninha são lágrimas de sangue
Ela banha nas lágrimas do seu rosto por seis dias a fio
Suas lágrimas denunciam a tristeza da alma não fecundada
E jorram angústias e lamentos rubros no canal do seu rio
Quem a liberta deste ciclo que se repete 28 mil dias?

Ela soergue alegre em campos férteis
Anseia espasmos orgasmicos carregados do branco da vida
Ela anseia a simbiose com o divino na criação de um ser
Clama estridente com seus grandes e pequenos lábios
o amor que se afoga nas dibinzas da vida
e se esconde na camisa sensual e legal devido a SIDA

 
Chora chora chora Joaninha
Fofinha vistosa e formosa                                     mãe da vida

Chora chora chora Joaninha
lágrimas de sangue sedentas de afecto                          carinho
Vem de mansinho seu eterno amor                           Joãozinho
Navegam nas estrelas rítmicas do prazer e da responsabilidade
Cessa o choro de Joaninha que goteja alegria divinal
E o ciclo fecha-se por 9 mil meses

Vitória, 29/12/2006 11:23’.
 (in Mátria, Arte Viva 2009)
 
 
Nas fotos:
Evaltina Bande; John Bella, escitor e deputado com Evaltina no lançamento do Luís Fernando

15 março 2010

Mayamba Editora - ler é desvendar o mundo


Para Isaquiel Corí, os editores livreiros "têm a sua quota de responsabilidade na crise actual da literatura angolana. O livro é uma mercadoria como qualquer outra. É preciso publicitar o livro e o autor. Sobretudo o livro".  De modo que quando surgem no mercado do livro mais editores, anima os escritores.

É nesse sentido que é bem vinda a Mayamba Editora. A Mayamba é uma editora comercial generalista, eles publicam todo tipo de textos que lhe sejam submetidos, conforme as suas Colecções, desde que estes sejam aprovados pelo seu Conselho de Leitura. É uma iniciativa do jornalista Arlindo Isabel, anterior director da Editorial Nzila. "Um Ano de Vida" é o primeiro livro com que a editora apresenta-se no mercado, do escritor Luís Fernando.

Mayamba é o nome da avó materna de Arlindo Isabel, Mayamba-ma-Nfuka, uma homenagem merecida àquela que foi testa da sua família e da kanda, uma mulher extraordinária apesar de iletrada e exprimindo-se apenas em kikongo, ela compreendeu a importância da escola.

Na Mayamba Editora encontrarás as seguintes colecções:

1. Mayamba Nzadi, para textos de ficção narrativa.
2. Mayamba Omola-Umalehe, para livros infanto-juvenis.
3. Biblioteca da história, para textos de ensaio na área da História.
4. Biblioteca da Saúde, para textos científicos na área médica e afins.
5. Biblioteca da Agricultura, dedicada às ciências agrárias e áreas conexas.
6. Mayamba Direito, para obras científicas das áreas jurídicas.
7. Mayamba Kunyonga, para textos da área das ciências sociais.
8. Mayamba Economia, para textos da área das ciências económicas
9. Mayamba Bilingue, textos bilingues e
10.Mayamba Dicionários.

Sucessos para a nova editora e o seu director Arlindo Isabel.

11 março 2010

Um ano de vida


O escritor e jornalista Luís Fernando lançou mais uma obra “Um Ano de Vida”. Com 156 páginas, é Editado pela Mayamba Editora (a nova editora dirigida por Arlindo Isabel) e inclui crónicas que abrangem um ano de publicação , 14 de Novembro de 2008 e 13 de Novembro de 2009, no suplemento Vida, do Semanário. É a observação atenta do quotidiano angolano do consagrado escritor e jornalista.
O livro foi prefaciado por Jomo Fortunato, crítico literário e musical . Segundo ele, Luís Fernando recorda “...episódios, pessoas, situações e lugares, com o propósito que permaneceu sem mudar: trazer para a partilha, o humor que adocica a vida, mesmo que não o consiga algumas vezes... “ A “...estratégia narratológica de Luís Fernando, facilitada por uma hábil selecção dos factos narrados, poderá confundir o leitor menos atento, se conferir às crónicas um mero exercício textual que exalta, de forma simplista, o humor, o burlesco e o pitoresco”.

Tenho sido um fiel leitor deste escritor que nasceu em 1961, na província do Uíge, Tomessa, licenciado em Jornalismo pela Universidade de Havana, Cuba, que me cativa com seu estilo peculiar.

Como sempre, figuras da literatura angolana e demais artes não hesitaram em comparecer no lançamento que teve o Jango da União dos Escritores Angolanos como senário. Nessa hora vale conversar com estes “gurus” e beber deles a experiência.

Força Luís Fernando.


Nas fotos:
Luís fernando e Nguimba ngola; LF assinando o livro da Kanguimbo Ananás; Jomo Fortunato o prefaciador; Luís Kandjimbo, crítico literário, em conversa com Patrício Batsikama, filósofo de arte; NN e Fragata de Morais, escritor e político.

10 março 2010

Kilumba Afrikana


A caluanda, esta senhora bonita, é simplesmente a Helena de Almeida. Eu ví a revista Vida da semana passada que trazia a foto dela, ela bem aprumada e com a farda a impôr respeito. Não liguei nenhuma para a revista, “esta semana não compro O país, ou então depois” pensei.

Cada vez que deparava com um ardina, lá a senhora na capa da revista, eu virava o rosto de modo a não ser assediado pelos rapazes com olhares a indicar cansaço e fome e o sol a surrar-lhes as costas.

Na sexta-feira dia 5,  depois de ter apresentado a rubrica “Sugestões de Leitura” no programa “Tchilar” da TPA2, fui correndo à União dos Escritores Angolanos onde Luís Fernando lançava mais uma obra.

Meus olhos, qual câmera a filmar os momentos aprazíveis do evento, deparam-se com uma kilumba africana cujo o sorriso enfeitava as suas belas feições. Eu jurei que já tinha visto aquele rosto lindo. Onde? Aproximei-me, e tentando avivar minha memória perguntei-a:

- Já nos conhecemos? Teu rosto é muito familiar.



- Lê a revista.

Respondeu ela muito carinhosa enquanto indicava a revista vida sobre à mesa em que L.Fernando assinava autógrafos. Eis que reconhecí-a. Alegrei-me de a ver em carne e osso. Que mulher linda, exclamei.

Helena de Sousa Vaz de Almeida que perdeu seus país muito cedo, vendo-se na qualidade de pai e mãe dos seus irmãos, acreditou no sonho de ser mulher polícia. Ela é da temida Polícia de Intervenção Rápida, PIR, ou “ninjas”. Força mulher!

Quando fora das fardas, ela também exibe seus dotes artísticos “Quando posso, canto no Chá de Caxinde acompanhada pela Banda Maravilha e no Xavarotti, com a banda Tambarino. Faço uma “canjinha”. Interpreto música variada de actores brasileiros e angolanos”. Aprecia Luandino Vieira (gostaste de ler João Vêncio e seus amores?) e Luís Fernando (confesso que também gosto de ler L.F., lí Clandestinos no Paraíso em menos de 3 horas,). O gosto em comum, leitura, fez com que eu visse ao vivo esta mulher habituada a armas. Afinal ela nasceu no mesmo ano que eu.

Muitos sucessos mulher de “garra”.

Os poetas não vão para o céu

Mulheres, mulheres, mulheres. O que seria do homem sem mulher? Mulheres de grandes feitos que marcaram a história merecem sempre nosso carinho. Umas vão mais cedo mas a obra fica e marca-nos, Alda Graça foi-se na terça-feira, mas na verdade ela está entre nós.

José Luís Mendonça homenageia a Alda Graça do Espírito Santo, "nascida a 30 de Abril de 1926 na cidade de São Tomé, combatente da luta pela independência nacional, instruiu a nova geração pós independência, e pelas suas mãos de poetisa nasceram versos e rimas que sustentam o orgulho da República Democrática fundada em 1975. Uma referência nacional, que rejeita vanglórias e com humildade batalhou pela conquista do progresso do país soberano.

Criou a primeira geração de jornalistas do país, e como poetisa imortalizou o massacre de 1953 no poema TRINDADE, que desde a independência nacional é recitado todos os anos e de forma arrepiante por uma voz feminina.

O poder poético de Alda graça está presente todos os dias, e em todos os momentos de São Tomé e Príncipe. O grito pela independência nacional, a unidade do povo no coro da esperança, é reflectido na letra do hino nacional de que ela é autora". (http://amulhereapoesia.blogspot.com)


Ilha nua 


Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô1
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...
A.E.S. in "É nosso o solo sagrado da terra"

 

Os poetas não vão para o céu


na morte de Alda do Espirito Santo

Os poetas não vão para o céu
eles já estão no céu
mortos para o plágio desta vida
como se ninguém mais soubesse


chamar as coisas pelos nomes
que sem querer os transformam
no prumo das portas ouvindo
cantigas de roda ao luar.


Os poetas não vão para o céu
eles já estão no céu
com seus olhos cegos abrindo
o novelo das palavras por dizer.


Por isso os poetas não morrem
se transformam simplesmente
no esplendor desse dia
que cresce entre as linhas da mão.


Montados no pégaso do universo
aparecem às vezes no umbral da via láctea
e a sua mão toca a dimensão do nada
para amealhar os cristais do movimento.


José Luis Mendonça, in 'Um Voo de Borboleta no Mecanismo Inerte do Tempo' (INALD, 2005)

Quinta-Feira Cultural

Se Sexta-Feira é considerado o dia do homem, então Quinta-Feira tornou-se o dia da Arte e Cultura nos mais diversos centros culturais da nossa urbe. O Espaço Verde Caxinde tem sido palco de lançamentos consecutivos de diversas obras literárias e acadêmicas.


No mês que a elas é dedicado, Maria da Encarnação Pimenta, nascida no Kwanza Norte, com mestrado em Psicologia Industrial e Clínica pela Universidade de Lagos, curso superior de Ciências de Educação (no Isced), estreia-se no mercado do livro com dois volumes, resultado de pesquisa de cerca de seis anos, onde a estimada psicóloga analisa assuntos vários sobre questões ligadas ao alcoolismo, a corrupção dos docentes, atitude negligente dos pais, delinquência urbana e perturbações psicológicas que podem afectar o delinquente.


O I volume, "Eventuais causas e consequências da delinquência em Angola", com uma abordagem psico-pedagógica dos temas, mostra os números e locais onde as pessoas mais maltratam seus fígados alcoolizando-se, e como os país, professores, responsáveis sociais podem identificar sinais do surgimento deste mal.


No II volume, "Quem produz os delinquentes", a psícologa comunica-se de um modo mais ficcionado mas com um realismo marcante e doloroso, que mostra a sua visão de uma situação que pode levar crianças e jovens a uma vida de delinquência, bem como alertar a sociedade para o cuidado a ter no relacionamento com a geração mais nova que observa, acompanha os actos dos adultos.


Reginaldo Silva ao apresentar o II volume disse que, Encarnação Pimenta “... de forma algo temerária arrisca o género “short story”, que a crítica mais especializada poderá não lhe ser muito favorável, nesta sua primeira incursão pelo texto literário propriamente dito.

Mas a ficção serve exactamente para isso, para deixarmos a nossa imaginação correr e discorrer livremente construindo com palavras escritas o que pensamos ser a melhor abordagem para retratarmos e transmitirmos determinada situação.


Ficcionadas, as suas “short stories”, onde qualquer coincidência com a realidade é a mais pura verdade, levam-nos de facto ao mundo real que vivemos em Angola pela mão de uma autora irrequieta e impulsiva que não esconde a sua irritação diante das injustiças sociais, o racismo doméstico envolvendo pretos e mulatos, o obscurantismo, a violência doméstica, a criminalidade e por aí adiante, num verdadeiro e interminável cortejo de horrores para todos os gostos e feitios, que falam bem mal do que país real que estamos com ele.” (in http://morrodamaianga.blogspot.com/).

Ilustres figuras da nossa sociedade fizeram-se presente honrando a psícologa e, para alegria do anfitrião que viu a casa literalmente cheia. E como não pode deixar de ser, vem sempre os momentos para trocar impressões com gente com quem falar nas mais variadas áres do saber.







No Kings,


Na Vila Alice, é já tradicional a rubrica Mesa Bicuda, uma coordenação do Movimento Lev´Arte que ofereçe a plateia maravilhada, poesia ao vivo.


Sob apresentação da Lueji Dharma, a mesa recebeu o apresentador do programa Zimabando da TV Zimbo, Armindo Laureano. O talk show focalizou-se no panorama cultural e do entertainment ao nível televisivo. A plateia vibrou pois Laureano no fim também exibiu os seus dotes literários com a declamação de dois poemas, um dos quais relembrando o personagem Dimas da novela brasileira “Pedra sobre Pedra”.

Assim viví a Quinta-Feira da cultura e Arte. Esta semana teremos mais no Kings desta feita a presença do jornalista e escritor Isaquiel Corí.