06 julho 2009

A Mátria de Nguimba Ngola


Segundo Luís Adriano Carlos, na Universidade do Porto, a Mátria é uma ideia que seduz espíritos insatisfeitos com as perversões morais e políticas da ideia de Pátria. Cita Miguel de Unamuno, o espanhol que fundou o matriotismo para designar um sentimento alternativo que desse resposta ao fracasso do sentimento patriótico. Para Unamuno, “...o amor de mãe é o mais racional dos amores e o mais inteligente”.

Nguimba Ngola, o poeta que lançará o seu primeiro poemário no dia 11 de Julho, “Mátria” em que mescla a ideia de terra-mãe (motherland) com a idéia de concepção, de “Mulher Mãe da Vida” e diferente da ideia do Padre António Vieira que criou o vócabulo mátria, muito antes de Unamuno, no seu Sermão de Nossa Senhora da Conceição, pregado na Bahia em 1639, e da Mátria de Natália Correia.

A Mátria de Nguimba Ngola, é a mátria angolana, africana, dividida em cinco sublimes momentos em que nos convoca ao diálogo ou tão somente à reflexão e faze-lo no “regaço da Mátria”, que certamente é aconchegante.Desde o momento em que há “desassossego no lar” a perda dos valores familiares, muitas mães lamentam diariamente na nossa mátria angolana bem como a própria terra-mãe que é acometida de vários males sociais. São várias as consequências do “malefício do vício que mortifica a paz e a harmonia” e “despedaçando o fel da violência/que esfumaça solta no mar” e a delinquência juvenil marcada pelo consumo de drogas. Eis a constatação do poeta “Luzes cintilantes que iluminam o olhar surdo mudo/do cambonga que navega errante no mar concupiscente/da liamba e libanga e outras bangas” consequentemente vem a imoralidade sexual pois “as uvas verdes perdem o hímen/tão cedo/sem medo” resultando em “Erros que matam” como escreve Antónia Sónia Gomes no seu romance (2007).

Nguimba, no seu fazer poético que certamente não se trata já de um João Maimona ou José Luís Mendonça, nem um Rimbaud ou Baudelaire, pois ainda terá que galgar muitas picadas no labor das palavras, continua nos convocando no segundo momento a adentrarmo-nos na sua visão de mundo para quiça nos rever nos seus versos, pois ele, “absorto nos versos suculentos da reflexão/tacteio no Regaço da MÁTRIA/com sentimentos fracassados/com ternos conselhos/com dúlcidos sonhos/ansiando amor e paz/e Metáforas de Esperança.”. Ele escreve que “Na escuridão da alma desabrocham fantasmas/que exalam mistérios enfronhados na carne/e mortificam o deleite atingindo o cerne/das questões filosóficas causando traumas”. Estes traumas que afectam milhares dos filhos da terra-mãe angolana e os famintos em Darfur.

O poeta no entanto, não perde a esperança pois “O fogo dos meus olhos alegra-se com o instante utópico/banhando-os com lágrimas de esperança/pois amanhã haverá bonança nas entranhas da MÃE”. Ele nos convida a sermos “...empreendedor do amanhã/arquitecto do sonho do camboga do Unguanhã/transformando Angola no canteiro de amor.” Sendo Ungunhã, um bairro perdido no vasto musseque do Sambizanga, a metáfora dos bairros dos sofredores .

Ngola, como dissemos acima, não se considera já o tal poeta transcendental, há de sê-lo, pois notamos em diálogo com sua mãe, terra-mãe, a sua mátria, que “Quero ser poeta oh minha mãe/para continuar a amar a vida/porque o poeta oh minha mãe/é um ser divino pactuando com o Eterno/na criação do belo”. Ele não está preocupado com “os vigias” que “mastigam a semântica”, reconhece que o labor poético é “Suor da caneta” no entanto não deixa de ser “Olhar subjectivo”. Ele escreve:“É um paradoxo/a cor da poesia/pintando na tela das correntes/quentes do dogmatismo coxo//Eu solto humildes versos/a magia das palavras/que brindam as pétalas da mente/com aprazíveis sinfonias//Nego-me aos caprichos da tradição/sigo livre mente nos trilhos da criação/e costuro poemas de paz amor e consolo/na marginal da vida.

Mátria traz também o lado mais lírico da alma do poeta, no quarto momento veremos que :“desabrocha nas pétalas do coraçãosentimentos desejos puros e turvos pensamentosa musa colorida dos meus sonhos me eleva nospíncaros do (des) prazere também reina a Amizade no Regaço da MÁTRIA”.O poeta dedica belos versos a cerca de sete amigos e a sua amada. É aqui onde a mulher, é colocada no pedestal mais alto. O amor e carinho flui ternamente apesar dos (des)prazer, o dilema do “dedo doirado” que “pula cercas longínquas.../vive o dilema do amor/e sucumbe na libertinagem da cidade com muita dor”. Ainda assim para o poeta o sentimento expresso nos versos abaixo continua verdadeiro;


“Oh MULHER alma divinal

inspiração do Eu Poético

Te amo e sempre te amarei

até que não haja mais POESIA”

No quinto e último momento Mátria toca ainda mais nas questões sociais, o problema das desigualidades, a fome, a miséria resultantes da pobreza, as dificuldades de transporte e, o poeta escreve que é neste momento que “meu sangue verseja o quotidiano duro/de sol a sol caminha a dor/mas na utopia do amanhã brilha a/ESPERANÇA no Regaço da MÁTRIA”.E a esperança, esta nunca morre conforme podemos notar a fé do poeta nos versos abaixo;


“viajo então na utopia do amanhã

vislumbro pastos relvosos no Unguanhã

e as cubatas a fumegarem PAZ com sabor a

[lasanha”

Eis a mátria de Nguimba Ngola, a mátria angolana que com um sentido artístico nos convoca a recriar um mundo novo, um mundo de PAZ e AMOR.

Sucessos é que desejamos a este jovem poeta que doravante começa a trilhar “no escuro dos versos” em que “a escuridão poética é profunda” laborando a “hermeneutica das palavras”.
Ndembo KizeleTalatona,

aos 30/06/2009, 16:06´

É já neste Sábado!


23 maio 2009

Inovação linguística em “Uma Maria João e os Knunca”



É com prazer que leio o novo título de Luís Rosa Lopes, “Uma Maria João e os Knunca” editado pela União dos Escritores Angolanos, edição de 2008. O acto de lançamento aconteceu na sede da UEA a 14 de Março do corrente ano. Luís Rosa Lopes é heterónimo de Luís Filipe de Castro Louro da Rosa Lopes que nasceu em Abril dia 14, considerado mês da juventude, no ano de 1954. Publicou “A Gota D´Água em 1984 e “Mu Ukulu, Ki tuexilé ku mayombola” em 2005. Logo traz já os dedos calejados na senda da narrativa angolana.


A análise a que nos prestamos neste espaço, não constitui já uma tarefa com todo o rigor científico no âmbito da crítica literária, antes ser uma modesta apreciação fruto das nossas notas de leitura atendendo que o texto literário institui uma comunicação sui generis, onde emissor e destinatário não se encontram face a face não possibilitando o feedback daí que, o leitor ou destinatário tem o poder de controlar, aprofundar a compreensão da mensagem, interropendo a leitura para meditar, relendo. (Cesare Segre 1999).


Luís Rosa Lopes nos apresenta nove contos, no seu estilo muitas vezes humorístico, o quotidiano duro dos personagens que vão a luta para o alcance de melhores condições de vida bem como “eternos debates entre a tradição e as adapatações a novas realidades” e uma visão futurística da cidade de Luanda sendo um apelo a quem de direito e reflexão dos citadinos amantes da “cidade-berço, a cidade-vivência, a cidade-prazer, a cidade-drama, a cidade-farra, a cidade vida e morte...”.


A característica marcante nos textos narrativos em “uma Maria João e os knunca” é a inovação linguística, senão vejamos a invenção da palavra knunca (junção do pronome que com o advérbio nunca) bem como aviãojado, que subentende os que nunca tinham viajado de avião.


A língua, sendo um meio de comunicação de uma sociedade, deve obedecer a um certo padrão para que os utilizadores dela possam entender-se apesar da possibilidade de variações linguísticas. Nós angolanos adoptamos a língua do colonizador, o Português, como sendo “língua oficial”. O regime colonial dos portugueses, mediante uma política assimilante com intenções de nos inculcar os hábitos e valores portugueses, permitiu a que uma boa parte dos angolanos se comunicassem nesta língua.


Entrementes, A língua portuguesa em Angola encontra-se em constante transformação. As interferências linguísticas resultantes do seu contacto com as línguas nacionais, tradicionais, a criação de novas palavras e expressões inventadas pela criatividade popular, bem como certos afastamentos à norma padrão de Portugal, imprimem-lhe uma nova força, vinculando-o e adaptando-o cada vez mais à realidade angolana. Podemos notar esta força bem patente na literatura, que é mesclada com as línguas locais tais como o kimbundu, umbundu e o kikongo para citar apenas estas. Luís Rosa Lopes não se alheia a este fenómeno, transcrevendo a fonética dos personagens tal e qual eles se expressam a exemplo dos kotas Uanhenga Xitu e Luandino Vieira. Nota-se o diálogo abaixo:


“ – Acarmam só, muzangálas! Isso vai dar pra todos... Não adianta só nos porradarmos à toa, né?


- Yá! Ta m´bora bom. Vamos se dividir sem n´vunda.”


Os sociolectos, como sendo série de variedades linguísticas relativas aos ambientes sociais a que pertencem os falantes e às condições em que se realiza a enunciação, não são rígidos, dada a circulação e os contactos entre os estratos sociais. Logo a escolha estilística reduz-se às opções oferecidadas pelo sociolecto e o comportamento do escritor que actua em princípio, dentro dos limites do registo literário. Ocorre que é, muitas vezes permitido, fazer uso de todas a variedades da língua bem como inovações do tipo que lemos em “Uma Maria João e os knunca”. (C.Segre 1999).
Que viva a literatura angolana e logicamente a nossa cultura.

Mulemba waxa Ngola, ao 09 de Abril de 2009. 01:25´

12 outubro 2008

A juventude e sua expressão cultural


Falar de cultura é falar do desenvolvimento intelectual e ou ainda do conjunto de padrões de comportamentos das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais que caracterizam uma sociedade.

Vamos tecer algumas considerações sobre a juventude luandense , que representa a angolana, o seu interesse na cultura e o relacionamento com as instituições culturais. Ela está ávida de se cultivar ou procurar justificar-se ante aos obstáculos e às carências sociais?

A juventude é uma fase muito conturbada, na qual ocorrem os grandes conflitos como por exemplo o desenvolvimento do potencial criativo em relação aos obstáculos que o sistema lhe impõe, quer no sentido material, quer moral. Esses conflitos interferem nas escolhas e na definição da identidade individual e colectiva do jovem que se vê muito pressionado na tomada das decisões que ganham um rosto de angústia ou crise. Sabendo que ele faz parte dos maiores portadores da expressão cultural, há uma necessidade de o acompanhar e apostar na sua formação intelectual e crítica.

A dimensão da cultura e do lazer tem muita importância na sua vida. Hoje, observamos o grande interesse da juventude na fruição de diferentes formas de lazer e de produtos da cultura de massas. Porém, acontece que as actividades de diversão estão cada vez mais acentuadas. Há pouca preocupacão da juventude se desenvolver nas áreas do saber, pois está mais preocupada com a moda, as farras, as grandes raves, álcool e com sexo. A cultura do tchilo, da desbunda, tchilar sem limites é a tónica do momento aliado ao consumismo frenético, escravizados pelos meios de comunicação em massas (principalmente as novelas na televisão) e novos produtos que a tecnologia oferece.

Nas expressões culturais da juventude, a música nos mais variados rítmos (rap, kuduro, kizomba e etc.) tem maior impacto, o mesmo já não se diz do cinema que não tem tido grande oferta, apesar do renascimento apático do cinema amador que constituem a cultura industrializada. Quanto ao usufruto de formas de cultura erudita ou não industrializada tal como a visita aos museus, o teatro, apreciar exposições de fotografias e de artes plásticas ou escultura, a preocupação com a literatura acadêmica e de ficção nota-se certo desprezo o que está a causar miséria cultural no seio da juventude. Estes apontam, por sua vez, a falta de incentivos e referências morais, as carências financeiras e outras como causa dessa apatia intelectual.

A cultura e a relação com as instituições culturais deviam ser encarados com grande valor para a definição do modo de ser jovem, pois nesta fase o jovem tem o vigor e interesses acentuados. No entanto, vemos a queda da juventude na anticultura que os marginaliza. Muitos dessa fase dão pouca importância ao aumento da cultura, o que atrasa o seu desenvolvimento acadêmico e pessoal.

Há necessidade de se pesquisar mais e participar de actividades culturais que surgem como os eventos culturais do grupo Lev´Arte, com sessões de poesia no Instituto Camões, o Artes ao Vivo no Espaço Bahia, a tarde dos poetas da Brigada Jovem de Literatura e outros eventos que são anunciados nas páginas dos jornais e revistas da cidade.
É chamada a intervenção dos pais, e do Estado no resgate dos hábitos de leitura e escrita pelo que deverá haver mais bibliotecas e livrarias, a relização regular de feiras de livros, a realização de concursos de leitura e escrita, a criação de políticas que façam o livro chegar aos consumidores a baixo preço. Assim, conseguir-se-á reduzir o índice de analfabetismo cultural entre os jovens que são uma força motriz para o engrandecimento do País belo e rico em cultura.Mais cultura, mais identidade, mais vida.

Nguimba Ngola in Folha 8, edição de 11 de Outubro.

07 outubro 2008

O prefácio como discurso introdutório e autónomo da obra literária


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“Cada texto pessoal é fruto de uma época própria, de condições únicas e de diversas origens que respeitam ao seu contexto de produção. Para mim, escrever sobre uma obra ou até um só texto poético é tarefa árdua e espinhosa” Ana de Sá in prefácio da obra Caminhos da Mente de T. Nankhova Trajanno.



É notável em obras literárias da nossa praça e não só, o uso do prefácio. E ter um livro prefaciado por escritores ou ensaistas renomados tem sido uma correria entre os poetas e escritores jovens e adultos no sentido da maturação literária. Deve-se salientar que esta busca ou pedidos por prefácios não tem sido sempre coroado de éxitos e, quando mais se tratar de escritores ou poetas jovens e geralmente desconhecidos o que muitas vezes cria constrangimentos recíprocos.

Um confrade nas lides literárias perguntou-me, “Nguimba quem vai prefaciar tua primeira obra?” e eu respondí-lhe com outra pergunta, “qual é a utilidade de um prefácio na obra literária?” O meu amigo redundando em argumentos descabidos terminou dizendo que assim a obra tem mais valor, tem mais peso. Afinal o que é o prefácio e quais são as suas funções no texto? É o prefácio um texto integrante da obra ou é autónomo a ele?

Quero neste pequeno texto abordar estas questões bem como o problema do autor do prefácio socorrendo-me de dados de leituras do estudo sobre a Teoria e Prática dos Prefácios do Professor de Literatura Luso-Brasileira e Comparada da Universidade Federal de Pernambuco-Brasil, César Giusti.

O prefácio (do latim, praefatio) designa aquilo que foi feito para introduzir algo que vem depois de si. O prefácio tem relação sinonímica com o prólogo, ambas as palavras desiganam a função introdutória. Para além da simples tarefa de introduzir uma obra literária, o prefácio envolve outras várias finalidades. O Professor César sistematizando as idéias de Aristóteles cita cinco funções do prefácio.

A função demonstrativa, que demonstra o assunto, indicando-o de modo sintético objectivando os propósitos da obra e do autor e Aristóteles considera essa função indispensável. Os autores explicam assim a razão de ser da obra, seu significado e até mesmo sua origem. Ela não se pretende crítica, é mais justificativa. Os autores que se utilizam de prefácios acham-na como o ponto de interesse geral. Esta finalidade é um exercício de introdução, é como uma carta de apresentação. Em seguida temos a função sinsestésica que procura alcançar a docilidade do leitor ou obter a sua benevolência e, o autor socorre-se de truques de convecimento do leitor. A função pertinente é que gera a autonomia do prefácio, embora sendo parte de um todo da obra, ele é autónomo, é um discurso paralelo, tecendo considerações gratuitas. A obra portanto independe do prefácio que se torna matéria inútil ou gratuita. Temos depois a função topológica e a função didascálica, que apresenta-se já como uma peça de crítica literária. Todas as funções apresentadas podem atuar ao mesmo tempo no texto ou de forma isolada.

Quanto a autoria do prefácio, este é feito pelo próprio autor da obra ou pode ser alguém distinto do escritor a quem pertence a obra. Para o segundo caso, interessa aos estudos críticos. Normalmente este autor distinto do autor da obra é uma pessoa que conhecemos e por motivos de amizade, identidade de princípios, de real ou de suposto prestígio intelectual ele se debruça sobre a obra enaltecendo-a com um sentimento de modéstia como se pode notar o parágrafo final do prefácio de Inocência Mata ao livro da escritora Chó do Guri, Na boca árida da Kyanda, “ ...Chó do Guri cresce na sua escrita, embora ainda se note um incipiente labor da palavra...”

O professor César prossegue dizendo no seu estudo que a existência de prefácios do próprio autor demonstra incoerência ou mesmo o reconhecimento da ineficácia da obra pois o autor tem o território do texto para se expressar. Então de que adianta o prefácio, sabendo que ele não é parte estrutural da obra literária? Muito bem, pode se calhar justificar para o jovem escritor tal como o meu confrade que escuso citar o nome, dar peso ao texto. Mas vai ter de se “cabombiar” aos ilustres escritores e críticos da nossa praça entre os quais Jorge Macedo, Akiz Neto, Jomo Fortunato, Trajanno Nankhova Trajanno, Abreu Paxe e entre outros. Se assim não desejar, saiba então que a obra literária faz sentido sem precisar de prefácio que mesmo lhe dando significação, será sempre gratuito. O professor César ainda acrescenta dizendo que é inútil e as vezes servindo apenas como simples ornato tradicional do texto.

Nguimba Ngola,
Mulema waxa Ngola, aos 24 de Agosto de 2008. 23.41´
nguimbangola@gmail.com

28 julho 2008

Lev´Arte - Dois anos de poesia











“Diz o ditado popular que “palavras leva-as o vento”. Para o movimento Levarte, o provérbio não se aplica, já que ali as palavras são gravadas a ferro e fogo na alma dos integrantes. A paixão que os move leva-os a seguir em frente e a desbravar caminhos, ramificando-se por esta Luanda fora em busca de pessoas que contrariam o famoso ditado” (António Onofre in revista austral, Nov/Dez 2007).

O Lev´Arte nasceu a 20 de Julho de 2006 e é constituído por jovens amantes da literatura. Um dos maiores objetivos do movimento é o resgate dos hábitos de leitura bem como a promoção da poesia. Desse modo o movimento faz o seu papel na consciencialização da juventude e não só, nos caminhos da humanização.

Luciano Zajdsznajder (1994) afirma que o homem pós-moderno se distancia de si mesmo, à medida que o mundo a sua volta se torna mais turbulento e sua vida mais fragmentada e, Heidegger (1973), filosofo alemão, acrescenta que o homem na sua busca sem freios de auto asseguramento, diminui toda a profundidade de seu pensamento e foge da vitalidade criativa. Assim o Lev´Arte com seus eventos poéticos tenta conduzir a juventude a si mesmo, resgatando-o da devassidão e do vazio devolvendo-lhe a sua liberdade criativa.

A poesia tem o seu zênite na declamação. É preciso que haja mestres nessa arte, pois assim os poemas ganham vida. O Lev´arte tem permitido o aparecimento de jovens com talento na arte da declamação. A par da poesia recitada, está a música e o teatro, outras expressões artísticas que preenchem os eventos levarteanos que emocionam todos aqueles que afluem a estes eventos.

Ao longo dos dois anos de poesia e declamação, o movimento levarteano levou a arte para diversas instituições de ensino bem como palestras com os estudantes para atingirem seu objetivo principal. Uma caminhada marcante do grupo foi a deslocação no ano passado ao Hospital Psiquiátrico onde conviveram com os pacientes e o corpo clínico. Foi um dia memorável, segundo afirmou Kardo Bestilo, um dos membros executivo do movimento.

Os membros do movimento Lev´Arte sentem-se regozijados com os resultados alcançados ao longo destes dois anos em que nem tudo foi um paraíso de sucessos. Tiveram também momentos de grandes desafios e provações que quase os levou a parar com os eventos. No entanto eles sobreviveram tal como a criança que marca seus primeiros passos está sujeito a quedas e depois tem os pés firmes para continuar a marcha.

É de louvar os esforços deste movimento que tem contribuído dessa forma para o crescimento da nossa cultura. Parabéns levarteanos por mais um ano de existência e que a vossa coragem e determinação sempre vos acompanhem ao fazerem do impossível o possível.


Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, aos 21/07/2008 23:55´.

04 julho 2008

Arte africana e seu futuro





“É o homem, e não a riqueza material, a esperança da nossa áfrica... e a conquista da independência do pensamento africano exige dos seus filhos uma luta sem tréguas” (Jorge Macedo, 2006)


A arte, (termo do latim ars, que significa técnica ou habilidade) tem relação com as manifestações de ordem estética por parte dos humanos. É um fenómeno cultural, que tem haver com o pensamento, com a percepção, e com a capacidade de inovação e criação.Nós africanos, vimos lutando pela independência, que não se limita a uma luta de afirmação política mas também pela libertação do seu povo contra a dominação e opressão. Esta liberdade tem permitido ao homem africano o seu desenvolvimento físico e mental e por sua vez o desenvolvimento da sua própria cultura.

“África, mãe do cordão umbilical” já entrou com sucesso no mundo moderno das artes. A produção bem como a avaliação artística na África, já exige independência. Os artistas africanos não precisam ser simples seguidores daquilo que se faz no ocidente, já podem produzir arte profundamente africana e merecer os devidos aplausos no mundo. Para tal, eles exprimem a sua visão atravêz de um produto original com profundo significado social para o indivíduo e para a comunidade ou sociedade onde ele interage.

Felizmente hoje, a África já se expõe ao mundo com sua arte, já se faz presente em exposições internacionais ou bienais e com muito sucesso merecendo a admiração e o devido respeito o que eleva esta arte africana nos píncaros do modernismo artístico. No entanto, há ainda muito o que se fazer tal como a criação de instituições modernas que capacitam os artistas com recursos necessários para levarem a cabo seus trabalhos bem como capacitar aqueles que estudam esta mesma arte. É chamado também aqui os empresários da arte, o mecenato tem que funcionar.

Na literatura, a África tem alcançado grandes realizações, bem como no cinema e música. O mesmo se pode dizer das artes vicuais embora ainda faltem instrumentos críticos para reclamar e celebrar tais realizações. Notamos por exemplo em Angola, o Etonismo, que pode muito bem ser considerado uma corrente artística mas tem sido contestada pela “miopia” de certos críticos que não valorizam o labor artístico africano.

Os africanos estão na busca de uma cultura, de modo que seus agentes culturais sempre lutarão para valorizar esta rica cultura à exemplo de Wole Soyinka, escritor nigeriano que escreve diferente apesar de usar o idioma do colonizador e da educação formal no estilo europeu. Nomes ainda sonantes na arte africana têm merecido reconhecimento mundial tais como; Aina Onabulu da Nigéria, Ernest Mancoba, sul africano que pintou o quadro composition em 1940 e seus compatriotas no campo literário, John Maxwell Coetzee e Nadine gordimer, cito ainda Chinua Achebe, Ben Okri, Kossi Effoui, Chenjerai Hove, a marfinense Véronique Tadjo, e porque não o nosso Pepetela que no seu “O quase fim do mundo” destaca muito a África. São portanto, uma lista promissora promissora de intelectuais africanos integrantes da modernidade artística que também se quer universal sem deixar de ser acima de tudo africano.

“ Oh minha áfrica
Anelo teus doces beijos no dúlcido
Amplexo da unidade fraternal
Ergue-te entesada e plante tua raiz no coração do mundo”

(Extractos do poema África, mãe do cordão umbilical de Nguimba Ngola, in Vida Cultural 03/06/2007).


Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, 20 de Maio de 2008 23:15´

12 dezembro 2007

A zungueira e a “poética” da sobrevivência






“A preocupação social manifesta-se atravês do papel do escritor,
também na senda daqueles escritores “classicos”angolanos que tematizavam
as injustiças e os quotidianos deLuanda na época colonial”
Ana Lúcia de Sá


Aristóteles defendendo a literatura contra a condenação de Platão, mostrou que o conceito de mímese, formaliza uma relação com a realidade. A concepção gnosiológica da arte faz produzir o prazer pelo reconhecimento e pela compreenção da realidade representada (Cesare Sagre 1999).
Esta imitação remete-nos na dura realidade da questão do género, sendo o feminino o que mais sofre. Assim é que nossos poetas sempre pretenderam pintar o drama social da mulher. Tem sido uma tomada de consciência da questão da mulher, mais propriamente da mulher zungueira (a vendedora ambulante que mercadeja nas ruas, sendo zungueira (o), uma deturpação do termo kimbundu nzunga, resultado da forma verbal kuzunga, circular, rodear). Hoje notamos esta zunga a pintar poesia realista, uma “poetica”de sobrevivência nas ruas de Luanda.
Agostinho Neto, poeta classico que estimo, já escrevera o drama da mulher zungueira, outrora quitandeira:
(...) Muito Sol/ e a quitandeira à sombra/ da mulemba. // (...) compra laranja doce/ compra também o amargo/ desta tortura/ da vida sem vida. // (...) Até mesmo a minha dor/ e a poesia dos meus seios nus/ eu entreguei-as aos poetas. (in Sagrada Esperança)
E os poetas recebem esta poesia denunciando o sofrimento, o “lamento da zungueira”, tal como lemos em “A boca árida da Kyanda” de Chó do Guri, mulher poeta e sobretudo mãe.
Porquê me fazes destino/ triste e sem abrigo/ (...) ngana nzambi tatê/ venho de longe/ da escuridão/ de uma longa estrada/ sem pão// Por andar sem gozo/ inama yami wadifangana mbonzo.
É de facto um sofrer que incha os pés parecendo batatas pois ela “vem de recantos recônditos da cidade cruel”. E José Luís Mendonça é outro poeta que não se alheiou a esta “poetica” de sobrevivência da mulher zungueira que procura o sustento para seus rebentos. Ele desenhou os versos abaixo:
“Prenhes candeeiros a petróleo/ à mesa do dia as quitandeiras ardem/ mestruação de pássaro entre dentes/ é chibata é chibata fresquinha olha/ carapau minha senhora eis aqui/ um país que emerge nos bolsos de pedra/ o escalpe luminoso dos navios. (in Respirar as mãos na pedra)
O drama social da mulher zungueira é enorme e pinta poesia melancólica para que os seus não padeçam e, Nguimba Ngola (autor destas linhas), canta para esta “Amiga da zunga” que se levanta quando os “raios do sol ainda a espreguiçarem-se”. Mesmo com os “lábios ressequidos pela fome que lhe assalta o estômago” ela corre “cansada/suada/a descer a calçada” ante o olhar humilhante daqueles que lhe devem protecção.
“Volta a cubata com os parcos proventos do dia/ faz o comer para o insensível dono que a quer “comer”de qualquer jeito” e sente na alma e no espírito a violência do marido e até mesmo a morte ingrata como a realidade hoje testemunha permitindo a mímese ao poeta.
“Fortaleça-te Deus oh amiga da zunga” e desejo-te um Feliz Natal e Ano Novo Próspero. (Leia-se o poema “Amiga da zunga” no livro Controverso de Kardo Bestilo).


Nguimba Ngola
Mulemba waxa Ngola, aos 12/12/2007 00:57’
nguimbangola@gmail.com

A dimensão cultural de Jorge Macedo




Uma singela homenagem ao poeta, ficcionista e ensaísta inquestionável


“...Nós os angolanos temos razões maiores para
nos orgulharmos da dimensão africana da nossa
cultura, que se tornou universal...”(Macedo 2006)


No longíquo ano de 1941, nascia na terra da palanca negra e gigante, Malange, em 16 de Outubro, um menino que veio a tornar-se num homem de grande dimensão cultural!
Segundo H.G. Wells, a grandeza de um homem pode ser medida por ‘aquilo que ele deixa para crescer’. A vida e obra de Macedo confere-lhe uma grandeza no panorama cultural angolano e, certamente, seus ensinamentos, conceitos e filosofia tem marcado um tempo.
O autor de Itetembu (1966) teve como primeira actividade profissional de regente escolar, e dai passou para a carreira administrativa. Homem de multifacética formação, fez os estudos primários e secundários na sua terra natal, frequentou os seminários maior e menor de Luanda e Malange, onde estudou filosofia que de certa forma lhe proporcionou um horizonte amplo no seu pensamento cultural. J.Macedo interessou-se pela música, e estudou-a na Academia de Música de Luanda. É também diplomado em Etnomusicologia na Universidade de Kinshasa (UNAZA).
Durante o período colonial, o nosso homenageado, foi mestre de coros, exerceu vários cargos de docência. Ao longo dos anos, exerceu também vários cargos oficiais e muitos destes na área cultural, nomeadamente director da Direcção Nacional de Arte, Director Nacional da Escola de Música, do Instituto de Línguas Nacionais, Administrador do Centro Internacional de Civilizações Bantu e foi Jornalista em Lisboa onde dirigiu a Revista Afro-Letras da Casa de Angola em Portugal.
J. Macedo estreou-se muito cedo no labor literário. Luís Kandjimbo escreve na sua página de internet, Verbetes de escritores angolanos, “Este autor pode ser considerado como sendo um dos raros poetas e ficcionistas que, pela estreia precoce à semelhança de Mário António, assinala com a sua obra a transição de gerações, neste caso da geração de 60 a 70. E tal facto pode estar na origem da sua propensão para o exercício dos vários géneros literários e associações a outras manifestações artísticas...”
Foi em 1966 que lança o livro acima citado, Itetembu. Segue-se na sua safra quatro anos depois, As Mulheres e no ano seguinte, 1971, Pai Ramos. Seguiram-se ainda em poesia, Irmã humanidade (1973), Clima do Povo (1977) que abaixo vai um extrato do poema “ Nós fomos” deste mesmo livro:

“nos ausentaram da palavra
Feriram nossa muxima
Voz nossa desabitada
No código da alienação
E no rosa do tal mapa-rosa
Kissunji gegráfico nós fomos”

Nota-se a recorrência aos termos kimbundo, muxima, kissunji, valorizando de tal modo a nossa língua. E nesta época, quando começa a escrever prosa, Jorge Macedo conta “Iniciei-me em prosa no jornal do Lobito em 1971. Carlos Ervedosa, que orientava a página de Artes e Letras do matutino Província de Angola, convidou-me a publicar os meus contos neste jornal luandense, o que fiz. Mas como eu usava discurso revolucionário, misto de português e termos de kimbundu, uma vez a censura mandou parar a saída do jornal por isso, pois o meu angolanoguês constituia transgressão às normas da correcção da língua...” (MACEDO 2004, contra-capa).
Sua vasta obra em prosa inclui os títulos, Gente do meu bairro (1977), Geografia da coragem (1978), O Menino de Olhos de Bimba (2005) As aventuras de Jójó um excelente conto infanto juvenil, entre outros.
Jorge Macedo escreve com a alma e traz a ribalta um realismo puramente africano e evocando nossas deidades africanas, como por exemplo a Muxima (NOSSA SANTA NEGRA). Conta-nos também histórias da época colonial em que nossos irmãos angolanos eram desterrados para outras paragens. Leia-se alguns extratos no conto Monami (histórias de ssenta e um):

“Mamã não dorme. Não encontra onde esconder-me, pró sessenta e um não me levar. Etu tuambundu a gente frequenta a escola ao contrário. Quinto ano pra não ir no contrato... pra não ir em S. Tomé em exílio monangamba... Mas (uaué) o SESSENTA E UM hoje, raiva da PIDE bate à porta e você, quinto ano, olho de ver injustiça que caputo faz contra tua raça, é levado no JEEP e aí onde você foi... nunca mais volta...
- MAMÃ CORAGEM, DEUS EXISTE! REZA! UM DIA NOSSA RAÇA SERÁ LIVRE!...”

Jorge Macedo, continua a semear o conhecimento, que emana da sua vasta bagagem cultural. Escreve ensaios profundos que lhe confere uma grande dimensão de homem de cultura como já dissemos no início do nosso macro texto. Exortamos a que se leiam os seguintes títulos; Literatura angolana e texto literário e Poéticas na Literatura Angolana, ambos lançados em 1989. Leia-se ainda, Poesia angolana 1975-2005 (2003) e o mais recente ensaio A Dimensão Africana da Cultura Angolana (2006) de 154 páginas contendo vinte e cinco ricos textos e mais dois em anexo, que abordam vários temas como: a questão dos assimilados, a poligamia em Angola a filosofia bantu a música e ainda, entre outros, o poder tradicional. Abaixo alguns extratos:

“A convivência dos angolanos com a cultura luso-europeia deu lugar a um extrato social culturalmente europeizado, mercê da instituição colonial do estatuto de assimilação. Os assimilados eram os africanos que para conquistar o direito à cidadania e suas mordomias, nomeadamente o acesso a cargos públicos auxiliares, nunca de soberania, eram obrigados a abandonar usos e costumes de pais e avós. quando da independência a população angolana de assimilados trasnferiu-se da administração pública colonial para a nacional angolana. Do ponto de vista cultural este extracto especial e sui generis continuou a guiar-se pelo ethos luso-europeu.” Em relação a filosofia bantu Macedo escreve, “O “campo” da filosofia africana em Angola abrange tanto a dos Banto locais e não Bantos... Os antropólogos coloniais não reconheceram quase, a dimensão da racionalidade na pessoa do africano, por não dominarem a escrita, mas por se conduzirem através dos ditames de sua civilização oral, milenar... Os Bantos elegeram o “cágado” para simbolizar a sabedoria”. Sobre a poligamia em Angola, Macedo escreve que ela é uma instituição conjugal legitimada pelo direito consuetudinário banto. O muenexi, entre os povos kimbundu, ou chefe supremo, o soba, possuia três mulheres, a Ngana Vale, que era a mulher chefe da comunidade de esposas, a Samba-Nyanga, que se encarregava dos trabalhos domésticos da casa-mãe e a Samba-Njila que acompanhava o marido em suas viagens. Os portugueses desrespeitaram estes ditames culturais dos africanos e trataram as mulheres dos angolanos como não sendo legítimas, mas como concubinas. No entanto o regime colonial destituido em 1975, é que é a responsável pelas poligamias geradas no seio da comunidade africana, pois eles não conseguiram erradicar o casamento legítimo e plural banto, geraram a poligamia de facto e não de jure, praticada à calada da noite quer por portuguese, quer por africanos europeizados, os assimilados.
Jomo Fortunato, um dos poucos críticos literários da nossa praça tal como o nosso homenageado, escreve, ‘importa referir que uma sociedade, que se pretende de paz e harmonia, e que respeita, legitima e promove a diversidade de culturas, em presença, deve propor uma relação de diálogo da sua personalidade cultural com o mundo. Contudo e é o que se pode depreender do teor da generalidade dos textos da dimensão africana da cultura angolana, de Jorge Macedo – é imperioso ser africano, antes de se ser universal’ .
É de facto um livro que preenche ‘um vazio no domínio da teorização do fenómeno cultural angolano e ao nível da reflexão de tipo endógeno, partindo dos princípios enunciados pelos arautos do nacionalismo angolano dos quais se destaca Agostinho Neto’ arremata Jomo Fortunato in Vida Cultural, edição de 17 de Setembro de 2006.
A grandeza do estimado Jorge Macedo, é ainda notável ao predispor seu precioso tempo para passar sua experiência como homem de cultura. A luz do Núcleo dos estudos literários, que visa iniciar jovens no entendimento do fenómeno literário, o professor Macedo vai estimulando os jovens que têm frequentado suas aulas no Centro Kilamba. É de facto uma grande iniciativa a louvar ainda que, aos olhos de outros escritores (não sei se por inveja ou por que razão) essa iniciativa é falha pois não tem dado frutos. Há sim senhor frutos, tal é o caso do jovem Chaahoo Avô Ngola Avô que já se estreiou com o seu “Folhear o mar no ventre da saliva” um livro de poesia. E ainda surgirão outros que de quando a quando vão expondo seus textos nos espaços poéticos que alguns jornais vão disponibilizando. Espera-se que outros escritores também possam emprestar o seu saber, sua experiência, para que os jovens adquiram então a tão propalada qualidade que se diz estar a faltar nos jovens. Portanto, caros jovens, leiamos, leiamos, leiamos e continuemos a ler para nos aprimorarmos na arte de escrever e assim nos firmarmos no “mundo movediço e permanentemente escorregadio” que é a literatura no dizer do meu amigo Abreu Paxe.
Ao professor Macedo, só temos a te dizer PARABÉNS PARA VOCÊ e que o 16 de Outubro se repita por longos e felizes anos de vida, pois sempre anciaremos beber da tua seiva enriquecedora.




Nguimba Ngola,
Mulemba waxa Ngola, aos 24 de Outubro de 2007, 0:46’.
nguimbangola@gmail.com

26 maio 2007

África mãe do cordão umbilical


Como são lindas tuas entranhas oh formusura cor de bronze
Galgo nas curvas densas da tua fauna gritos de tambor
No cume das tuas pirâmides sinfonias de paz

Oh doce África mãe do cordão umbilical salivo o deserto
Da tua pobreza riqueza ancorada na ânsia do cérebro que debica
No âmago do teu ser

Oh meu bem querer escrever tuas alegrias no rosto negro
Que delira o toque dos tambores no beijo amarelado dos camelos
Oh África Shengor Neto Lumumba no Cabral do Kilimanjaro
Jarros de paz na ansia de Mandela que esfumaça os elefantes do amor
No Kalandula da palanca que voa no ritmo do kissanje gotejando
Festas no Kalahari das tuas nádegas cor de ouro diamante petróleo minérios da vida

Oh minha África sedenta de amor e paz beija Darfur com olhos de alegria
Fazendo magia nos teus olhos negros para união das vozes metáforas de esperança
Que anulam a anorexia que graça na planície desertica onde abutres almejam o sol

Oh minha África anelo teus doces beijos no dúlcido amplexo da unidade fraternal
Ergue-te entesada e plante tua raiz no coração do mundo


14 março 2007

Altar dos teus seios


Oh! mulher
musa colorida dos meus sonhos

Percorro ancioso nas ruas curvilíneas do teu ser
e abrigo-me no oásis dos teus cabelos
saboreando quitutes orgasmícos nas tuas entranhas

Oh! mulher
Enterra-me sempre no teu mar de prazer
e na simbiose dos sonhos
desenharei poemas para colorir
o altar em que teus seios rainhas jazem radiantes


08/03/2007

20 fevereiro 2007

Carnaval


À marimba e ao quissange

ao nosso carnaval

havemos de voltar.
(A.Neto)

19 fevereiro 2007

Levarte na Bienal do Livro

Zé Isolde (exímio declamador) e o Sábio, representando o Levarte na Bienal do Livro em Dezembro.

A plateia vibrante do King's.



Declamando no King's

Nguimba Ngola declamando poesia no King's. Manuela Alfredo, Kardo Bestilo e a Jandira, aguardavam por sua vez.

16 fevereiro 2007

Teus olhos lindos brancos de criança

(Jêssica, de bata, brincando o Zero)

Oh teus olhos lindos brancos de criança
lembram-me algodão doce do musseque
no pula pula da macaca
nas garrafinhas que hoje já têm outras caras
no bica bidon com os filhos da vizinha
e o brincar de papá e mamã na esquina do quintal
lá no Marçal, oh que saudades

oh teus olhos lindos brancos de criança
me trazem a memória os tempos do cassumbula
e do a dar aí, revista e ninguém me revista
o chorar de lágrimas para não ir a escola
nas manhãs molhadas de xixi
e a mamã zangada e a gritar:
“acorda menino já é hora de ir a escola”

oh teus olhos lindos brancos de criança
me animam a soltar estes versos amarrotados
na imaginação esquecida de criança traquina
oh minha linda Jéssica, minha pequena musa inspiradora
Deus te abençoe e o futuro te brinde com muita alegria


24/09/2006 no Centro Imaginação

29 dezembro 2006

O choro de Joaninha


O choro de Joaninha são lágrimas de sangue
Ela banha nas lágrimas do seu rosto por seis dias a fio
Suas lágrimas denunciam a tristeza da alma não fecundada
E jorram angústias e lamentos rubros no canal do seu rio
Quem a liberta deste ciclo que se repete 28 mil dias?

Ela sorgue alegre em campos férteis
Anseia espasmos orgasmicos carregados do branco da vida
Ela anseia a simbiose com o divino na criação de um ser
Clama estridente com seus grandes e pequenos lábios
o amor que se afoga nas dibinzas da vida
e se esconde na camisa sensual e legal devido a sida

Chora, chora, chora Joaninha
Fofinha vistosa e formosa, mãe da vida

Chora, chora, chora Joaninha
lágrimas de sangue sedentas de afecto, carinho
Vem de mansinho seu eterno amor
Joãozinho

Navegam nas estrelas ritmicas do prazer e da responsabilidade
Cessa o choro de Joaninha que goteja alegria divinal
E o ciclo fecha-se por 9 milhões de meses.



Nguimba Ngola, CCBL 29/12/2006, 11:23’.

09 novembro 2006

O grito da manhã

A manhã corre cansada
corre que corre e
suada trilha os caminhos da labuta
com lutas marciais para a vitória da pontualidade

A manhã é um veado
corre que corre e
solta golpes no cavalo azul e branco
adormecido no trânsito maldito
afogado no garrafão

O suor, a catinga, a dor da frustração
exalam palavras ofensivas que estilhaçam
o cérebro amarrotado

A manhã grita estridente
sons cinzentos denunciando o efeito da chuva
que rasga a kianda em pedaços

Nos amassos malcheirosos do uaua e
no ferir dos tímpanos do kuduro malcriado

a manhã chora lágrimas de sangue
clamando aos céus que intervenha
no concerto das entranhas moribundas
e dos esgotos e sargetas sem costuras

A manhã volta a kubata
escondido no pôr do sol
amanhã é outro dia de luta


Nguimba Ngola na Estrada de Cacuaco, 9/11/2006 6:50’

03 outubro 2006

Pincel sinfónico da mente






Meu ser errante navega pensante
no onírico silencioso da noite
e marcas do real desafiam nas nuvens tortuosas
do subconsciente amarrotado e
quadros plásticos a preto e branco
pintam o dilema do povo que clama o pão do amor

Anseio pinceladas a óleo no cinzel da paz
desmistificando o ópaco da mente
ciente de um amanhã contente
esquecido da nebulosidade do real

Na teimosa utopia da alma
o povo canta sinfonias do bem estar
saboreando quitabas alegres
debaixo da mulembeira e da mafumeira

Dançam o semba da vida na in transparência
do céu...
oh céu, que teimas em acordar-me do meu mundo verde
porquê te alegras com o meu sofrer?
se o “o mais importante é resolver os problemas do povo” ?

Deixa o pincel sinfónico pintar o branco do amanhã
com o cinzel onírico da paz
que me apraz.

27 setembro 2006

Tímpanos feridos




Feriram os meus tímpanos
a lira barulhenta ecoou solta no cavalo azul e branco
e gotejou notas sínfonicas venenosas
que sangraram meu silêncio

Minh’alma rasgou-se em pedaços
ofegando amassos da catinga que gargantava
derramando frustrações sedentas do bálsamo
roubado pelo kuduro malcriado

“kota se quiser cai”

E caí...
Sim caí, na poeira dos meus pés
que transportaram-me na serenidade da mente
quase demente
Caí...
do cavalo que serpenteava a esquerda e a direita
sob o olhar impávido da ganância corrupta

Divorciei-me dos decibéis destruidores
que feriram meus tímpanos e
Divorciei-me do casamento do ferro com joelhos
e livrei-me do emagrecimento compulsório
caí do azul e branco de todas as jornadas
armadas de veneno mortífero dos incivilizados



Nguimba Ngola, debaixo da Mulemba xa Ngola aos 27/09/2006